Quem com gol de ouro fere com gol de ouro será ferido, diz o ditado que eu acabei de inventar. Senegal passou na prorrogação contra a Suécia para sucumbir, também no tempo extra, para a Turquia, nas quartas de final, encarando o fim de um conto de fadas, de uma trajetória improvável na Coreia do Sul e no Japão, onde venceu a campeã França e se tornou apenas a segunda equipe africana a chegar às quartas de final de uma Copa do Mundo.

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A bola veio da direita, e Ilhan Mansiz marcou o gol decisivo, no quarto minuto da prorrogação, credenciando a seleção turca para enfrentar o Brasil, 15 anos atrás, na última quinta-feira. Aos senegaleses, restou comemorar a excelente campanha e se preparar para receber as propostas polpudas que sempre aparecem para os destaques da Copa do Mundo.

E não é que elas quase não vieram?

Apenas Salif Diao e Diouf receberam propostas milionárias imediatamente depois da Copa do Mundo, ambas do Liverpool, e nenhum dos dois deu muito certo. Bouba Diop também acabou vendido por um valor considerável, mas apenas duas temporadas depois do Mundial. A maioria seguiu em seus clubes por mais alguns anos e foram contratados como apostas por clubes não tão relevantes, principalmente da França e da Inglaterra, e colecionaram poucos títulos e glórias. Todos ainda relembram aquele mês mágico no Japão como o auge de suas carreiras.

#1 Tony Sylva (goleiro): A Copa de 2002 teve goleiros de destaque. Oliver Kahn foi eleito o melhor jogador. Marcos fez uma grande campanha pelo campeão Brasil. E Tony Sylva segurou as pontas de Senegal, sofrendo cinco gols em seis partidas, três deles no empate com o Uruguai, na última rodada da fase de grupos. Aos 27 anos, era reserva do Monaco, naquela época, e reserva continuou sendo, apesar da campanha no Mundial asiático. Quando seu contrato com o clube em que foi revelado terminou, assinou com o Lille, pelo qual disputaria 133 partidas de Ligue 1 ao longo de quatro anos. Foi titular das boas campanhas do clube entre 2004 e 2006, com segundo e terceiro lugar, respectivamente, e defendeu as metas nas oitavas de final da Champions League, contra o Manchester United. Saiu em 2008, por € 600 mil, para o Trabzonspor. Encerrou sua carreira após duas temporadas na Turquia.

#2 Omar Daf (lateral esquerdo): Capaz de atuar nas duas laterais, foi o defensor do flanco esquerdo de Senegal durante a Copa do Mundo. E teve uma carreira bem mais ou menos. Ficou 12 anos no Sochaux, de 1997 a 2009, mas foi pouco utilizado. Soma apenas 205 partidas pelo clube, média de 17 por temporada. Saiu, sem custos, para o Stade Brest, o qual ajudou a sair da segunda divisão. Após três anos no novo clube, retornou ao Sochaux para encerrar a carreira, com apenas dois jogos de Ligue 1 na sua última campanha, já aos 35 anos. Na mesma época, defendeu Senegal mais uma vez, na Copa Africana de Nações de 2012.

#3 Pape Sarr (meia): Jogou apenas 45 minutos contra a Dinamarca, no empate por 1 a 1, na segunda rodada da fase de grupos. Foi uma das suas 13 partidas pela seleção senegalesa, muitas delas (seis) nas Eliminatórias para a Copa de 2002. O meia-atacante havia acabado de ser negociado pelo Saint-Étienne, seu formador, para o Lens, por € 750 mil. Entrou 17 vezes em campo na primeira temporada no novo clube, antes do Mundial. Voltou a ganhar mais chances apenas no último ano antes de ser emprestado ao Alavés. Foi cedido outra vez, ao Istres, da segunda divisão, e saiu, de graça, para o Stade Brest, no começo de 2006. Perambulou por clubes menores da França até se aposentar, seis anos depois.

#4 Pape Malick Diop (zagueiro): Foi capitão de Senegal contra a Dinamarca e titular em todos jogos. Só não atuou em metade das oitavas de final contra a Suécia porque foi substituído por Habib Bèye, aos 21 minutos do segundo tempo – a partida foi para a prorrogação. Já tinha 28 anos e havia acabado de chegar ao Lorient, comprado do suíço Neuchatel Xamax, por € 700 mil. Viajou à Ásia ainda amargando o rebaixamento à segunda divisão francesa. Ficou mais três anos no clube francês, com 88 partidas no total, a maioria na segunda divisão. Em 2005, saiu para o Guingamp. No ano seguinte, foi para o Metz, no qual jogou até se aposentar.

