Estamos acostumados a desculpas que técnicos, dirigentes e até jogadores dão para os times jogarem mal. Desfalques, calendário, falta de treinamento, campos ruins, lesões, arbitragem (repete sete vezes), imprensa… Em boa parte do ano, essas desculpas não funcionam tão bem, ao menos com a parte da torcida que quer ver algum futebol no time (para alguns, sempre há uma desculpa). Só que chegamos à reta final do Campeonato Brasileiro, que tem suas últimas seis rodadas. E com ela chegamos ao momento que qualquer desculpa cola quando se fala sobre um futebol ruim. Tudo em nome do resultado, mesmo que a maioria dos times não tenha a menor ideia de como chegar lá. É tudo pelos três pontos. Como? Sei lá, como der. E é aí que há um problema.

A segunda-feira teve o último jogo da 32ª rodada, quando o Botafogo venceu por 2 a 0 o Avaí. A situação do clube da Estrela Solitária é tão desesperadora que, mesmo com a atuação ruim, o que importava era vencer para sair da zona do rebaixamento. Ao vencer, empurrou o rival Fluminense para a 17ª posição. Um alívio, sem dúvidas. Só que o time jogou mal e a vitória só veio porque o adversário, do outro lado, é um time que está condenado ao rebaixamento.

Falar do futebol do Botafogo parece algo secundário. Neste momento de desespero, o que os torcedores – e o time – querem é se agarrar a qualquer coisa que possa servir como tábua de salvação. A qualidade do futebol é tratado como um supérfluo, com a desculpa que neste momento só importa vencer e tentar escapar do rebaixamento.

O pensamento faz sentido em um primeiro momento, mas não passa de uma fina camada de gelo sob o sol quando refletimos. Porque não há fórmula para vencer, mas saber por que se vence é fundamental. E isso passa por saber o que está fazendo e fazer bem. Há poucos times que estão jogando bem no Brasileirão. E jogar bem não é encantar, dar espetáculo, ser o melhor time do Brasil. É saber o que está fazendo e fazer isso bem.

Há times como o CSA, por exemplo, que está perto do rebaixamento. Mesmo assim, dentro da proposta desde a chegada do técnico Argel Fucks, consegue jogar bem nas suas capacidades e arranca alguns resultados. Talvez não sejam suficientes para evitar que o time seja rebaixado. Ainda assim, há acertos ali no trabalho do técnico que precisam ser bem avaliados. Os problemas que levam ao rebaixamento passam por outros fatores também.

O Flamengo é um raro time que não se abraça à uma ideia que se propagou no futebol de “saber sofrer”. O time faz tudo para não sofrer e não parece considerar que sofrimento é parte do caminho. É comum vermos os times que estão perto do título nos últimos anos no Brasileirão jogando mal, mas arrancando resultados. Técnicos e jogadores se escondem atrás do momento de pressão, dizem que todo jogo é difícil e os times quase abdicam do futebol em nome do título – que pode não vir mesmo assim.

O que parece é que o futebol bem jogado (e não necessariamente ofensivo, mas bem jogado dentro da sua proposta) é um acessório supérfluo. O que se deseja é o resultado, seja lá como for. Muitas vezes sequer se sabe como o resultado aconteceu. Basta lembrarmos que algumas rodadas atrás, o então técnico do Corinthians, Fabio Carille, disse que não sabia como o time estava em quarto lugar, pela má qualidade do futebol que sua equipe jogava. Uma declaração forte, mas que era verdadeira: como o Corinthians ainda briga por posições no alto jogando tão mal?

Esse é parte do problema. Não conseguir ver os problemas quando se está ganhando é um sinal de que quando os problemas aparecerem e os resultados sumirem, também não se verá os problemas para poder corrigi-los. O caso de Marcelo Oliveira em 2015 no Palmeiras é bastante simbólico. O time jogou mal seguidamente, mas levou o título da Copa do Brasil nos pênaltis, sendo por vezes pior que os adversários. Como o resultado está acima de tudo, o técnico foi mantido. E em 2o16, a conta veio: o futebol ruim continuou, o time perdeu a chance de avançar na Libertadores e o técnico caiu.

Nas últimas seis rodadas do Brasileirão, o que vemos é desespero. Todo mundo jogando no “vamos que vamos”, com muita “raça”. Vemos times que estão no alto da tabela, como o São Paulo, em quinto, com problemas, com futebol ruim nas últimas rodadas e já sob intensa pressão. Até o segundo colocado este ano está em uma crise de identidade.

