Qual o principal obstáculo para o futebol africano se estabelecer como uma das forças do futebol mundial? Podemos pensar na estrutura precária, na ausência de recursos, no frágil trabalho de base, enfim, uma série de aspectos. Mas existe um fator que está diretamente ligado a todos esses: a incapacidade de quem está no comando. Parece lógico: quem está no poder e possui o mínimo de boa vontade pode ajudar a melhorar esse cenário.

No entanto, seja por incompetência ou pela ganância (ou pela combinação dos dois), são justamente esses mandatários que estão fazendo o futebol africano definhar. A mentalidade de grande parte dos dirigentes é amadora e estes só estão preocupados em satisfazer seus próprios interesses. Nas últimas semanas, são eles que têm sido manchete no noticiário esportivo da África. E pelos mais vergonhosos motivos.

O caso mais emblemático é o de Camarões. A situação do futebol do país pode ser resumida pelo fato de um dirigente com mais de uma década no poder e preso (isso mesmo, preso) por desvio de dinheiro de uma empresa pública ter sido reeleito como presidente da federação do país (Fecafoot). O nome dele é Iya Mohammed, que por sinal, segue atrás das grades. As eleições, no entanto, foram canceladas pouco depois justamente pelas acusações contra Mohammed.

E como nada é tão ruim que não possa piorar (Tiririca talvez não concorde com essa afirmação), Camarões recentemente foi suspenso pela Fifa por interferência do governo na federação. Explica-se: após a prisão de Mohammed, o candidato derrotado nas eleições, John Begheni Ndeh, se autoproclamou chefe da federação e começou a trabalhar com o auxílio da polícia. A Fifa entendeu o caso como interferência política.

A condição da entidade máxima do futebol para revogar a suspensão era a criação de um comitê (elaborado em conjunto pela Fifa e pela CAF) para governar o futebol do país, com o objetivo de rever os estatutos da federação local (Fecafoot) e convocar eleições a serem realizadas no dia 31 de março de 2014.

Enquanto essa exigência não fosse atendida, a seleção camaronesa e os clubes locais seriam impedidos da disputar quaisquer partidas oficiais e até amistosos. A Fecafoot cedeu e o comitê já começou seu trabalho, sob as ordens de Joseph Owona, ex-ministro da Educação e dos Esportes. Ou seja: por culpa de quem administra o futebol no país, a seleção camaronesa correu sérios riscos de não poder enfrentar a Líbia no próximo mês de setembro, em jogo decisivo pelas eliminatórias para a Copa.

E outra entidade africana já está na mira da Fifa: é a de Uganda. Tudo porque a Ministra de Educação e Esportes do país, Jessica Alupo Rose Epel, alega que a federação local (Fufa) atua como uma empresa privada desde 2009 e isso é inconsistente com as leis de Uganda. A Fifa, no entanto, alega que o status legal da federação já foi esclarecido em uma reunião no ano passado e só aceita discutir o assunto novamente se o estatuto jurídico da Fufa estiver totalmente esclarecido. Caso contrário (ou seja, uma medida tomada unilateralmente contra os estatutos da Fufa), a Fifa acena com uma punição.

E ainda tem mais. Também nesta semana, a Fifa suspendeu seu financiamento anual para a Federação Gabonesa de Futebol (Fegafoot) até que os funcionários da entidade justifiquem como recursos anteriores foram gastos. Uma auditoria da Fifa no mês passado revelou um déficit de 100 mil dólares na gestão de recursos alocados para a federação. Ou seja, um dinheiro que supostamente deveria ser utilizado para melhorar a estrutura do futebol gabonês está sob forte suspeita de desvio por parte dos dirigentes.

Além da corrupção, as federações são pessimamente organizadas. Prova disso é que seis seleções já perderam pontos nas eliminatórias para a Copa por conta de escalações irregulares (Etiópia, Guiné-Equatorial, Burkina Faso, Gabão, Sudão e Togo). Algumas delas pelos motivos mais pitorescos, como jogadores suspensos por acúmulo de cartões amarelos entrando em campo.

