Do que se viveu em Lima, a convite da Rexona Brasil

A Conmebol não pode reclamar da sorte em sua primeira temporada de finais únicas nas competições sul-americanas. Apesar de todos os percalços, as situações pareceram conspirar a seu favor. Na Copa Sul-Americana, a mudança a Assunção ajudou, à medida que o Colón alcançou a decisão e pode promover uma grande invasão graças à viagem acessível por terra. Enquanto isso, a Libertadores contou com duas torcidas enormes e, mais importante, a ansiedade do Flamengo pela taça que não vinha desde 1981. A romaria rubro-negra foi massiva, também pelo caráter nacional do clube, com Lima se tornando uma cidade mais próxima a torcedores que saíram do Norte, especialmente, em relação a Santiago.

A opção pela final única ainda merece seus muitos questionamentos, sobretudo por aquilo que é característica dentro dos estádios no continente e pelos problemas infraestruturais na jornada, que criam preços exorbitantes. De qualquer maneira, não dá para negar que a realização da partida no Estádio Monumental “U” deixou mais impressões positivas do que se esperava. E também lições, que podem aprimorar o evento (e o lucro) da Conmebol. Até pelas cifras envolvidas, é difícil imaginar que o cenário se reverterá em breve. Os gastos altos não saem dos bolsos dos dirigentes e, afinal de contas, o discurso de sucesso foi maior do que os entraves no último final de semana.

Para discutir o assunto e relatar um pouco do que vivi em Lima, preparei abaixo uma lista de impressões sobre o que aconteceu em Lima. É uma leitura pessoal, que pode ser ampliada por outras pessoas que estiveram na cidade para a final. Há muita coisa que deu certo, outras tantas que não e também algumas sugestões sobre aquilo que pode melhorar.

Como torcedor e como jornalista, eu ainda prefiro a final definida em dois jogos – sobretudo pelos custos pessoais de quem vai ao estádio, pela realidade socioeconômica do continente, pela identidade dos clubes em seu próprio ambiente e por ampliar o número de espectadores que podem estar nas tribunas, por mais que os preços dos ingressos mais altos também estejam distantes do acesso a todos. De qualquer maneira, muitas das minhas críticas à alternativa se tornaram mais brandas e existem claros ganhos, por mais que a Conmebol tenha deixado a desejar em certos pontos da organização. O exemplo foi positivo e certamente angariou mais adeptos ao modelo.

“A verdadeira festa” da Libertadores

Uma das marcas da Libertadores está na entrada das equipes em campo. Sinalizadores, bandeirões, serpentinas e outros apetrechos são símbolos da competição – e a Conmebol se aproveita disso nos vídeos promocionais, por mais que proíba vários desses artigos. A entidade, no entanto, se superou na lista de itens banidos para a final única em Lima. Até mesmo bandeiras pequenas, inicialmente liberadas, acabaram barradas por policiais. Os dirigentes podem até justificar a “periculosidade” de alguns itens por dificultarem a identificação. Entretanto, há um bom senso que pode existir com uma preparação prévia da entidade continental e a negociação das torcidas. Muitos desses itens fizeram falta. O recebimento perdeu vida dentro do Monumental “U”, apesar da cantoria, das bexigas e dos papéis picados.

Clima nas arquibancadas

De certa maneira, surpreendeu a atmosfera criada pelas torcidas no Monumental “U”. Considerando que parte dos presentes possui um poder aquisitivo maior e que não necessariamente frequenta os estádios, enquanto centenas de aspones ligados a patrocinadores estavam presentes, dava para esperar um ambiente mais arrefecido. De fato, a (longa) caminhada das barreiras até o estádio parecia um tanto quanto quieta, até mesmo pelo peso da ocasião. Ainda assim, as torcidas conseguiram se impor no grito, por mais que isso não tenha durado os 90 minutos.

Os torcedores do Flamengo, maioria nas arquibancadas, estavam mais empolgados no início e explodiram na reta final da partida, especialmente com seus cânticos. Já a torcida do River Plate era intermitente, mas também com seus estopins. Na “disputa do som”, o Fla acabou à frente na soma dos 90 minutos, especialmente pela participação ativa em seu setor exclusivo – embora não ecoasse em todo o estádio, de grandes dimensões e acústica ruim. A participação no fim e a comemoração enlouquecida, de qualquer forma, ficam na memória.