O Palmeiras parece viver sem saber muito bem o que quer, muito menos como chegar ao que se quer. Joga um futebol apenas razoável, com pontos altos eventuais. E os problemas seguem por lá. Demite Luiz Felipe Scolari por jogar um mau futebol, contrata Mano Menezes, um técnico que vinha fazendo seu ex-time jogar mal continuamente.

É comum ouvirmos: “mas o time está em segundo lugar, como pode estar em crise?”. Vale o mesmo para o inverso. Ainda que não seja tão comum, acontece eventualmente de times que estão caindo pelas tabelas e jogam melhor do que os resultados que conseguem. Como o CSA, que já citamos, que parece ter melhorado com Argel, ainda que talvez sem ser o suficiente para manter-se na primeira divisão.

Vimos isso no atual Brasileirão: o Botafogo oscilou e teve jogos muito ruins com o técnico Eduardo Barroca, mas havia elementos ali presentes que poderiam fazer os dirigentes acreditarem que poderia melhorar. Aconteceu, de outra forma, com Fernando Diniz no Fluminense. O time vinha perdendo sempre e havia muitos problemas, mas havia também elementos ali para aprimorar o trabalho.

Falta um pouco aos dirigentes uma visão mais ampla de futebol e, além disso, dirigentes capazes de aguentar a pressão da torcida e da imprensa para manter sua decisão. Além disso, cobrar o técnico sabendo o que está fazendo. Identificar problemas, corrigir rotas. Isso pouco se faz, se é que se faz. E aí vem pressão, torcida impaciente e mais pressão da imprensa que fica cogitando demissões.

Sim, não é só a torcida que ajuda a criar um ambiente ruim para os técnicos: a imprensa também. É um tal de “será que fulano perdeu o vestiário?”, ou “será que ainda tem clima para o sicrano?”. Há uma vontade de mudanças e resultados rápidos em todos setores. Os dirigentes são só a ponta que tem o poder nas mãos para tomar a decisão de demitir. Nas arquibancadas ou nas tribunas de imprensa por vezes se aumenta a temperatura e a pressão.

É preciso pensar em jogar melhor. E jogar melhor não precisa ser o Flamengo. Dá para ser um bom time que saiba jogar de forma mais direta. Alguns dos grandes times do Boca Juniors que foi muitas vezes uma equipe que não dominava o outro com a posse de bola, mas em contra-ataques mortais. O time de Carlos Bianchi não era da escola de posse de bola, de marcação alta. E dentro da sua proposta, conseguia jogar bem, ser melhor que os adversários. É só um exemplo, como há tantos outros.

Que time consegue executar a sua proposta com muita eficiência? Não são muitos. Há times que conseguem executar bem a sua proposta, ainda que nem sempre tenham os resultados, como Bahia e Goiás, por exemplo. Oscilam dentro do campeonato, mas demonstram ter ideias de jogo. O Santos é um dos casos de time com uma proposta que consegue executar bem e unir isso a bons resultados de forma mais frequente. O Athletico Paranaense também consegue fazer isso bem. Deixou escapar resultados, em meio à priorização da Copa do Brasil (uma boa questão para um outro dia), mas seu modo de jogar se mantém estável.

Há uma clara dissonância em grande parte dos times entre suas propostas de jogo (quando há) e a realidade. São Paulo, Corinthians e Internacional buscam vaga na Libertadores, mas nenhum deles parece estar jogando o suficiente para isso. Ainda assim, é provável que ao menos dois deles se classificam, se não os três, uma vez que o Athletico Paranaense já esteja entre os seis primeiros e, por ter vaga garantida na Libertadores, abre uma nova posição.

Um pouco abaixo na tabela, a situação se repete. Times como Atlético Mineiro, Botafogo, Cruzeiro e Fluminense jogam mal constantemente e os resultados se alternam mais em função dos adversários do que por jogarem melhor ou pior. O Cruzeiro é quem vem com viés de alta pelos resultados, mas o futebol segue, no máximo, meia-boca. Os resultados que os times conseguem são quase aleatórios.

Enquanto confundirmos o ato de jogar bem (dentro da sua proposta) com os resultados, as coisas ficam bem difíceis. A busca pelos resultados com um futebol desesperado parece não ter tempo de olhar para si mesmo e tentar resolver seus problemas para jogar melhor e, assim, ficar mais perto de conseguir resultados. Mas ninguém se importa com isso. O que vale é ganhar, os três pontos. Como se chegou lá é o de menos. E aí, quando não der certo, tudo estará condenado. Por outro lado, se tudo der certo, o trabalho do técnico será valorizado.