Durante a semana, boa parte da imprensa brasileira pareceu aguardar uma declaração específica de Jürgen Klopp. Enquanto o treinador do Liverpool não falasse que estava se dedicando ao duelo contra o Flamengo e não exaltasse o momento atravessado pelo time de Jorge Jesus, muita gente não sossegou. O alemão demorou a satisfazer tal ânsia, mas soube curvar os microfones com suas tradicionais entrevistas carismáticas. Na véspera da final do Mundial de Clubes, as frases de efeito do técnico ganharam as manchetes, embora ele não deixasse de relativizar o peso da competição aos Reds.

À frente do Liverpool 38 anos atrás, Bob Paisley não era tão hábil no trato com os jornalistas. O treinador mais vitorioso da história de Anfield possuía um perfil mais silencioso e tímido, a ponto de precisar de auxílio durante suas primeiras entrevistas. A cobrança, porém, não mudou tanto desde seus tempos na casamata vermelha. O interesse por saber o que os ingleses realmente pensavam do Mundial e do Flamengo dominava as perguntas também em 1981, ao longo da preparação para o jogo em Tóquio. As aspas de Paisley, mesmo depois de tanto tempo, oferecem uma visão preservada de como os Reds entendiam o torneio intercontinental.

E há paralelos claros entre o Klopp de 2019 e o Paisley de 1981, por mais que sejam figuras totalmente diferentes. Ambos não se dedicaram com tanta antecedência a estudar o Flamengo, ao menos conforme suas declarações públicas. Os dois também pregaram respeito aos rubro-negros por seus feitos. Já depois da competição, com a derrota por 3 a 0 no Estádio Nacional, a bronca de Paisley esteve expressa em suas palavras. O Jornal do Brasil chega até mesmo a descrever que o veterano estava “abatido, mas cortês”.

Abaixo, resgatamos uma porção de declarações de Bob Paisley concedidas naquela semana, antes e depois da partida em Tóquio. Elas foram publicadas por veículos brasileiros e ingleses. Vale ressaltar que boa parte das análises do treinador após a derrota foram realizadas durante uma curta coletiva de imprensa, na saída do estádio. Há alguns trechos até mesmo conflitantes, que se explicam pelas diferentes transcrições e edições dos veículos. Tentamos realizar uma seleção com as aspas mais completas e mais repetidas por diferentes jornais, para limar os ruídos. Confira a compilação:

Paisley antes da final

Sobre a forma de encarar o Flamengo e o Mundial

“Meu time jogará o futebol de sempre. Em termos de prestígio, a vitória muito significará ao Liverpool. Não só porque enfrentará uma equipe brasileira, mas, especialmente, porque na história do Mundial Interclubes jamais uma equipe inglesa ganhou a finalíssima. Não estamos muito bem no Campeonato Inglês. Talvez uma vitória em Tóquio seja o início da recuperação técnica do time. Além disso, receberemos uma ótima cota nesta viagem ao Japão”, O Globo, 7 de dezembro de 1981.

O histórico de violência nos jogos do Mundial

“O jogo vai ser duro, mas limpo. Qualquer jogador do meu time que tiver uma atitude violenta ou desleal será imediatamente substituído”, O Globo, 7 de dezembro de 1981.

O peso do título inédito

“Somos o primeiro clube britânico a vencer a Copa da Europa três vezes e também queremos ser o primeiro a vencer o Mundial. Estamos entrando no jogo às escuras, porque não conseguimos avaliar os oponentes. Mas nós certamente não teremos uma atitude de quem não dá a mínima. Há muito prestígio em jogo. Temos nossa reputação a defender e ampliar”, Evening Standard, sem data, antes da partida.

As ausências nos Mundiais de 1977 e 1978

“Das outras vezes, o aperto do nosso calendário era grande. Agora, conseguimos antecipar um jogo contra o Birmingham. Desta forma, vamos enfrentar o Flamengo convencidos de que esta poderá ser uma grande partida”, Placar, 11 de dezembro de 1981.

A importância do prêmio

“Sim, as condições financeiras são boas e nós estamos vivendo um momento difícil, com a média de público nos nossos jogos reduzida para cerca de 40 mil, quando habitualmente é de quase 50 mil”, Placar, 11 de dezembro de 1981.

Conhecimento do adversário

“Infelizmente, não sei nada sobre o Flamengo. Mas, por favor, não interprete este desconhecimento como falta de respeito. Muito ao contrário. Eu me incluo entre os maiores admiradores do futebol brasileiro. Só que tudo o que sabemos do Brasil, no momento, limita-se à Seleção. Mas sei que o Flamengo é o time de Zico e do Júnior, isso é uma boa recomendação”, Placar, 11 de dezembro de 1981.

Possíveis brigas entre os times

“No meio de uma temporada como a nossa, não se pode expor os jogadores, mas no que se refere a este jogo com o Flamengo, acho que a ideia de disputar a final num campo neutro é boa para os dois lados. O que posso garantir é que meu time é leal. Para dar uma ideia, nos meus oito anos como técnico do Liverpool, só tive quatro jogadores expulsos. Eu não admito indisciplina”, Placar, 11 de dezembro de 1981.

Os relatos sobre a violência nos jogos contra o Cobreloa

“Soube das expulsões em Montevidéu e claro que isso nos preocupou. Mas não esperamos que haja complicações em Tóquio. Soube que o Flamengo é muito técnico e times desse tipo não precisam recorrer a nada além do próprio futebol”, Placar, 11 de dezembro de 1981.