Há soluções à Conmebol para melhorar esta atmosfera. Uma alternativa seria permitir a entrada de instrumentos. São eles que ditam o ritmo e não permitem o silêncio em qualquer estádio do mundo. Basta, mais uma vez, um pouco mais de organização. Se tambores e outros apetrechos entrarem previamente, com a devida inspeção da polícia, os prováveis temores da entidade se tornam infundados. Mas quase sempre o básico parece distante à confederação. Os batuques dariam ainda mais alma à final, como se percebeu na caminhada já depois do jogo, onde os tambores das torcidas flamenguistas estavam presentes.

Preços elevados

Eis o ponto principal a quem é contra a final única. De fato, o jogo em campo neutro será excludente, não apenas por limitar mais o número de presentes nas arquibancadas em relação a dois estádios, mas também pelo preço do deslocamento. O problema é que o custo a muitos chegou a ser surreal, especialmente em relação às passagens. O voo fretado no qual a reportagem da Trivela viajou a Lima custou R$8 mil por cabeça – que, felizmente, não pagamos. O mesmo aconteceu nas passagens das principais companhias. A infraestrutura de transporte entre países não ajuda na América do Sul e as empresas enfiam a faca. Difícil pensar em uma solução, diante da clara limitação. Histórias de sacrifício, como as longas viagens de ônibus ou vendas de bens para bancar o voo, deverão ser comuns neste modelo – o que pode ser bonito para gerar audiência, mas nem de longe é o ideal.

Vale dizer que os gastos se ampliam com hospedagem. Os valores também se elevaram com a demanda, embora as alternativas fossem mais amplas – o que não acontece com a viagem. Outro problema comum foi certa extorsão de taxistas, em uma cidade onde o preço das corridas é determinado na conversa, e não no taxímetro. Viagens relativamente curtas passaram a ser cobradas em três dígitos. Já o preço dos ingressos não parecia fugir do padrão e talvez a final em dois estádios tivesse valores mais exagerados, pelo próprio interesse dos clubes e pela demanda mais alta em suas cidades. O detalhe é que sobraram entradas nas mãos de cambistas. Nos arredores do Monumental, alguns setores eram oferecidos por valores até mais baixos do que os praticados pela Conmebol, na tentativa de não perder dinheiro.

Ganho esportivo

Aqui, por sua vez, o maior acerto da final única. Ficou evidente como resolver o título em 90 minutos chama bem mais atenção do público. Todo o continente, de fato, parecia ter parado para assistir ao duelo entre Flamengo e River Plate. Isso se sentiu também no estádio, onde tudo começaria e terminaria no Estádio Monumental “U”. O clímax no jogo único é bem maior do que em 180 minutos – e os rubro-negros escancararam isso, com sua virada mágica nos instantes finais. Há uma chance bem maior de que o inesperado aconteça e a tendência é que a partida contenha muito mais emoção em si, pela história que se desenrola em um só fio narrativo. O Fla auxiliou a Conmebol a expor essa ideia pela forma como se sagrou campeão.

Transmissão internacional

A final única, além do mais, é mais fácil de se vender a emissoras ao redor do mundo. Foi o que aconteceu com o Flamengo x River Plate, que atraiu o interesse de diversos países da Europa. A Conmebol apenas precisa pensar melhor no horário do jogo. O pontapé inicial às 15h em Lima era o mais interessante aos espectadores europeus, mas teve o seu impacto dentro de campo. O mormaço castigava os jogadores em uma cidade de clima seco e determinou o ritmo do duelo. Os flamenguistas pareceram mais impactados pelo desgaste durante os primeiros minutos. Depois, seriam os millonarios que sentiriam a intensidade imposta por eles mesmos, algo potencializado pelo calor. Para um consenso neste sentido, é bem possível que os países na costa do Pacífico se tornem “menos preferidos” na escolha da sede.

Orgulho do país-sede

Algo bem bacana de se notar foi a maneira como os peruanos receberam a final da Libertadores de peito aberto. Lima possui problemas sociais evidentes em suas ruas. Ainda assim, o orgulho prevaleceu ao evento raro que acontecia no país. Foi apenas a quarta vez na história que a decisão continental ocorreu na capital. A maioria dos peruanos se mostrava bastante solícita e receptiva aos turistas, não apenas por interesse de vender produtos ou aproveitar a injeção financeira, mas também para demonstrar a paixão pelo futebol e mostrar o melhor do país. Foi assim em todas as minhas conversas com os locais.

