Joseph Blatter, 30 de maio, logo após ser reeleito presidente da Fifa, em entrevista a uma televisão suíça: “Por que eu deveria renunciar? Isso seria admitir que eu fiz algo errado”.

Joseph Blatter, 2 de junho, durante o seu discurso de renúncia: “Apesar de ter um mandato da Fifa, não sinto que tenho um mandato do mundo do futebol, dos torcedores, dos jogadores, dos clubes, das pessoas que vivem, respiram e amam futebol tanto quanto todos nós na Fifa. Por isso, decidi entregar o meu mandato”.

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Quando o Congresso da Fifa reuniu-se, na última sexta-feira, para decidir o próximo presidente da entidade, a investigação do FBI já havia estourado. Dirigentes estavam presos e a pressão sobre Blatter era enorme. Mas o suíço não retirou a sua candidatura, nem as federações retiraram seus votos, e ele levou mais um mandato para casa. O que mudou no panorama do Fifagate nas últimas 96 horas para causar a renúncia do oitavo presidente da Fifa? A água, que estava no pescoço de Blatter, começou a subir com a pressão cada vez maior de federações importantes (leia-se: as europeias). Seu braço direito foi citado na investigação do FBI e o cerco fechou-se ainda mais. O próximo, afinal, só poderia ser ele. E os patrocinadores estão compreensivelmente cansados de sucessivos pedidos de boicote que veem desde os problemas do Catar com a organização da Copa de 2022.

Do alto da arrogância que apenas 17 anos no poder lhe proporcionam, achou que conseguiria lidar com tudo isso e rapidamente percebeu que esse não seria apenas mais um escândalo comum. As federações também devem ter pensado nisso. Os acordos políticos já estavam firmados, e mesmo com as denúncias, pouca gente mudou de ideia. Meio por inércia, Blatter ganhou com o apoio de 133 dos 209 eleitores e comemorou com aquele discurso cínico de que já estava comandando as reformas que a Fifa precisava. “Não precisamos de revolução. Precisamos de evolução”, afirmou.  Tiveram revolução que, se não foi televisionada, foi encenada em alguns atos.

A Uefa, entidade com os campeonatos e clubes mais ricos do mundo, começou a intensificar o discurso de oposição. O dinamarquês Allan Hansen, do Comitê Executivo da entidade, chegou a falar sobre a criação de um torneio paralelo à Copa do Mundo, com as seleções europeias e outras convidadas, como Argentina, Brasil e Uruguai. O inglês David Gill assumiria uma das vice-presidências, mas se recusou a trabalhar sob Blatter. O presidente da FA (federação inglesa) anunciou que apoiaria um boicote europeu à Copa do Mundo de 2018. O presidente da Uefa, Michel Platini, não quis descartar nenhum cenário e admitiu que pediu ao suíço que renunciasse. Convocou também uma reunião extraordinária em Berlim para decidir os próximos passos. O grupo com mais forças para rivalizar com a Fifa articulava-se.

Enquanto isso, bancos ingleses ligados ao futebol, como o Barclays e o Standard Chartered, abriram investigações internas para descobrirem se foram usados por dirigentes da Fifa para o pagamento de propinas e lavagem de dinheiro. Se as suspeitas do FBI estiverem corretas e o esquema de corrupção passou por Estados Unidos e Inglaterra, essas instituições financeiras provavelmente encontrariam evidências.

Patrocinadores como Adidas, Coca-Cola, McDonald’s, Budweiser, Nike, Visa e Hyundai haviam manifestado “preocupação” depois das prisões dos dirigentes, mas nada muito mais categórico do que isso. A pressão para que eles boicotassem a Fifa vinha crescendo gradativamente por causa das denúncias de trabalho escravo na organização da Copa do Catar. Principalmente por um relatório que apontava que aproximadamente 4 mil operários morreriam nas obras necessárias para sediar o torneio. A campanha ficou ainda mais intensa nas redes sociais, imprensa e programas de televisão após a eleição de Blatter. A Coca chamou a renúncia de um “passo positivo para a Fifa transformar-se em uma instituição do século 21”.

Jérôme Valcke foi citado na investigação do FBI como o responsável por autorizar o pagamento de US$ 10 milhões que a África do Sul devia a Jack Warner em troca dos votos para elegê-la sede do Mundial de 2010. Em comunicado, a Fifa negou o envolvimento do seu secretário-geral. No dia seguinte, esta terça-feira, um e-mail foi vazado no qual a federação sul-africana pedia que Valcke destinasse esse valor do orçamento da Copa para a Concacaf com o objetivo de desenvolver o futebol da região. O francês não poderia mais negar que sabia da transferência.

Blatter sabia que uma vez que o seu braço direito entrasse no palco, o FBI estaria próximo demais. Uma fonte dos federais americanos disse à ABC que o suíço é, sim, um dos alvos da investigação. “Agora que estão todos tentando se salvar, existe uma corrida para ver quem será o primeiro a entregar Blatter. Talvez não seja possível derrubar toda a organização, mas talvez nem precisemos”, afirmou. Uma tática de investigação típica do combate dos Estados Unidos à máfia: pressionar os criminosos de baixo e médio escalão a fornecerem informações sobre os seus chefes em troca de penas mais brandas.

Porque Blatter sempre conseguiu ficar à margem das denúncias de corrupção, o que lhe permitia adotar a postura de paladino da honestidade. Desde 2011, última eleição antes da desse ano, quando o oposicionista Mohammed bin Hamman foi banido do futebol junto com Jack Warner por comprar votos, o discurso do suíço era carregado das “reformas éticas” que estava tentando implementar. Quatro anos depois, um escândalo ainda maior eclodiu e ninguém mais comprava essa ideia. Os inimigos mais ponderados não acreditavam que ele teria força ou credibilidade para limpar a imagem da Fifa. Os menos ponderados chamavam-no de cara de pau. Não havia para onde correr.

O ex-presidente da Fifa nunca imaginou que ficaria encurralado tão rápido assim. Disse sábado que a “tempestade ainda não havia a força de um furacão”. Afinal, ele conhece bem demais a entidade e achou que conseguiria sobreviver novamente. Não era uma percepção totalmente desprovida de mérito. Pelo menos desde 1981, quando virou secretário-geral, caminha entre os bastidores do mais alto poder do futebol. Foi braço direito e sucessor de João Havelange. Ganhou cinco eleições e organizou nove Copas do Mundo. Tinha poder, dinheiro e influência, mas desta vez estava lidando com marcadores mais implacáveis que Mascherano ou Gattuso, e por eles nem Al Capone passou impune.

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