“Foi um trem que passou e talvez não passe novamente”, disse Marco Giampaolo. Em 2009, Giampolo havia mantido o Siena na primeira divisão, fora elogiado por Fabio Capello e cotado para substituir Claudio Ranieri na Juventus. O escolhido pela Velha Senhora acabou sendo Ciro Ferrara e sua a carreira degringolou. Quando deu a declaração acima à Gazzetta dello Sport, ganhava uma segunda chance na Serie A, substituindo Maurizio Sarri no Empoli, após quatro anos nas divisões inferiores. Nesta quarta-feira, o trem passou novamente. E Giampaolo nele pulou. É o novo treinador do Milan.

A temporada é de recomeço em alguns dos principais times da Itália. A Juventus tirou Sarri do Chelsea, a Internazionale vislumbra novos horizontes com Antonio Conte, e a Roma teve uma boa sacada com Paulo Fonseca. Giampaolo é uma aposta. Sua melhor colocação na Serie A foi o nono lugar da última temporada com a Sampdoria e seu histórico é de lutar contra o rebaixamento.

Ele se destacou levando o Ascoli à primeira divisão e mantendo-o nela com um sólido décimo lugar. Era, oficialmente, o assistente de Massimo Silva, porque não tinha a licença necessária. Chegou a ser suspenso por dois meses pela gambiarra. Foi ao Cagliari na sequência, com dois períodos – demitido e depois chamado de volta – na temporada 2006/07. Escapou da queda por um ponto. Mandado embora em novembro, foi convocado outra vez, em dezembro, pelo então dono do Cagliari, Massimo Cellino, mas não topou. “Dignidade e orgulho não têm preço”, escreveu ao seu advogado em resposta à proposta do clube.

E, então, veio o Siena, com o qual ficou em 14º lugar, confortavelmente longe da zona de rebaixamento. Nessa época, Fabio Capello deu uma entrevista à revista Marie Claire e, questionado sobre quem seria seu herdeiro, citou, surpreendentemente, Giampaolo. “As palavras de Capello foram inesperadas, uma grande honra. Para falar a verdade, não sei por que ele me mencionou. Eu me sinto a anos-luz do que ele fez e ainda está fazendo. Sua carreira é um sonho para todo treinador, mas, realisticamente, é uma utopia”, disse, segundo o Goal.

Giampaolo, de fato, levou um choque de realidade. Foi demitido do Siena em outubro de 2009 e voltou aos bancos em maio do ano seguinte, pelo Catania. Caiu em janeiro, dando espaço à primeira experiência de Diego Simeone como treinador na Europa. O trabalho seguinte foi o seu mais retumbante fracasso. Recebeu a visita do RH no fim de outubro, com apenas três pontos em dez rodadas do Campeonato Italiano pelo Cesena.

Ele precisou começar de novo. Assumiu o Brescia, na Serie B, no começo da temporada 2013/14. E foi outro desastre. Alguém fez a conta e descobriu que, no meio de setembro, fazia mil dias que Giampaolo não ganhava um jogo oficial, desde que batera o próprio Brescia, por 1 a 0, em dezembro de 2010. “Algumas provocações e insinuações existem apenas para desestabilizar o treinador. É objetivo falar sobre mil dias sem vitórias quando eu passei a maior parte deles caminhando com minha mulher ou olhando para o mar?”, rebateu.

Depois de uma derrota por 2 a 0 para o Crotone, o clube permitiu que líderes da Curva Nord da torcida do Brescia fizessem uma animada reunião com Giampaolo. Foi a gota d’àgua. Pediu demissão e se recolheu em casa. Não apareceu no dia seguinte e desligou o telefone. O caso ganhou outras proporções porque o clube, segundo ele, tentou dar uma enrolada na opinião pública dizendo que o seu treinador havia desaparecido. “Há um conceito que, para mim, não permite exceções: dignidade. É a prioridade. Conversar com os torcedores foi humilhante, inaceitável, e o clube deveria ter me protegido. Eu pedi demissão no domingo e fiquei em casa, mas meu silêncio foi manipulado para criar uma cena”, disse, à Gazzetta dello Sport.

