Os direitos de transmissão da Copa do Mundo são um dos grandes trunfos para a Fifa faturar. Por isso, em 2011, o Fox Sports e Telemundo pagaram US$ 1 bilhão, quatro vezes mais do que o acordo anterior que a ESPN tinha, para terem os direitos da Copa de 2018 e 2022 nos Estados Unidos. Por isso, o anúncio da Fifa nesta semana que o Fox Sports e o Telemundo (que comprou os direitos em espanhol para as mesmas Copas) compraram os direitos da Copa de 2026 sem sequer abrir concorrência levantou suspeitas. ESPN, NBC e Univision, que tinham os direitos de transmissão até a Copa de 2014, certamente estariam dispostas a entrar em nova concorrência e pagar um bom dinheiro. Tudo isso deixou muita gente nos Estados Unidos de sobreaviso. Nas entrelinhas, a Fifa acaba mandando uma mensagem sobre o que está acontecendo. E tudo tem a ver com uma mudança importante na Copa de 2022.

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A importância da Copa nos Estados Unidos

A Copa do Mundo se tornou um evento importante para a TV americana. A Copa 2014, por exemplo, a última transmitida pela ESPN, teve grande audiência no país. A audiência do jogo entre Estados Unidos e Portugal, em junho, supera números da World Series do beisebol e as finais da NBA com 24,7 milhões de espectadores, como mostrou o Extratime. A final da Copa do Mundo entre Alemanha e Argentina teve uma audiência ainda maior, registrando 26,5 milhões de espectadores. Os recordes de audiência criam expectativa pelo futebol nos Estados Unidos, como escrevemos em julho. Mostramos desde a estreia dos Estados Unidos como os americanos estavam curtindo a Copa do Mundo.

Tudo isso já seria motivo para que a concorrência pelos direitos de transmissão da Copa do Mundo fossem uma guerra, como foi em 2011, com cifras astronômicas na mesa. Se lembrarmos que nesta semana a Premier League vendeu seus direitos de transmissão por € 6,7 bilhões por três temporadas, aumentando 70% do valor anterior, é de se imaginar que a briga pelos direitos da Copa do Mundo em um país que a NFL é comprada por US$ 7 bilhões por ano seria enorme. Mas não foi.

“Os acordos garantem larga distribuição para os torneios da Fifa pelos Estados Unidos e Canadá. Juntos, nós seremos capazes de promover ainda mais o futebol na América do Norte e construir sobre o interesse impressionante demonstrado pela audiência nestes grandes territórios durante a Copa do Mundo de 2014”, disse o diretor de TV da Fifa, Niclas Ericson, no comunicado que anunciou a venda de direitos da Copa de 2026 para o Fox Sports e Telemundo.

Há outro fator que levanta ainda mais as suspeitas: os Estados Unidos são favoritos a receber a Copa do Mundo de 2026, com Austrália como principal concorrente. Uma Copa do Mundo nos Estados Unidos elevaria ainda mais o potencial de audiência do torneio. Talvez para patamares nunca antes vistos e as emissoras podem ter a chance de vender patrocínios estrondosos. Considerando que o evento seria 32 anos depois da Copa do Mundo de 1994 e com o futebol muito mais estabelecido no país, o potencial de faturamento comercial para as emissoras é gigantesco. Uma mina de ouro que a Fifa, mesmo com todas as suas incompetências que conhecemos, não deixaria passar batido.

Em 2011, a ESPN, principal emissora de esportes dos Estados Unidos, acabou derrotada na disputa, mas divulgou um comunicado conciliatório sobre a questão. Entendeu a derrota como parte do jogo. “Nós fizemos uma proposta disciplinada que teria sido valiosa para a Fifa e lucrativa para a nossa empresa, enquanto continuamos crescendo nossa cobertura sem precedente da Copa do Mundo e da Copa do Mundo feminina. Nós fomos agressivos, enquanto permanecemos prudentes de uma perspectiva de negócio”, dizia o comunicado na época. É, mas agora foi bem diferente.

O presidente da ESPN, John Skipper, deu entrevista mostrando a surpresa e indignação. “Nós ouvimos a notícia na quinta com a divulgação do comunicado da Fifa”, declarou o executivo. “É a maneira longe do ideal para um antigo parceiro saber sobre isso assim”. Mais tarde, a emissora emitiu um comunicado para comentar o tema. “Nós não fomos convidados para nos envolvermos neste processo. Considerando a alta qualidade da apresentação que a ESPN demonstrou e a exposição que nós trouxemos aos eventos da Fifa em todas as nossas plataformas, foi surpreendente e decepcionante saber disso quando o comunicado à imprensa foi divulgado”, diz nota da ESPN.