Muitos peruanos também compareceram ao estádio, alguns já simpatizantes de Flamengo ou de River Plate antes mesmo da definição da final. Ganharam uma chance de experimentar a decisão. Muito ligados à seleção, os locais foram em peso com a camisa blanquirroja – praticamente a única escolhida, em detrimento aos uniformes de seus próprios clubes. Já na mídia, mesmo com outros sete grandes eventos em Lima no mesmo final de semana, a Libertadores era o assunto dominante. Que o ingresso seja salgado, é uma oportunidade a diversões rincões do continente. A Conmebol pode olhar com carinho a eles além das cidades maiores – como o Rio de Janeiro, palco da partida em 2020, que não viverá tal comoção.

Transportes

Planejamento é algo essencial neste ponto. E o Peru teve problemas. No desembarque dos turistas, a imigração no aeroporto de Lima não funcionou em sua máxima capacidade e filas de até três horas se formaram. Considerando a ocasião única, é algo que poderia ter sido solucionado, mesmo sem tanto tempo para planejar. O próprio fluxo de embarques e desembarques sobrecarregou as estruturas do aeroporto, provocando atrasos. Custou horas de espera, mas nada além que eu tenha visto ou ouvido.

Já no caminho ao estádio, o trânsito era caótico. A polícia preparou faixas exclusivas para ônibus de torcidas e também das equipes, o que facilitou o traslado, mas não eram todos que tinham este privilégio. Assim, era preciso calcular a antecedência de ao menos quatro horas o deslocamento até o Monumental “U”. As vias principais estavam extremamente vagarosas, potencializadas também pelo já complicado tráfego de Lima. Curiosamente, nas rádios locais, o esquema era elogiado. Dá para ter uma noção como o dia a dia não é fácil para os limeños. Além dos táxis e dos fretados, a principal alternativa de transporte público eram os ônibus.

Excessos da Conmebol

A gente sabe que o sonho de Alejandro Domínguez é ser Aleksander Ceferin. A Conmebol preparou uma festa muito mais pautada na ânsia de ser Uefa do que na tradição de ser América do Sul. E isso se notou com algumas coisas sem sentido. Tudo bem que o show, por interesse da televisão, precisa anteceder o jogo, mas nem todo mundo aproveitou as apresentações rápidas e pouco ligadas às expectativas pela partida – como havia ocorrido na final da Copa Sul-Americana, por exemplo, com um grupo santafesino incendiando a torcida do Colón. Pior ainda foram as ações dos patrocinadores, com os ridículos Stormtroopers acompanhando Júnior Baiano e Cavenaghi ou as aeromoças que puxaram a fila de jogadores. Tornou-se um anticlímax.

Já no final, outro exagero da Conmebol aconteceu durante a queima de fogos de artifício. Foram cerca de cinco minutos de estouro, no que mais parecia uma tentativa de emular Copacabana. Foi bacana de início, mas perdeu sentido e tomou a atenção da festa que acontecia no gramado. Como não bastasse, cinzas caíram sobre parte das arquibancadas, o que não é nada agradável aos presentes. Seria mais legal se a Conmebol utilizasse ao menos parte da pólvora no recebimento aos atletas. Teria bem mais a ver com o clima de Libertadores.

Empolgação com a peregrinação

Um dos grandes méritos da final única em campo neutro é também transformar tudo em um evento ímpar aos torcedores. E isso se notou pela peregrinação rumo a Lima. Os rubro-negros tinham um claro propósito, aguardando o fim da seca que durou 38 anos. Ainda assim, os millonarios compareceram em número expressivo, considerando a frequência do River nas finais continentais. Esse ato abnegado de demonstrar paixão, por mais caro que custasse, cria uma atmosfera diferente à partida. O Rio de Janeiro certamente pararia. Mas a travessia até o Peru garantiu outras histórias para contar e certamente motiva mais gente a fazer o sacrifício pela viagem, para vivenciar ao máximo. Apesar de todos os pesares pelas limitações e exclusões, a experiência é especial e fará parte do imaginário rubro-negro.

