As fotos não deixam dúvidas: o estádio Central de Ecaterimburgo é forte candidato a mais feio da Copa do Mundo da Rússia. A bela estrutura circular, com cobertura que parece flutuar, é agredida visualmente pela presença de duas enormes estruturas metálicas provisórias na parte de trás de cada gol, formando setores que estão, no final das contas, fora do estádio. Sites de várias partes do mundo mostraram as fotos nesta terça, e a sensação geral era um misto de espanto e crítica ao varzeanismo. No entanto, Vinícius de Moraes que me perdoe, mas beleza não é fundamental.

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A Copa do Mundo representa o ápice do esporte mais popular do planeta. Os investimentos são calculados na casa de bilhões para ser compatível com a quantidade de estrelas, torcedores e atenção da mídia que girarão em torno do evento. Por isso, espera-se que uma festa da elite esportiva seja realizada em arenas compatíveis com isso, seja em conforto e segurança, seja em beleza estética.

A questão é que, após quase todas as edições dos Mundiais, pipocam histórias sobre investimentos exagerados, estádios abandonados ou superdimensionados, que trazem prejuízo a seus donos (em geral, o poder público). É só olhar o que está acontecendo com a Arena das Dunas, Arena Pantanal, estádio Mané Garrincha, Arena da Amazônia e Arena Pernambuco nos últimos anos. Mas dá para encontrar casos similares na África do Sul, na Coreia do Sul e, sendo rigoroso, até na Alemanha (Leipzig, que ficou sem tanto uso até o RB enfim decolar).

A melhor forma de evitar isso é justamente incentivar o uso de estruturas provisórias. Poucos países têm condições de sustentar entre nove e 12 estádios de futebol modernos com mais de 45 mil lugares. Se a Fifa deseja levar a Copa para nações que não estejam nesse restrito clube para levar o futebol a outras partes do planeta – uma pretensão legítima da entidade -, é preciso baixar as expectativas, o tal “padrão Fifa”.

Ecaterimburgo é a sede mais oriental da Copa-2018, a única na Rússia asiática a receber o evento. Com 1,4 milhão de habitantes, é a quarta maior cidade do país (perde somente para Moscou, São Petersburgo e Novosibirski). Faz todo o sentido os organizadores (leia-se Vladimir Pútin) quererem utilizá-la no Mundial, até como forma de aumentar o peso dessa metrópole no cenário futebolístico russo.

O Ural, clube local, está na primeira divisão russa apenas há cinco temporadas – contando a atual – e não atrai grande público. Tem mandado suas partidas no SKB-Bank Arena, com 10 mil lugares, enquanto as obras do estádio da Copa não terminam. Ainda que a nova casa seja bem-vinda, não dá para imaginar que a equipe, num passe de mágica, receberá de 40 mil a 45 mil pessoas por partida. Mas as 25 mil previstas no projeto da Ekaterimburg Arena fazem sentido para uma média de público girar entre 15 mil e 20 mil.

Colocar arquibancadas provisórias é o meio do caminho disso. Estar na Copa é importante para atrair os investimentos na arena, mas isso só acontece se o estádio tiver 45 mil lugares. Então, que se façam os assentos extras desmontáveis.

Apesar de todos os erros cometidos pelos brasileiros nos últimos grandes eventos, isso aconteceu em três estádios da Copa — Fonte Nova, atrás de um dos gols, Arena Corinthians, atrás dos dois gols, e Arena das Dunas, no segundo anel atrás dos gols — e em um dos Jogos Olímpicos — Nilton Santos, o segundo anel atrás de cada gol. Veja que, das centenas de críticas que fazemos aos gastos dessas competições, nunca mencionamos essas estruturas provisórias, por mais feias que fossem. Talvez porque saibamos que, no final das contas, vários outros estádios do Mundial de 2014 teriam um futuro melhor se ficassem com 20 mil ou 25 mil lugares após o torneio.

Por isso, a única coisa que merece uma consideração sobre o estádio de Ecaterimburgo é o custo total. Pelos dados oficiais de 2015 (é bem possível que haja aumento após a entrega das obras), a construção da arena ficará em € 184,5 milhões, quase R$ 700 milhões. Não é muito para um estádio de 25 mil lugares? Uma pergunta muito mais relevante do que ficar assustado com a feiúra de estruturas provisórias.


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