À primeira vista, tudo parece normal. O Barcelona tem a bola no pé, toca ela incessantemente, Iniesta e Xavi distribuem o jogo, Messi faz gol. Mas algo está errado. O futebol não é mais tão dominante, e os resultados acabam mostrando isso. Duas derrotas seguidas para o Real Madrid (uma para o misto do time merengue) e uma para o Milan deixaram a equipe azul-grená próxima da eliminação na Liga dos Campeões e fora da Copa do Rei. Menos mal para a torcida que só uma hecatombe tira de Les Corts o título do Campeonato Espanhol.

A questão não é tão fácil de ver. O estilo de jogo do Barcelona continua o mesmo, e sua capacidade de envolver o adversário também. Pelo menos em uma olhada superficial. O time perde poder de definição. O toque de bola tem sido cada vez mais estéril, e a defesa não consegue mais sufocar os oponentes. É como se o time tivesse entrado no piloto automático, perdendo a criatividade e a voluntariedade que fazia de seu jogo algo tão dominante e inevitável.

Para retratar isso, resolvi levantar as estatísticas de várias partidas do Barcelona. Não partidas aleatórias, porque os jogos contra times pequenos do Campeonato Espanhol poderiam distorcer este dado. Aí estão apenas os jogos na Liga dos Campeões, os confrontos contra os quatro melhores times de La Liga até o início do fim de semana (Atlético de Madrid, Real Madrid, Málaga e Valencia) e os dois duelos com o Real na Copa do Rei. A lista está no final desta página.

Barcelona_gráfico posse de bola

A posse de bola não teve grande variação, salvo os dois jogos contra o Celtic na Liga dos Campeões, que passaram de 80%. Mas aquilo é um número absurdo mesmo para os padrões do Barcelona, e dizem muito sobre a estratégia utilizada pelos escoceses. Se ignorarmos essas duas partidas, não houve uma variação excepcional, que reflita em resultados. Afinal, o Barcelona ainda teve mais de 70% de posse em dois jogos que perdeu recentemente, para o Milan e para o mistão do Real Madrid.

Ou seja, a bola continua no pé do Barcelona. O time toca a bola, envolve o adversário, impõe seu ritmo. O problema é o que o clube catalão faz com isso. O objetivo de cada jogada no futebol é arrematar a gol em algum momento. E, claro, fazê-lo nas melhores condições possíveis para que o atacante tenha mais chances de acertar o alvo.

É aí que se vê como o Barcelona caiu. O toque de bola deixou de ser objetivo ofensivamente, pois o número de finalizações caiu sensivelmente, principalmente, as que foram em direção ao gol. Isso pode denotar má fase dos atacantes ou arremates realizados de forma precipitada, sem um ângulo adequado ou com zagueiros adversários atrapalhando.

O pior para os blaugranas é que o benefício defensivo da posse de bola extrema (tirar do adversário a possibilidade de construir suas jogadas) também se perdeu. Os oponentes continuam com a bola em menos de 40% (ou até menos de 30%) do tempo, mas já conseguem concluir as jogadas. Mais que isso: estão acertando o gol barcelonista e obrigando Valdés e Pinto a trabalharem mais. Nas últimas quatro partidas importantes, os oponentes tiveram mais finalizações em direção ao gol que o time catalão. Algo impensável para quem produz um volume de jogo tão grande.

Veja só:

Barcelona_gráfico finalizações

Esse processo não surgiu repentinamente. Na temporada passada, o Barcelona teve esses problemas em casos pontuais. O mais evidente foi na derrota em casa para o Real Madrid no Campeonato Espanhol. Mas foi um caso isolado, e o nível de conhecimento mútuo dos dois gigantes espanhóis é imenso após tantos encontros decisivos nas últimas temporadas.

Neste ano, o Barcelona já mostrou algumas vulnerabilidades. Uma dela é a defesa, que tem dado mais espaço nas laterais. No começo, parecia uma questão momentânea devido à falta de entrosamento de Jordi Alba com o resto do time. Mas a queda de produção de Daniel Alves também chama a atenção, e causou muitos problemas do lado direito do time. É uma equipe mais exposta a contra-ataques.

Do ponto de vista ofensivo, o Barcelona criou uma dependência de Messi. O fato de o argentino ser um craque extraordinário permite que ele acabe dando conta da obrigação na maioria das vezes. No entanto, essa sobrecarga acabou mascarando o mau momento de outros jogadores de frente do time. Pelo ritmo atual, Villa, com sete gols, seria o único além de Messi a passar de dez ao final do Campeonato Espanhol.

Um fenômeno parecido com o da temporada passada, quando só Alexis Sánchez acompanhou Messi com mais de dez gols. O chileno marcou 11. Mas, importante lembrar, na temporada passada o Barcelona acabou perdendo o título do Campeonato Espanhol e o da Liga dos Campeões, sem que isso impedisse o argentino a bater recordes de artilharia.

Por isso, parar Messi é metade do caminho para parar o ataque do Barcelona. Veja o número de gols e de finalizações do argentino nos 14 jogos mais fortes desta temporada e como, nas últimas cinco partidas importantes, em apenas uma ele conseguiu arrematar mais de duas vezes. Óbvio, a quantidade de gols também diminuiu. Até um extraterrestre como ele tem limitações.

Barcelona_gráfico Messi

Esses números não são as causas dos problemas do Barcelona, são apenas reflexos dela. O Barça se desarticulou coletivamente, e já não surpreende as defesas mais fortes com tanta facilidade. Isso tem muito a ver com eventual desmotivação, desgaste natural do sistema de jogo e o aprendizado dos adversários sobre como anulá-lo. Também não se pode menosprezar os efeitos de questões extracampo como a perda de um líder como Guardiola e a de um comandante querido do elenco como Tito Vilanova.

De qualquer modo, o Barcelona de hoje não é o mesmo dos anos anteriores, e o das últimas semanas também não é o mesmo do início da temporada. O time pode até passar pelo Milan e ir longe na Liga dos Campeões, mas precisará descobrir o que tem acontecido e agir em cima desses defeitos para manter o domínio que teve nas últimas cinco temporadas. É possível, porque o talento está lá. Mas não é algo que se resolve de um dia para o outro.

Lista de jogos: 1) Barcelona 1×0 Valencia; 2) Barcelona 3×2 Spartak Moscou; 3) Benfica 0x2 Barcelona; 4) Barcelona 2×2 Real Madrid; 5) Barcelona 2×1 Celtic; 6) Celtic 2×1 Barcelona; 7) Spartak Moscou 0x3 Barcelona; 8) Barcelona 4×1 Atlético de Madrid; 9) Málaga 1×3 Barcelona; 10) Real Madrid 1×1 Barcelona; 11) Valencia 1×1 Barcelona; 12) Milan 2×0 Barcelona; 13) Barcelona 1×3 Real Madrid; 14) Real Madrid 2×1 Barcelona.