O que da Argentina merece destaque

Uma pequena reflexão antes de avançarmos no tema. Você já conferiu a capa da edição de novembro da World Soccer? Está lá o uruguaio Diego Forlán em destaque. Ao lado do jogador, com chamada que também merece a atenção, a crise do futebol argentino. Mas não essa crise já debatida por aqui tantas vezes e que tem como principal dado o jejum de 18 anos sem um título da seleção. Não esta. Mas a da torcida ou, melhor dizendo, dos barra bravas. Os violentos barra bravas.

Ainda nesse momento de reflexão, agora pense: quando se fala em futebol argentino hoje, quais são os assuntos que logo surgem? Messi, claro, mas, em seguida, o que se vê são apenas coisas negativas. Como a reeleição de Grondona para um novo mandato e a violência de seus torcedores. Este último tema, aliás, além de tratado na World Soccer, já foi pauta de várias publicados por aí.

Pensando rápido, recorrendo a essa memória que falha vez ou outra, me recordo de matérias recentes do jornal inglês The Guardian. Uma, não. Duas. A segunda delas imensa, merecendo grande destaque por parte dos britânicos. É o que restou do futebol argentino. Sobretudo quando se trata do jogo local.

Para cada Gio Moreno, Lucas Viatri ou Burrito Martínez que pinta, temos um incidente envolvendo a violência dessas barras para diminuir o valor dos episódios futebolísticos. Não surpreende que vejamos hoje algumas de suas promessas atravessando a fronteira e vindo parar no Brasil. Foi o caso de Manuel Lanzini, de pouco tempo pelos gramados platinos, e pode ser o caso de muitos outros. O próprio Fluminense, na hipótese de não conseguir segurar a revelação do River, já me confessou um dirigente do clube, irá atrás de seu substituto na própria Argentina. Trabalha com três nomes. E mais: pode apostar que conseguirá.

Mais uma vez, é o que restou. Repassemos os últimos dias para ver se não é isso mesmo.

1) No San Lorenzo, ameaçado pelo promedio, afundado numa crise política que pode derrubar um presidente que não chegou sequer a um ano de cargo, um jogador é agredido dentro do próprio campo de treino. Um treino, diga-se, supostamente fechado. Três torcedores conseguiram entrar e foram ao encontro de Jonathan Bottinelli após tentarem conversar com outros atletas. Um nariz quebrado depois, o defensor já cogita abandonar a equipe e o seu destino pode ser o Brasil. A reunião está marcada para a segunda-feira. De novo, não surpreende.

2) Ontem à noite, em reunião do conselho que tinha como objetivo aprovar o balanço financeiro do time, pancadaria e roubos no Quilmes. Ainda não se sabe ao certo, mas os primeiros indícios já apontam para uma atuação da barra interna.

3) E por fim, algo que está diretamente ligado a esses episódios de violência. A violência que se manifesta em campo e encontra eco nas arquibancadas. A entrada criminosa de Mauro Camoranesi em Patricio Toranzo, no jogo entre Racing e Lanús, e as provocações do colombiano Teo Gutiérrez após gol da Academia.

Exposta a situação, dito isso e mais um pouco, fica a pergunta: tem solução? Ter, tem, mas digamos que as autoridades ainda não descobriram. Um pouco por inércia própria, um pouco por falha nas operações promovidas até aqui. Desde 2004, por exemplo, um especialista no assunto, o holandês Otto Adang, atua na Argentina como fruto de uma parceria entre os dois países. Com a experiência de já ter trabalho em algumas edições de Eurocopas e no auxílio à polícia holandesa no combate aos vândalos, Adang chegou a uma triste conclusão em entrevista ao diário Olé, em 2009. “A solução europeia não cabe na Argentina. Lá, os hooligans estavam concentrados em grupos marginais sem relação com o sistema. Aqui, aparecem vinculados ao negócio de maneira surpreendente”, disse.

Por vínculo, o holandês quis dizer direitos econômicos de jogadores, ações de marketing dos clubes, serviços dos mais simples e por aí vai. Faz sentido que World Soccer e Guardian deem mais destaque a esses episódios, não faz?

Ah, passadas 12 rodadas, o Boca lidera o campeonato com seis pontos de vantagem. Mero detalhe, claro.