#5 Alassane N’Dour (volante): Só entrou em campo contra o Uruguai, na terceira rodada da fase de grupos. Foi titular e acabou substituído por Amdy Fayé, aos 31 minutos da segunda etapa. Havia acabado de subir ao time principal do Saint-Étienne. Defendeu o maior campeão francês – ao lado do Olympique Marseille, com 10 títulos – por duas temporadas na segunda divisão. Foi emprestado ao West Brom, no começo da temporada 2003/04, e ganhou um belo banquinho na campanha de acesso à Premier League. Fez o caminho de volta no Canal da Mancha para defender o Troyes, mas jogou apenas 18 vezes em três anos no novo clube. Depois de nove meses parado, tentou ganhar a vida na Inglaterra mais uma vez, no Walsall, da terceira divisão, e também não deu certo. Encerrou a carreira no Doxa Dramas, da Segundona grega.

#6 Aliou Cissé (meia): Capitaneou a equipe em quatro das cinco partidas da Copa do Mundo e só não atuou na segunda rodada, contra a Dinamarca. Era jogador do Paris Saint-Germain e havia sido emprestado ao Montpellier, na temporada pré-Mundial. Quando retornou, foi vendido por € 2,25 milhões para o Birmingham. Começou como titular, atuando em 18 das primeiras 20 rodadas da Premier League, mas foi pouco a pouco perdendo espaço. Reserva, acabou repassado ao Portsmouth, dois anos depois, por € 450 mil. Ficou mais duas temporadas neste clube, também sem jogar muito. Encerrou a passagem pela Inglaterra com 59 partidas de primeira divisão em quatro anos, média de quase 15 por temporada. Jogou no Sedan e no Nîmes Olympique até se aposentar, em 2009.

#7 Henri Camara (meia): Começou a Copa na reserva, entrou no segundo tempo contra a Dinamarca e deu duas assistências contra o Uruguai. Nas oitavas de final, já titular, foi decisivo com os dois gols da vitória sobre a Suécia. Era jogador do Sedan e foi vendido, em 2003, ao Wolverhampton, por € 2,25 milhões, e é um dos poucos daquele time que se valorizou. Dois anos depois, saiu para o Wigan, por € 6,45 milhões. Fez uma boa estreia pelo novo clube, com 29 jogos e 12 gols na Premier League, mas não manteve o rendimento e foi emprestado ao West Ham, sem sucesso. Jogou mais seis meses no Wigan, outro semestre cedido ao Stoke, uma temporada no Sheffield United, e chegou à Grécia, em 2010, onde jogou até o ano passado, quando defendeu o Apollon Smyrni, da segunda divisão.

Camara comemora seu gol de ouro contra a Suécia (Foto: Getty Images)
Camara comemora seu gol de ouro contra a Suécia (Foto: Getty Images)

#8 Amara Traoré (atacante): Já era veterano, aos 37 anos, e sequer entrou em campo na Copa do Mundo. Encerrou a carreira na temporada seguinte e se tornou treinador. Comandou Senegal por três anos e classificou a equipe à Copa Africana de Nações de 2012, mas foi eliminado na fase de grupos com três derrotas em três partidas.

#9 Souleymane Camara (atacante): Tinha apenas 20 anos na Coreia do Sul e no Japão e ganhou experiência com 38 minutos contra a Dinamarca. Havia acabado de subir ao time principal do Monaco e ficou no Principado até 2005, quando foi vendido ao Nice, por € 1 milhão. Dois anos depois, foi emprestado ao Montpellier e, em seguida, contratado em definitivo. Está no Montpellier desde então e já soma 370 partidas pelo clube, com 68 gols marcados. Na última temporada, já com 34 anos, entrou em campo 31 vezes, 13 como titular, e anotou um único tento, contra o Lorient, na 11ª rodada.