O retorno à primeira divisão muito provavelmente não foi reflexo do bravo oitavo lugar com a Cremonese na terceira divisão, em 2014/15, mas da lembrança do que Giampaolo prometia nas suas primeiras aparições na Serie A e do que havia dado certo para o com Sarri, cujo último trabalho antes do Empoli também havia sido na então Lega Pro, com o Sorrento. “Eu conheço Maurizio Sarri a vida inteira e haverá continuidade às ideias que queremos colocar em campo. O que ele fez aqui no Empoli é incrível. Ele deixou uma rota que é importante seguirmos. É um legado que não será esquecido. Eu tenho a habilidade manter e respeitar os objetivos do clube”, disse, ao ser apresentado.

Giampaolo foi um passo à frente para o Empoli, em termos de resultados. Sarri havia deixado o clube em direção a Nápoles na 15ª posição da Serie A. Giampaolo conseguiu ser décimo colocado. Havia se destacado e, com contrato por apenas uma temporada, ficou livre no mercado para acertar com a Sampdoria e, finalmente, conseguiu encontrar a estabilidade. Em três temporadas, manteve o clube de Gênova sempre no meio da tabela, com duas campanhas em décimo lugar – aparentemente, sua especialidade – e a nona colocação. Parece pouco, mas foi a primeira vez que a Sampdoria terminou três edições seguidas da Serie A entre os dez primeiros desde o fim da década de noventa.

Chegou a dizer que tem “os mesmos princípios” de Sarri, e, realmente, nas suas três temporadas na Sampdoria, comandou um dos times com mais posse de bola da liga, com média entre 51,3%, em sua primeira campanha, e 53,7% na última, quando foi o quinto colocado no quesito, atrás de Internazionale, Napoli, Atalanta e Juventus. Foi também o quinto melhor ataque da Serie A, com 60 gols marcados. Mas a defesa não foi tão boa, com média de 1,45 gols sofridos por rodada ao longo de três anos.

Tido como o dono de uma grande mente tática, Giampaolo também se destacou pelo seu trabalho com jovens. Ajudou a desenvolver jogadores como Piotr Zielinski, Lucas Torreira, Karol Linetty e Dennis Praet. Além disso, tirou bons desempenhos de Duván Zapata e Fabio Quagliarella, atacante que ajudou a formar quando estava no Ascoli, e nesses dois pontos estão a chave para entender a escolha do Milan.

A próxima temporada será de austeridade para o clube rossonero, em discussões com a Uefa para cumprir o fair play financeiro. Cogita até mesmo abrir mão da Liga Europa para obter um prolongamento no prazo para regularizar as contas. As contratações devem variar entre jovens apostas e oportunidades de mercado, jogadores mais velhos ou em baixa. Poucas mudanças em um elenco que já está muito longe das tradições do Milan. Qual grande nome da prancheta aceitaria encarar esse cenário?

Faz, portanto, certo sentido apostar em um treinador que tem um histórico de tirar bons desempenhos de jogadores jovens ou médios. Certo ou errado, o futuro dirá, mas existem elementos para argumentar que a carreira de Giampaolo poderia ser bem diferente sob outras circunstâncias. Sua trajetória oscilou bastante e encontrou diversos obstáculos, mas passou indicações de talento.

A posição do Milan, pelo contexto atual do clube, era desfavorável nas últimas semanas em comparação com seus concorrentes que também buscaram novos treinadores. A possibilidade ainda seria pequena, mas teria chance maior de atrair Conte ou Sarri, por exemplo, se não houvesse cargos muito mais atraentes disponíveis. Com o mercado esgotado, ficou difícil encontrar um nome muito mais forte que Giampaolo, então tentou o pulo do gato, descobrir, em certa medida, um novo Maurizio Sarri. No fim das contas, não tinha muito para onde fugir.