Ao longo desta década, conquistar o campeonato nacional impreterivelmente se tornou uma obrigação a alguns clubes. E nenhuma outra equipe vê essa obrigação maior que o Paris Saint-Germain. O abismo financeiro na Ligue 1, somado às seguidas frustrações na Liga dos Campeões, tiram parte da consideração à hegemonia construída pelos parisienses. Assim, a festa por um título como o deste domingo acaba sendo opaca, algo agravado pelas circunstâncias. O PSG perdeu os dois jogos em que poderia confirmar a taça em campo e colocou a faixa no peito graças ao tropeço do Lille mais cedo. Pelo menos o Parc des Princes abrigou uma noite digna ao momento, e comandada pelo grande artífice da campanha. O time de Thomas Tuchel derrotou o Monaco por 3 a 1, com uma tripleta de Kylian Mbappé.

Depois de sua primeira temporada em Paris, esta foi uma conquista para Mbappé chamar de sua. Diante dos problemas físicos de Neymar e Cavani, o prodígio terminou como o protagonista do domínio do PSG. E mesmo com os companheiros mais badalados ao seu lado, roubou a cena diversas vezes. Os números espantosos dos parisienses foram inflados pelo atacante. Ele balançou as redes 30 vezes em 27 partidas, apenas 22 delas como titular. É a maior marca de um jogador francês na Ligue 1 desde Jean-Pierre Papin em 1990. Além disso, as cinco rodadas restantes levam a crer que o garoto pode ampliar ainda mais estes números. Parece distante de alcançar os 38 tentos de Zlatan Ibrahimovic em 2015/16, recorde do sueco, mas já superaria todas as outras temporadas do centroavante no Parc des Princes.

A efetividade de Mbappé se explica pelo amadurecimento do seu futebol, assim como pelo embalo que o atacante pegou após a conquista da Copa do Mundo. Contribui marcando ou dando assistências, encabeçou goleadas e atormentou alguns de seus maiores rivais. A potência física é um facilitador ao jogo do atacante, amplificando sua precisão nos arremates e a qualidade técnica acima da média. De qualquer maneira, o desnível do PSG em relação aos oponentes do campeonato parece também abrandar seu caminho. Por mais que arrebente, e basta ver alguns de seus jogos na campanha para constatar isso, ele vai ser cobrado a repetir em níveis elevados. Na Champions, sobretudo. E a atuação ruim no segundo jogo contra o Manchester United gerou muitas interrogações, mesmo como uma amostra isolada.

Mas enquanto a nova Champions não começa, resta a Mbappé devorar seus adversários na Ligue 1. Desta vez, foi o Monaco – que não vem bem na temporada, é verdade, mas com a ascensão do próprio Mbappé se tornou o único a realmente interromper a hegemonia do PSG anteriormente. Taça assegurada, o time da casa precisava apenas garantir que a comemoração de seus torcedores não teria uma indigestão. O jovem atacante se encarregou disso, com mais uma atuação em altíssimo nível.

O Monaco chegou a substituir seu goleiro logo aos 13 minutos, trocando o lesionado Danijel Subasic por Diego Benaglio. Logo na sequência, sem escolher a vítima, Mbappé iniciava o seu show. Em um contra-ataque fulminante, o prodígio chegou a atingir 38 km/h para invadir a área e aproveitar o passe de Moussa Diaby, abrindo o placar. Ampliou aos 38, num lance de oportunismo, ao tabelar com Dani Alves. E sua tripleta estava completa aos cinco minutos do segundo tempo, em mais um serviço de Dani Alves, desta vez cruzando para o companheiro escorar na risca da pequena área. O Monaco descontou apenas aos 35, numa sobra que Aleksandr Golovin guardou. Vale mencionar ainda o retorno de Neymar. O brasileiro está recuperado de lesão e participou de todo o segundo tempo.

O Monaco ainda corre riscos, não tantos, quatro pontos acima da zona de rebaixamento. Bem longe do PSG desta vez, com 84 pontos e uma campanha que só guardou seus principais tropeços para as últimas semanas. A superioridade é tão grande que apenas o saldo de gols dos parisienses já é gritantemente maior que o número de gols marcados por qualquer outro concorrente. São 95 tentos anotados, 27 sofridos e +68 de saldo. A não ser que um fenômeno atípico aconteça, como o Monaco de 2016/17, as chances de alguém brecar a dinastia são praticamente nulas. A equipe aproveita e se consagra. Se for para cumprir a obrigação, que a cumpra com a excelência que cobram. É assim que Mbappé age, aguardando seu momento, mas também destroçando.