Incentivos aos jogadores

“Não estou armando um esquema especial, pois não conheço meu adversário. E de forma alguma haverá incentivo financeiro para os jogadores. Aqui pagamos uma importância fixa por jogo, qualquer que seja o resultado. Em caso de empate duplicamos e, de vitória, triplicamos. Não vamos abolir esse sistema agora. E informo que o máximo que pagamos até hoje foi seis mil libras, pela conquista da Copa da Europa, em 1978”, Placar, 11 de dezembro de 1981.

As oscilações recentes do time

“Esse tipo de comentário [o Liverpool não é mais o mesmo] é comum a essa altura da temporada. Nós ainda não atingimos o melhor de nossa forma. Mas já começamos a jogar bem”, Placar, 11 de dezembro de 1981.

O desgaste da maratona de jogos

“Este título é importante para nós. Nada vai tirar a motivação dos nossos jogadores. Quanto ao cansaço, ele não existe mais”, O Globo, em 11 de dezembro de 1981.

A maneira de se portar em campo

“Por que dizer que jogarei no ataque? Nossa equipe sempre jogou de um jeito e, diga-se de passagem, com os melhores resultados. Jogar na defesa não significa abrir mão do ataque. Apenas, pelas próprias características do nosso futebol, costumamos buscar os gols mais em contra-ataques do que jogando aberto, como fazem vocês, brasileiros”, O Globo, 12 de dezembro de 1981.

A guerra psicológica

“O técnico do Flamengo sabe como joga nosso time? Parabéns para ele. Acho que também conheço algumas coisas do time dele. Vamos ver no campo quem consegue neutralizar quem”, O Globo, 12 de dezembro de 1981.

A influência da seleção no Liverpool

“Não se esqueçam que a Inglaterra acaba de conquistar uma classificação à Copa que já era considerada quase impossível. Isso deu novo alento a todo o futebol inglês. E o Liverpool tem jogadores da seleção”, O Globo, 12 de dezembro de 1981.

As dúvidas sobre as condições do gramado

“Nada há que impeça dois times de realizarem um grande espetáculo, comprovando para a torcida de todo o mundo que são realmente os melhores e que chegaram a esta decisão com méritos. Eu não poderia, em juízo perfeito, esperar facilidades num jogo como esse”, Jornal dos Sports, 12 de dezembro de 1981.

As virtudes do Flamengo

“O Flamengo tem jogadores excepcionais, como Zico e Júnior, incluídos entre os melhores do mundo, e conta ainda com vários outros jogadores da Seleção. Um grupo assim, que atua junto há muito tempo, só pode ser uma grande equipe. Mas estou otimista, porque o Liverpool também é muito bom”, Jornal dos Sports, 12 de dezembro de 1981.

Paisley depois da final

A irritação

“Dizer que estou desapontado é o eufemismo do ano. No primeiro tempo, em particular, nunca vi nosso time tão abatido, fisicamente e mentalmente. Simplesmente não conseguia entender. Foi aí que perdemos o jogo. Sofremos dois gols estúpidos e o terceiro… bem, estava em óbvio impedimento. Mas isso não vem ao caso. O Flamengo mereceu a vitória”, World Soccer, janeiro de 1981.

A bronca com a falta de atitude

“Faltavam ideias e faltava também agressividade. Possivelmente a violência dos Mundiais anteriores não nos favoreceu, porque estávamos determinados a não nos envolvermos com isso. Nosso raciocínio parecia lento, achei isso inacreditável. Estávamos tão mortos…”, Daily Mirror, 14 de dezembro de 1981.

O jogo envolvente do Flamengo

“Enquanto um jogador nosso precisava tocar na bola três vezes para iniciar uma jogada, eles tocavam de primeira. Assim fica muito mais difícil a marcação. Estivemos mais tempo no ataque durante o segundo tempo e não marcamos o gol. O Liverpool deixou se envolver pelo Flamengo e os brasileiros ditaram o ritmo da partida”, Jornal do Brasil, 14 de dezembro de 1981.

Queixas sobre o campo

“O campo deixou em vantagem o jogo dos brasileiros. Eu teria preferido um gramado mais leve e rápido. Mas, dito isso, jogamos nas mãos deles. Nunca nos movimentamos ou conduzimos a bola como geralmente fazemos. Mas estou certo que isso não tem a ver com o gramado, basicamente”, World Soccer, janeiro de 1981.

A mudança de postura no segundo tempo

“Foi uma atuação decepcionante. No intervalo, instruí meus jogadores de defesa e de meio-campo para que subissem mais. Faltava agressividade ao time. Mas de nada adiantou. Fomos mais ofensivos no segundo tempo, mas quase o Flamengo marca mais gols”, Jornal do Brasil, 14 de dezembro de 1981.

Méritos do Fla x deméritos do Liverpool

“O Flamengo foi um time muito melhor hoje. A técnica deles era melhor que a nossa no gramado, mas acho que nós poderíamos oferecer uma partida bem mais dura. O primeiro tempo foi terrivelmente decepcionante, porque permitimos que eles desacelerassem o jogo e não colocamos uma pressão real. Não sei o que deu errado. Os rapazes foram instruídos a evitar qualquer incidente e, possivelmente, isso pode tê-los impedido de jogar o natural. A partida estava acabada no intervalo”, Liverpool Daily Post, 14 de dezembro de 1981.

Os jogadores

“No segundo tempo, colocamos outro atacante, mas tínhamos tomado esses gols ridículos. Craig Johnston foi provavelmente nosso melhor jogador. Ele se saiu bem em circunstâncias difíceis. Trabalhou muito duro. Se os outros jogadores tivessem a mesma atitude… Eles pareciam muito lentos no raciocínio! Aconteceram lances que, em circunstâncias normais, eles teriam aproveitado, mas não conseguiram ler corretamente”, World Soccer, janeiro de 1981.