Organização (ou falta dela) dentro do estádio

O Estádio Monumental “U” não estava totalmente preparado para receber a final única, isso ficou evidente, até pela postergada mudança de sede. É uma construção belíssima e que certamente ficará na história do Flamengo. Mas não quer dizer que os torcedores receberam as melhores condições. Primeiro, por deficiências no próprio acesso e nas permissões ao estádio. Muitas pessoas não conseguiram entrar com água, algo básico diante do clima seco, especialmente para quem estava com crianças. E faltaria água para venda em certos pontos do estádio. Os banheiros eram outro problema, com uma condição precária ao que se espera a um evento do tipo.

O maior problema, porém, era a própria organização nas arquibancadas. Foi difícil acessar alguns setores, superlotados. Além disso, corredores de acesso terminaram fechados por policiais, bombeiros, membros da organização e outras pessoas que queriam ver o jogo. Resultado: muitas pessoas precisaram se virar e procurar um lugar para ver a partida longe de onde inicialmente deveriam ficar – algo que ocorreu especialmente nas arquibancadas localizadas nas laterais do campo. Este que vos fala perdeu alguns minutos após o pontapé inicial justamente por esta questão, e assim foi com outras dezenas de presentes.

Entretanto, vale mencionar positivamente a segurança ao redor da partida. Não vi brigas entre torcedores e nem ouvi relatos de problemas do tipo. Havia uma segurança reforçada, além de um clima bastante tolerante entre as duas torcidas. O zelo da Conmebol quanto a artigos que poderiam se tornar “armas”, como cintos, se mostrou excessivo.

Comercialização do evento

Um argumento favorável à final única é a possibilidade de planejar ações comerciais e tornar o “evento” mais rentável. A Conmebol pôde fazer isso em 2019, mas não quer dizer que aproveitou totalmente. Por mais que diversos patrocinadores tenham marcado presença, questões logísticas básicas ficaram a desejar. O uso do Estádio Monumental por essas empresas não foi o ideal, até pela falta de horários disponíveis para as ações. É algo que pode ser aprimorado, já que a confederação continental não ofereceu o melhor apoio possível aos interessados – e ouvi relatos diretos de falta de apoio necessário.

Além disso, a Conmebol também não vendeu da melhor maneira os produtos oficiais da final. A loja com lembranças era bem limitada e os artigos não demoraram a faltar. Muita gente queria adquirir algum presente e a entidade esteve distante de atender a demanda. Era uma possibilidade excelente a se aproveitar e que, no fim das contas, tudo pareceu feito de última hora – e nada a ver necessariamente com a mudança de cidade tão postergada. Procurar os vendedores ambulantes na saída do Monumental acabou sendo a solução a muitos torcedores, com direito a preços até mais módicos nestes produtos não-oficiais.

Mais notadamente, a final serviu para movimentar a economia de Lima. Os pontos turísticos estiveram bem cheios, assim como bares e restaurantes. Quem também aproveitou foram os ambulantes, que deram seu jeito de se preparar à final, mesmo sem muito tempo hábil. Reforçou o turismo na cidade, com parte considerável dos torcedores curtindo outras atrações nos dias anteriores e posteriores à partida.

A infraestrutura

Até pela pressa na escolha da nova sede, o Estádio Monumental “U” virou uma alternativa aceitável. Mas não era um estádio de fácil acesso, com as melhores condições estruturais ou mesmo o melhor conforto. Se a Conmebol deseja um padrão alto à sua final única, e cobrar um preço caro por isso, não foi um exemplo tão bom – pensando na experiência do “consumidor”, não necessariamente do torcedor. Óbvio, a cancha cumpriu o objetivo como estádio de futebol e ficará marcada a muita gente. Mas com seus asteriscos no modelo arenizado dos grandes eventos – incluindo os entraves citados acima, quanto à venda de alimentos ou mesmo os banheiros.

Um desafio à Conmebol será dosar os seus palcos. Não dá para escolher apenas as “arenas” mais modernas de Brasil e Argentina. Por isso mesmo, a própria entidade precisa se mexer. Se há dinheiro de sobra, também pode haver um investimento para melhorar as condições de antemão e contribuir à experiência dos espectadores. A falta de tempo em Lima pode servir de desculpa agora, mas a própria Conmebol tem que agir de maneira mais atuante para preparar outros cantos do continente e não limitar a ocasião aos países mais desenvolvidos – ou pior, a Miami, Doha, Madri ou quem desejar pagar mais. No entanto, pensar nesse investimento parece utopia na lógica de mercado.