A Univision, que também tinha os direitos até 2014 e perdeu para 2018 e 2022, foi outra a declarar que nem sabia da disputa. “Nós não formos convidados a participar do processo e achamos curioso que a Fifa pensa que deixar o veículo hispânico número 1 nos Estados Unidos de fora da disputa de propostas é bom para o crescimento do futebol nos Estados Unidos”, declarou um porta-voz da Univision, segundo o World Soccer Talk, da NBC. Comunicados em tons fortes, palavras duras contra a Fifa, o que deixa evidente que as emissoras de fato foram excluídas de qualquer chance de concorrência.

Não houve qualquer disputa pelos direitos de transmissão. A Fifa simplesmente anunciou que os direitos de transmissão da Copa de 2026 serão das mesmas transmissoras de 2018 e 2022, Fox Sports e Telemundo. Sem concorrência, sem uma guerra de propostas. Na surdina. Por que a Fifa não convocaria NBC (uma das maiores emissoras do país e que transmite a Premier League para os Estados Unidos, por exemplo) e a ESPN para fazer com que o valor dos direitos de transmissão aumentassem? Bom, a explicação tem tudo a ver com a Copa do Mundo de 2022, em um jogo de mudanças programadas, precaução política e compensação financeira para que a Fifa (mas especialmente quem a comanda, Joseph Blatter) tenha o menor prejuízo possível.

Copa no inverno prejudica a TV, que tem NFL e Olimpíada de inverno na grade
Fox Sports tem os direitos da Champions League e Liga Europa nos Estados Unidos
Fox Sports tem os direitos da Champions League e Liga Europa nos Estados Unidos

Falamos muito sobre a Copa de 2022 aqui na Trivela. O forte calor foi considerado um impeditivo para a realização da competição no Catar, vencedor da disputa para ser sede deste Mundial, conforme relatório do inspetor que foi ignorado pela Fifa. Mas como realizar uma Copa do Mundo no verão de um país que alcança 50°C? A promessa de tecnologia de ponta para resfriamento dos estádios e de áreas como as Fan Fests. Só que isso não foi suficiente para convencer nem jogadores, nem clubes, nem dirigentes e muito menos os torcedores. Por isso, a Fifa passou a considerar a possibilidade de mudar o período da Copa do Mundo de junho/julho, como é feita desde a primeira edição, em 1930, mas o verão do hemisfério norte, entre dezembro e fevereiro. As reações foram muito negativas.

Um dos primeiros insatisfeitos foi o Comitê Olímpico Internacional, o COI. Isso porque uma eventual Copa em janeiro competiria diretamente com as Olimpíadas de Inverno. Os clubes europeus também não gostaram e engrossaram a voz contra a mudança proposta por Joseph Blatter. Não é difícil entender: as ligas e clubes europeus não querem a Copa do Mundo no meio da temporada. Isso atrapalharia todo o calendário, que teria que ser completamente modificado para atender a isso. Uma Copa em janeiro, por exemplo, mexeria com pelo menos três temporadas: a anterior, a da Copa e a seguinte. A realização da Copa de 2022 no inverno tem implicações políticas sérias, como explicamos aqui.

Tudo isso é um problema para a Fifa, mas o maior de todos não está em nenhum dos motivos acima. É a TV, dona dos direitos de transmissão. Quando o Fox Sports gastou uma fortuna para tirar a Copa do Mundo da ESPN, comprou um grande evento para o verão americano, justamente junho, julho e agosto, quando a concorrência é apenas com o beisebol e o basquete, sendo que o primeiro é transmitido só de forma local, basicamente, e o segundo é justamente da concorrente ESPN. Mas é pior do que isso.

Uma mudança para o inverno faria a Copa ter que concorrer com a NFL, o futebol americano profissional e sempre recordista de audiência nos Estados Unidos, e potencialmente até o futebol americano universitário, duas das atrações que o Fox Sports exibe. Aliás, não só o Fox Sports. E, por isso mesmo, concorrer com o esporte que mais dá audiência e mais gera receita é um mau negócio para a Fox. Primeiro, porque é difícil para montar a grade. Imagine ter que escolher entre jogos da NFL e um Camarões x Croácia. Mas principalmente porque a audiência se divide, os patrocinadores também. É um prejuízo financeiro para a emissora – ou, ao menos, diminui bastante o potencial de faturamento. Para a TV, ter a Copa do Mundo em dezembro ou janeiro é um desastre.