# 10 Khalilou Fadiga (meia): Foi titular em quatro dos cinco jogos da Copa do Mundo, com exceção das oitavas de final contra a Suécia. Um ano depois do Mundial, foi contratado pela Internazionale, por € 300 mil, com vínculo de três anos, mas, com problemas cardíacos, não conseguiu jogar pelo clube italiano. Contratado pelo Bolton, desmaiou em campo e teve um desfibrilador instalado em seu peito. Teve a carreira ameaçada, mas perseverou. Acabou atuando 18 vezes pelo clube inglês. Saiu do Rebook Stadium para jogar no Al Wakrah, do Catar. Voltou para a Bélgica, em 2008, onde defendeu Gent, Germinal Beersch e KSV Temse, antes de se aposentar, aos 38 anos. Com o coração em dia.

#11 El Hadji Diouf (atacante): Diouf saiu da Copa do Mundo como a principal estrela da seleção. Não foi uma exibição isolada: ele havia sido eleito o melhor jogador africano do ano anterior e comeu a bola nas Eliminatórias. O Liverpool investiu € 15 milhões para tirá-lo do Lens e não deu muito certo. Com problemas internos – não perde uma chance de falar mal de Gerrard -, ficou apenas dois anos, com cinco gols em 77 partidas. E aí, começou a perambular. Até teve bons momentos no Bolton, antes de passar por Sunderland, Blackburn, Rangers, Doncaster Rovers e Leeds United. Encerrou a carreira após seis meses turbulentos no Sabah, da Malásia.

Diouf: o mais caro dos senegaleses (Foto: Getty Images)
Diouf: o mais caro dos senegaleses (Foto: Getty Images)

 #12 Amdy Fayé (meia): Atuou os 120 minutos da histórica partida de oitavas de final contra a Suécia. Saiu do Auxerre para o futebol britânico, um ano depois da Copa, e nunca se firmou. Passou por Portsmouth, Newcastle, Charlton, Rangers, Stoke City e Leeds United, sem conseguir chegar às 50 partidas por nenhum deles. Aposentou-se em 2011, aos 34 anos.

#13 Lamine Diatta (zagueiro): Titular da defesa, disputou todos os minutos da participação de Senegal na Copa do Mundo. Era jogador do Rennes. Saiu, sem custos, em 2004, para o Lyon, que dominava o futebol francês naquela época. Contribuiu com 32 partidas em dois títulos franceses e disputou oito partidas de Champions League. E, então, foi outro senegalês a virar andarilho: Saint-Étienne, Besiktas, Newcastle, Hamilton Academical, da Escócia, Al Ahli, do Catar, Etoile Sportive, da Tunísia, e Doncaster Rovers, no qual encerrou a carreira.

#14 Moussa N’Diaye (meia): Começou a Copa do Mundo como titular, mas virou reserva na terceira partida e não saiu mais do banco. Era jogador do Sedan, do qual saiu em 2004 para jogar no Istres. Passou por Ajaccio, Auxerre e Al-Rayyan, até se aposentar, com apenas 30 anos, no Umm-Salal, também do Catar.

#15 Salif Diao (meia): Fez um gol na Copa do Mundo, em três partidas, todas como titular: no empate por 1 a 1 com a Dinamarca. Outro contratado pelo Liverpool, que pagou € 7,5 milhões para tirá-lo do Sedan. Até jogou bastante em sua primeira temporada – 39 partidas, em todas as competições, 21 como titular – antes de cair no esquecimento. Mas foi campeão da Champions League, graças a oito minutos jogados contra o Olympiakos, na fase de grupos, apesar de ter sido emprestado para o Birmingham, em janeiro de 2005. Passou mais uma temporada cedido ao Portsmouth e saiu, ao fim do seu contrato, para o Stoke City. Passou seis anos no Britannia Stadium, com 107 partidas disputadas.

Salif Diao marcando Petit (Foto: Getty Images)
Salif Diao marcando Petit (Foto: Getty Images)

#16 Omar Diallo (goleiro): Goleiro reserva durante a Copa do Mundo. Não jogou um minuto sequer. E é um dos poucos do elenco que nunca deixou a África. Retornou para o Diaraf Dakar, clube em que se formou, depois do Mundial, e ainda teve uma passagem pelo Sakaryaspor, antes de se aposentar. No Marrocos, também defendeu o Raja Casablanca, por cinco anos, entre 1994 e 1999.

#17 Ferdinand Coly (lateral direito): Titular nas cinco partidas. Era jogador do Lens, com o qual foi vice-campeão francês. Ficou mais um ano, depois da Copa do Mundo, com direito a disputar Champions League. Encarou o Milan e o Bayern de Munique. Saiu por empréstimo para o Birmingham, mas entrou em campo em apenas uma partida de Premier League. Saiu do Lens a custo zero para o Perugia, da Itália, e um ano depois assinou com o Parma. Passou três temporadas no novo clube antes de se aposentar, com 66 partidas disputadas.

