Era começo de fevereiro, e a diretoria do Leicester sentiu a necessidade de soltar um comunicado garantindo que Claudio Ranieri tinha total apoio para continuar o seu trabalho, apesar dos resultados e da zona de rebaixamento estar se aproximando. Costuma ser um péssimo agouro quando essa necessidade aparece. Duas semanas depois, o impensável: Ranieri demitido. O anúncio foi chocante, surpreendente, incompreensível. Como os veículos ingleses definiram, foi como se tivessem assassinado a mãe do Bambi. O fim do conto de fadas. Mas a decisão tomada pelo dono Vichai Srivaddhanaprabha não foi repentina. Foi o resultado de um processo de deterioração do relacionamento entre técnico, jogadores e comissão técnica.

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Informam Telegraph, Sky Sports e BBC que membros relevantes do elenco do Leicester foram convocados por Vichai – mais fácil chamá-lo pelo primeiro nome do que pelo sobrenome, não? – para uma reunião no quarto do hotel onde estavam hospedados na Espanha, depois da derrota por 2 a 1 para o Sevilla, um dos únicos jogos da temporada em que as Raposas mostraram o espírito guerreiro da campanha do título. A reação negativa dos jogadores foi preponderante para o tailandês tomar a decisão de demitir Ranieri, embora a gota d’água, segundo o Telegraph, tenha sido a derrota para o Millwall, da terceira divisão, pela Copa da Inglaterra, o que só demonstraria a confusão da diretoria. Afinal, se a principal prioridade é ficar na Premier League, nada mudou desde a derrota para o Swansea, em 12 de fevereiro, certo?

O que mudou, nessas duas semanas, é que Vichai teve a oportunidade de acompanhar de perto o que estava acontecendo no Leicester. De acordo com o Leicester Mercury, o empresário passou longos períodos da temporada na Tailândia cuidando do seus negócios e ajudando na transição do novo rei do país. Quando a situação do time ficou periclitante, ele retornou para a Inglaterra e, depois de fazer uma avaliação do problema, chamou os jogadores para conversar e tomou a impopular decisão de demitir Ranieri.

Os primeiros problemas surgiram entre a viagem de pré-temporada para Los Angeles e a Supercopa da Inglaterra, contra o Manchester United. Ranieri vocalizou seu descontentamento com a postura dos jogadores. “Eu quero mais que o máximo, é por isso que eu não estava feliz em Los Angeles. Eu não vi a mesma mentalidade. Todos trabalharam duro, mas não como equipe, e essa é a diferença”, afirmou. O presente de Vichai – 19 BMWs para cada jogador que contribuiu com o título – foi outra fonte de irritação. “Houve alguns presentes, mas apenas para eles?”, questionou. O italiano usou 23 jogadores durante a campanha do título, sem falar em outros membros da comissão técnica e funcionários mais humildes do clube, que também contribuíram para a milagrosa conquista.

O Telegraph deu vários detalhes sobre o atrito entre Ranieri e os jogadores. O elenco ficou descontente com as constantes variações táticas, muitas vezes informadas horas antes do jogo. No empate sem gols com o Copenhague, em novembro, pela Champions League, por exemplo, os atletas descobriram que jogariam em um 3-4-3 apenas uma hora e 40 minutos antes do apito inicial. Neste mesmo jogo, ainda de acordo com o jornal, Ranieri gritou com funcionários do clube que teriam escolhido as chuteiras erradas para os jogadores. A decisão de treinar na manhã do jogo contra o Derby County, na noite de sexta-feira, pela FA Cup, pegou muito mal. O último erro foi escolher Musa à frente de Gray para o jogo contra o Sevilla.

Outra reclamação foi a respeito de como Ranieri centralizou as decisões, alienando membros populares da comissão técnica, como o assistente Craig Shakespeare, novo técnico interino do Leicester. Shakhespeare fez questão de negar todos esses problemas, embora seja bom dizer que dificilmente sua primeira atitude no cargo seria jogar os jogadores aos leões da opinião pública, culpando-os pela saída do querido técnico italiano. “É pura especulação”, afirmou. “O que vou dizer é que havia muita frustração por causa dos resultados, mas ele não perdeu o vestiário. Eles estão magoados e muito frustrados, mas não tive nenhum problema com eles nos treinamentos. Eles trabalham de uma maneira muito profissional”.

Janeiro trouxe mais um desgaste para Ranieri. Leonardo Ulloa, que jogou 29 vezes na campanha do título e foi um dos principais reservas, jogou muito pouco na primeira metade da atual temporada e queria sair na janela de transferências de inverno.  No Twitter, disse que se sentiu traído pelo italiano e ficou decepcionado com a diretoria. “O treinador me disse nos últimos três meses que me ajudaria a sair se uma proposta de £ 4 ou £ 5 milhões chegasse”, completou, à Sky Sports. “Eu entendo que há ofertas melhores (£ 7 milhões do Sunderland) que não estão sendo consideradas. Hoje (30 de janeiro), ele diz que quer que eu fique. Ficar no clube afetaria meu futuro e minha carreira”. O argentino ficou e não joga desde 1º de fevereiro.

O que fica claro é que os jogadores perderam a fé na capacidade de Ranieri. Ele tentou buscar um esquema que não exigisse tanto física e mentalmente dos jogadores e não encontrou resposta. O principal mérito dele na temporada passada foi manter os jogadores concentrados, comprometidos e com os pés no chão. Campeões da Inglaterra, paparicados por todo mundo, com uma BMW nova na garagem, Champions League para jogar e expectativas maiores, eles flutuaram. Na tentativa de trazê-los de volta ao Planeta Terra, Ranieri tomou decisões confusas e esdrúxulas, como treinar na manhã de um jogo de mata-mata. Mas o que eles esperavam? Tudo bem que o italiano poderia – e deveria – retornar ao básico 4-4-2 armado para o contra-ataque, mas sempre se mostrou um técnico de poucos recursos. O que aconteceu na campanha do título foi tão especial também por causa disso.

A diretoria deveria saber isso, e deveria ter dado mais respaldo ao treinador ao longo da temporada. Uma cena estranha aconteceu em um dos primeiros treinos, dois meses depois da conquista do título. Vichai acompanhou de perto a atividade, ao lado de um dos seus principais diretores, como se o estivesse monitorando. O mercado do campeão inglês, às vésperas de disputar a Champions League, foi bem decepcionante. O chefe Steve Walsh, responsável pelas contratações de Vardy, Mahrez e Kanté, foi para o Everton, mas deixou encaminhadas as chegadas de Ahmed Musa, Nampalys Mendy e Luiz Hernández, em um total de £ 30 milhões. Musa tem apenas 13 partidas como titular e quatro gols na temporada. Mendy jogou apenas nove vezes e Hernández já foi repassado ao Málaga. Jon Rudkin assumiu essa responsabilidade e gastou mais dinheiro com Slimani, Kapustka e Ndidi, e somente o último tem feito uma boa contribuição recentemente.

Parece que Ranieri se perdeu em meio à pressão extra por ter sido campeão inglês e gastado muito no mercado de transferências – para os padrões do Leicester -, com jogadores valorizados e disputando a Champions League. No entanto, ingênuo foi quem imaginou que o título tivesse apagado suas falhas como treinador. Elas sempre estiveram ali. Mas não dá para reformular o elenco no final de fevereiro e nenhum diretoria se auto-demite. No desespero, em qualquer lugar, o treinador é sempre o elo mais fraco.