Se não há um controle para situações simples como essa, não surpreende o desperdício dos recursos que deveriam proporcionar melhorias na estrutura do esporte. Infelizmente, enquanto estiverem reféns de dirigentes amadores, corruptos e defasados, muitos países da África não conseguirão progredir no futebol. Ainda que, ao contrário do que muitos imaginam, apresentem um potencial gigantesco para isso.

Curtas

– Lembra do Mohamed Kallon, ex-atacante de Serra Leoa com passagem por clubes como Inter de Milão e Monaco? Pois bem, ele está com 33 anos e atua por um clube local que leva seu nome, mas sua intenção a partir de agora é ajudar o futebol do país fora dos gramados. Ele anunciou candidatura para a presidência da Associação de Futebol de Serra Leoa (SLFA). Renovação à vista? Esperamos que sim.

– A fase de grupos da Liga dos Campeões Africana começou no último fim de semana. No jogo de abertura, pelo Grupo A, Orlando Pirates e AC Léopards empataram sem gols. Na outra chave, o Espérance, um dos favoritos ao título (porém enfraquecido em relação aos anos anteriores), foi para Angola encarar o Recreativo do Libolo e perdeu com um gol marcado aos 49 do segundo tempo: 1 a 0.

– Já pela rodada inaugural da fase de grupos da Copa das Confederações da África, segundo principal torneio de clubes do continente, o Saint George (Etiópia) derrotou o Stade Malien por 2 a 0. Os etíopes lideram o Grupo A ao lado do CS Sfaxien, que bateu o rival tunisiano Étoile du Sahel por 1 a 0. Na outra chave, ES Sétif (Argélia) x Mazembe e FUS Rabat (Marrocos) x Bizertin (Tunísia) empataram em 1 a 1.

– Como adiantado pela imprensa africana, Shola Ameobi e Obinna Nsofor estão de volta à seleção nigeriana. Depois de um longo período de ausência, os dois atacantes voltam a figurar em uma convocação de Stephen Keshi. Eles foram chamados para um amistoso contra a África do Sul em agosto, que será parte de uma homenagem ao ex-presidente sul-africano Nelson Mandela.

– Ex-capitão da seleção marroquina, Houcine Kharja não poupou críticas ao treinador da seleção marroquina, Rachid Taoussi. O volante, renegado pelo treinador nas últimas convocações, apontou Taoussi como culpado pelo fracasso nas eliminatórias para a Copa e disse que a seleção precisa de um treinador de peso para moldar a seleção para a CAN 2015, que será sediada pelos marroquinos.

– Por conta de irregularidade na naturalização do atacante Nsue, a Fifa anulou a vitória de Guiné-Equatorial sobre Cabo Verde por 4 a 3 em jogo válido pelas eliminatórias para a Copa. Declarado vencedor da partida por 3 a 0, Cabo Verde volta a ter esperanças de vir ao Brasil em 2014. Para isso, precisa vencer a Tunísia na última rodada do Grupo B para avançar para o mata-mata das eliminatórias.

– A falta de estabilidade para o trabalho de treinadores não é exclusividade do Brasil. Campeão ganês sofrendo apenas duas derrotas em todo o campeonato, o técnico Masud Didi Dramani foi demitido do Asante Kotoko. Em que pese o título nacional, o treinador foi duramente criticado pela perda da Copa de Gana e não contava com o apoio da torcida, que criticava a montagem do time. É mole?

– Desde o pedido de demissão de Patrice Carteron, Mali segue a procura de um novo treinador. A bola da vez é Ruud Gullit, ex-jogador holandês que marcou época nos anos 80. A princípio, os dirigentes malineses estão à procura de um ex-jogador com experiência como técnico. Este, por sua vez, deve saber falar francês e estar disposto a viver em Mali para participar do desenvolvimento do futebol local.