#18 Pape Thiaw (atacante): Tinha apenas 21 anos na Copa do Mundo e foi o rapaz que deu assistência para o gol de ouro de Henri Camara nas oitavas de final contra Suécia, em seu único jogo naquele Mundial. Atuava no Estrasburgo, da Ligue 2, e descolou uma transferência para o suíço Lausanne, quando voltou da Ásia. Passou pelo Metz e desembarcou no Alavés, em 2004. Ficou três anos na Espanha. Em 2012, voltou a Senegal para defender o Niarry Tally.

#19 Papa Bouba Diop (meia): Autor do marcante gol contra a França, na vitória sobre a então atual campeã do mundo, abrindo a Copa do Mundo. Marcou mais dois contra o Uruguai. Atuou mais duas temporadas pelo Lens, contribuindo com bons oitavos lugares em ambas. Foi vendido, aos 26 anos, para o Fulham, por € 9 milhões. Pelo clube londrino, disputou mais partidas como titular do que como reserva nos três anos seguintes, mas acabou repassado ao Portsmouth, pelo qual foi campeão da Copa da Inglaterra no time de Harry Redknapp, em 2008. Titular em toda a campanha, com exceção da quarta rodada, porque estava com a seleção, jogou apenas 12 minutos na final contra o Cardiff. Foi para a Grécia, onde conquistou a Copa nacional pelo AEK Atenas, e ainda defendeu West Ham e Birmingham antes de se aposentar.

Bouba Diop: campeão pelo Portsmouth e pelo AEK Atenas (Foto: Getty Images)
Bouba Diop: campeão pelo Portsmouth e pelo AEK Atenas (Foto: Getty Images)

#20 Sylvain N’Diaye (meia): Nem entrou em campo na Copa do Mundo. Era jogador do Lille e saiu para o Olympique Marseille um ano depois do Mundial. Atuou em aproximadamente metade dos jogos nas duas temporadas seguintes. Mudou a residência para a Espanha, onde defendeu Levante e Tenerife, com apenas 46 partidas em três anos. Voltou para a França e parou de jogar, em 2011, aos 35 anos.

#21 Habib Bèye (lateral direito): Reserva utilizado em três partidas do Mundial. Saiu do Estrasburgo para o Olympique Marseille, em 2003, por € 1,1 milhão. E foi bem. Chegou a 173 partidas pelo clube e disputou competições europeias antes de ser vendido para o Newcastle, quatro anos depois, por € 2,8 milhões. Teve duas temporadas como regular na Inglaterra, mas foi rebaixado com os Magpies, em 2009, e saiu para o Aston Villa, por quantia parecida. Mas não teve tanta sorte em Birmingham, entrando em campo apenas 18 vezes. Foi emprestado para o Doncaster Rovers e depois assinou em definitivo com o clube. Pediu a conta em 2012.

#22 Kalidou Cissokho (goleiro): Outro goleiro reserva que também não entrou em campo. Saiu de Senegal, onde jogava no Jeanne d’Arc, em 2004, para o Baku, do Azerbaijão, no qual ficou até o fim da carreira, em 2012.

#23 Makthar N’Diaye (meia): Também não jogou na Copa do Mundo. Surgiu no Rennes e ficou neste clube, com um período por empréstimo ao Sedan, até sair para o suíço Yverdon, em 2005. Assinou com o Rangers, em 2006, e só disputou duas partidas, pela Copa da Uefa. Na sequência, foi testado pelo Dundee, mas acabou liberado ao quebrar o braço em um amistoso.

Bruno Metsu (técnico): A campanha com Senegal valeu alguns contratos no Oriente Médio. Treinou o Al Ain, dos Emirados Árabes, o Al-Gharafa, do Catar, e o Al Ittihad, da Arábia Saudita, antes de assumir a seleção dos Emirados. Passou também pela seleção catariana antes de retornar ao Al-Gharafa. Encerrou a carreira em 2012, quando foi diagnosticado com câncer. Morreu em decorrência da doença, no ano seguinte.

O comandante de Senegal morreu de câncer, em 2013 (Foto: Getty Images)
O comandante de Senegal morreu de câncer, em 2013 (Foto: Getty Images)