No último domingo, o Campeonato Brasileiro já teria alguns protestos de jogadores no início das partidas. Já nesta quarta-feira, o movimento se escancarou na Série A: os atletas cruzaram os braços logo após o apito inicial, em manifestação contra a violência dos torcedores ocorrida num treino do Figueirense. A ação coletiva, organizada pela Fenafap (a Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol), apresenta um necessário engajamento dos futebolistas – que pode e deve se repetir mais vezes. Os jogadores têm voz e devem usá-la para pressionar por mudanças, especialmente quando seu interesse é direto.

O caso ocorrido no Figueirense não é único e nem isolado, mas teve um nível de agressividade enorme. Após derrubar um dos portões de acesso do Orlando Scarpelli, um grupo de 40 torcedores invadiu um treino do clube para agredir jogadores e membros da comissão técnica. Os agressores chegaram a lançar fogos de artifício contra o elenco. Por sorte, os ferimentos foram leves, mas as cenas de terror geram um clima insustentável ao redor da equipe e até renderam pedidos de rescisão. Os catarinenses registraram um boletim de ocorrência, mas a polícia chegou apenas depois que os invasores já haviam deixado o local.

Nesta quinta, os jogadores do Figueirense prestaram depoimento na polícia civil, relatando também ameaças nas redes sociais. Segundo o técnico Elano, os invasores portavam armas de fogo. Até o momento, ninguém foi detido. A investigação é acompanhada pelo Ministério Público de Santa Catarina. O clube proibirá faixas e bandeiras das torcidas organizadas, até que os responsáveis sejam apontados.

Os protestos realizados por torcedores nos centros de treinamento são repetidos em diversos cantos do Brasil. Há o direito de cobrar e pedir por mudanças. Entretanto, a situação muda de figura quando a violência é o meio para intimidar e pressionar, em brutalidade também registrada várias vezes. Isso chama-se covardia. Não dá para aceitar esse tipo de situação como normal, como algo que “faz parte do futebol”. A integridade dos jogadores e dos demais funcionários esteve em evidente risco. As providências são urgentes.

O que aconteceu no Figueirense não seria difícil de imaginar em outros clubes em crise. Existe uma relação doentia, uma permissividade e uma impunidade que imperam. É vital que os jogadores exerçam sua força e se unam para pedir atitudes, não apenas das autoridades públicas, como também da CBF e das demais entidades que lavam as mãos como se não fosse com elas. A paralisação no início dos jogos do Brasileirão expõe a queixa, ainda que não resulte necessariamente em mudanças. Por isso mesmo, é essencial que os jogadores se organizem mais vezes e tentem mudar o cenário.

A omissão no futebol brasileiro é padrão, mesmo quando os próprios interesses estão em jogo. Assim, é louvável ver uma atitude como a desta semana, mesmo que tardia. Demonstra a consciência dos atletas e uma preocupação que vai um pouco além do próprio umbigo, quando qualquer jogador pode ser vítima de tal violência. Que ajam assim mais vezes, e não somente quando suas próprias vidas estiverem ameaçadas.