Chacota. Ou praticamente isso. Umas birrinhas quase infantis, por assim dizer. Quando se trata de rivalidade, no entanto, não dá para esperar algo muito diferente. E falamos aqui de rivalidade com R maiúsculo. De River Plate e Boca Juniors. Em divisões diferentes, os dois podem voltar a se encontrar na Copa Argentina ainda nesta temporada. O Torneio Clausura é outra história. Para outro verão. A Libertadores, então… Fica para depois. Nada que tenha impedido os dois rivais de se cruzarem neste verão que se aproxima do fim.

É tradicional. É o que acontece a cada fim de Apertura na Argentina. River e Boca jogaram o Superclássico e deu Boca. 1 a 0. E chacota neles. Indagado sobre a crítica dos adversários, o técnico xeneize Julio César Falcioni rebateu que não daria ouvidos a comentários vindos de quem está abaixo.

Humilhação pouca? A ela se somariam especulações de que o ex-jogador e comandante millonario, Matías Almeyda, poderia ser demitido. Um ambiente perfeito para se trabalhar no Monumental de Nuñez. Na Segundona, a equipe não deslanchou como se esperava. Divide a ponta da tabela com o Instituto, com 40 pontos, e é perseguido por outros dois times, Quilmes e Rosario Central. Falta tranquilidade. Faltam perspectivas para o futuro. Fernando Cavenaghi, sensação do clube na aventura pelo escalão mais baixo de sua história e ventilado na seleção argentina, tem contrato até o meio do ano. Aquele que surgiu como uma possível mina de ouro, Rogerio Funes Mori, surge no noticiário com gols apenas pelos reservas. Os reservas.

Só mesmo a paixão para manter a moral dos torcedores do River em alta. A mesma paixão que trouxe esse mesmo Cavenaghi, um Chori Domínguez e um David Trezeguet de volta. É ela que move o time em sua agonizante trajetória. No Brasil, não se tem muita ideia do que se passa por aquelas bandas. Nada melhor do que um relato de um torcedor, e também jornalista, para traduzir esse sentimento.

Ao longo da última temporada, Andrés Burgo, 38 anos, esteve em 38 dos 40 jogos que marcaram a despedida dos Millonarios da elite. Esteve reticente sobre a publicação de seu livro. Foi criticado por supostamente tirar proveito do desespero de seus colegas. Viu o livro chegar às ruas na mesma semana que em o River perdeu para o Boca Unidos e o outro Boca, o mais tradicional, assegurou o título do Torneio Apertura. É muito Boca para assimilar num momento tão especial. Burgo, então, decidiu trocar o título do livro. De “Diario de un hincha” para “Ser de River”. E acrescentou ainda, com letras pequenas, na capa: “En las buenas e en las malas”.

Em entrevista ao jornal “Rio Negro”, Andrés Burgo falou sobre “las malas”. Em dois tópicos, resumo abaixo. Alguns torcedores podem se identificar com a agonia do clube.

O REBAIXAMENTO

 

“O que aconteceu com o River foi extraordinário. Esses dois meses que antecederam o descenso passaram como se o River estivesse jogando todo o tempo, os sete dias da semana, as 24 horas. Me custava dormir, comia, conversava e assistiva TV pensando no River”

E A MUDANÇA DE PERSONALIDADE

 

“Briguei com a minha esposa. Acabei me convertendo num ser humano desprezível. Vi surgir o pior de mim. Queria subornar os adversários, árbitros, defendi a invasão dos torcedores a campo contra o Belgrano, queria que internassem Jota Jota López (ex-treinador) antes do playoff do descenso… Nem eu conseguia acreditar em mim mesmo.”