O verão é o período ideal para o Fox Sports ter um evento de peso como a Copa em sua grade. Por isso, a empresa, que é de Rubert Murdoch, fez pressão para evitar a mudança. “O Fox Sports comprou os direitos da Copa do Mundo entendendo que ela seria disputada no verão, como tem sido desde os anos 1930”, diz um comunicado do Fox Sports em 2013, depois de uma declaração de Joseph Blatter apoiando a mudança do período de disputa da Copa do Mundo de 2022 para o inverno do hemisfério norte, entre dezembro e fevereiro. Uma posição que deixou a Fifa em uma situação delicada. Como desagradar quem paga os direitos de transmissão da Copa, maior fonte de receita da entidade? Bom, a mudança da Copa de 2022 ainda não está definida. Será votada em breve. Mas era preciso agir rápido.

Fifa administra o prejuízo e compensa TV
Sede da Fifa em Zurique (AP Photo/Michael Probst)
Sede da Fifa em Zurique (AP Photo/Michael Probst)

Aparentemente, “dar” os direitos de TV da Copa de 2026 para Fox Sports e Telemundo é uma forma de compensar. E uma forma que pode gerar muito lucro pela possibilidade da Copa ser nos Estados Unidos. É uma forma de evitar que a Copa de 2022 cause ainda mais problemas para a entidade. Porque se a TV fizer mesmo força e eventualmente até processar a Fifa por conta de contratos assinados – que, assim como as candidaturas, previam um torneio entre junho e julho -, o prejuízo pode ser grande. E não só financeiramente.

Politicamente, Blatter seria ainda mais questionado. E em um momento que ele precisa se eleger neste ano para não deixar o cargo de presidente da Fifa, essa é uma questão ainda mais delicada. Seria uma forma de satisfazer as detentoras dos direitos e, assim, evitar que uma avalanche se forme daí. Vale lembrar que Blatter terá, pela primeira vez desde que assumiu a presidência da Fifa em 1998, concorrência para o principal cargo da entidade. O ex-jogador Figo, o presidente da Federação Holandesa de Futebol (KNVB), Van Praag, e o príncipe da Jordânia, que é também presidente da federação de futebol do país, Ali Bin Al Hussein.

Para alguns membros da imprensa esportiva americana, a misteriosa renovação dos direitos de transmissão nas mãos dos atuais detentores, Fox Sports e Telemundo, é um sinal claro que a Copa do Mundo de 2022 será  sim no inverno. É o que acredita Grant Wahl, renomado jornalista da revista Sports Illustrated especializado em futebol.

Um companheiro de Wahl na revista Sports Illustrated, Richard Deitsch, escreveu que fontes disseram acreditar que a renovação implica que a Copa de 2022 será no inverno americano. “Algumas pessoas de dentro sugerem que dar ao Fox Sports e Telemundo uma rodada extra sem abrir para concorrência significa que a mudança da Copa do Mundo de 2022 para o inverno está fechada. Os atuais detentores dos direitos na América do Norte seriam prejudicados pela mudança, já que o calendário esportivo cheio de inverno diminuiria a audiência. A Fifa estender os direitos da Fox e Telemundo, e não abrir para outros competidores, pode ser visto como uma compensação pela mudança do torneio do Catar”, diz a matéria da Sports Illustrated.

O mais curioso disso tudo é que a Fifa parece não ligar que o Catar seja acusado de usar trabalho escravo, nem que prenda jogadores dentro do país por mero capricho. Com tantos problemas, a Fifa tem excelentes motivos para tirar a Copa do Catar, basta querer. Não tirou. Até aqui, pelo menos. A jogada com as TVs pode ser só uma forma que Blatter achou de não ser prejudicado nas eleições presidenciais, mas o custo é alto. Talvez romper o contrato com os catarianos e tirar a Copa de 2022 do Catar seja juridicamente complicado demais e a Fifa esteja só tentando diminuir os prejuízos que ela vai trazer, sejam políticos, sejam financeiros. O que parece cada vez mais claro é que a Copa deve ser mesmo no inverno e esse será um problema grande para todo mundo lidar. E, aparentemente, ela será pela primeira vez na história, entre dezembro, janeiro e fevereiro.