O Palmeiras foi para os vestiários do Allianz Parque, na noite da última quarta-feira, perdendo por 1 a 0 para o Peñarol. Resultado parcial e principalmente uma atuação terrível que geralmente mereceriam uma bela bronca. Mas não era o caso. Seria mais eficiente Eduardo Baptista contar uma piada. Fazer uma palhaçada. Talvez colocar Marcos no viva voz contando um daqueles causos engraçados que ele coleciona para os jogadores darem uma relaxada e tentar aliviar um pouco da tensão exacerbada e inexplicável para uma terceira rodada da fase de grupos da Libetadores que eles demonstraram durante os primeiros 45 minutos da partida que acabaram vencendo por 3 a 2, com gol de Fabiano no último lance.

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Eduardo Baptista disse que fez um pequeno ajuste. Pediu mais velocidade, com passes rápidos, em vez de carregar demais a bola. Isso ajudou. Um Palmeiras mais veloz chegou aos 10 minutos da segunda etapa já com a virada no placar e um pênalti para fazer 3 a 1, desperdiçado por Borja. No entanto, mais do que problemas táticos ou técnicos, o que mais atrapalhou os donos da casa foi o psicológico. Aquela pilha excessiva que muita gente ainda acha que garante título de Libertadores e a ansiedade na hora de definir a jogada que resulta em decisões equivocadas.

O Palmeiras tem uma música em que a torcida grita que a Taça Libertadores é uma obsessão. Agora, tem também uma camisa que afirma que a Taça Libertadores é uma obsessão. Guerra essa semana disse que, pelo elenco que a equipe alviverde tem à disposição, seria um fracasso não ser campeão da tal Taça Libertadores. Na imprensa, alguns evitam falar que o título é uma obrigação, mas há uma quase unanimidade de que o Palmeiras é o principal favorito. Agora, coloquem tudo isso na panela e misturem com a ansiedade da torcida que não comemora o torneio há 18 anos e, nesse período, teve no máximo dois times que poderiam pleitear a disputa da bendita Taça Libertadores.

Alguém ficaria surpreso se, nesse contexto, os jogadores sentissem a pressão ao disputarem uma partida de Taça Libertadores? Ficassem ansiosos para mostrar que estão à altura das expectativas? Também porque a teórica superioridade do Palmeiras não ficou evidente nos dois primeiros jogos da fase de grupos. O primeiro, contra o Atlético Tucumán, na Argentina, foi prejudicado pela expulsão precoce de Vitor Hugo e mesmo assim poderia ter terminado em vitória alviverde, não fossem três gols perdidos por Borja. O segundo, contra o Jorge Wilstermann, em casa, foi também vencido na bacia das almas, com gol depois dos 50 minutos e uma atuação longe da que se espera de um favorito ao título.

Felipe Melo participou de duas encaradas daquelas em que o rosto dos envolvidos ficam separados por uma agulha, antes de rasgar uma bola para a arquibancada, no lance que resultou no primeiro gol do Peñarol. Não tinha muito mais coisa para fazer mesmo e qualquer irritação do volante seria compreensível esta noite porque ele foi alvo de ofensas racistas durante o jogo. E, bem, esta foi sua postura até mesmo na primeira rodada do Campeonato Paulista. No segundo tempo, pediu para ser substituído por Thiago Santos porque estava cansado e, principalmente, porque sentia que corria o risco de ser expulso.

Só que ele não era o único pilhado vestindo verde. Houve cenas lamentáveis quando os uruguaios recusaram-se a jogar a bola para fora com Tchê Tchê estendido no gramado. A afobação era evidente em erros de passe e decisões equivocadas. Mesmo com opções para construir a jogada, Fabiano tentou fazer um gol de tão longe que o goleiro do Peñarol deveria ser apenas um pontinho distante no horizonte. O Palmeiras criou quase nada no primeiro tempo, apesar de uma ou duas boas tramas quando preferiu colocar a bola no chão e passá-la de pé em pé.

Os primeiros dez minutos da segunda etapa foram diferentes. Poderia ter empatado logo na primeira investida. Empatou na segunda, um cruzamento de Fabiano que bateu em Borja, no momento em que o colombiano tentava finalizar, e foi completado por Willian. Virou em um toque despretensioso de cabeça que, graças a uma falha de Quintana, sobrou para Guerra, que avançou para dentro da área e rolou para Dudu marcar. Poderia ter feito o terceiro em pênalti desperdiçado por Borja, o mais ansioso de todos. Começou bem com gols no Campeonato Paulista, mas vem colecionando chances perdidas na Libertadores e tentou tirar a zica a partir da marca do cal. Boa estratégia. Não funcionou.

O Palmeiras foi avassalador nos primeiros dez minutos do segundo tempo. Depois do pênalti perdido por Borja, talvez também por causa dele, a intensidade abaixou e as chances voltaram a ficar escassas. Não sumiram: Michel Bastos recebeu livre pela direita e bateu para defesa de Guruceaga. O rebote ficou com Tchê Tchê e foi salvo em cima da linha por Lucas Hernández.  O Peñarol não era particularmente perigoso, mas chegava perto da área de Fernando Prass sazonalmente. Em uma dessas ações ofensivas, a cobrança de falta encontrou a cabeça de Quintana. Prass defendeu, e Gastón Rodriguez empatou.

Mais tensão, mais ansiedade, que poderiam ter sido rapidamente aliviadas em uma linda bola de Guerra para Willian, que chegou a driblar o goleiro e, com ninguém debaixo das traves, acertou o travessão. O venezuelano era o principal jogador do Palmeiras. Foi o que mais absorveu a sugestão de Eduardo Baptista de jogar com passes rápidos e de primeira. Facilitava as jogadas, pensava e armava como se espera dele. Mas, exausto, foi substituído aos 36 minutos do segundo tempo. Entrou Keno em seu lugar e, sem o armador, os donos da casa passaram a ter uma única alternativa: correria e abafa.

E aí, começou a confusão. O Palmeiras teve uma falta pela lateral direita que demorou duas fases da lua para ser cobrada. Nesse ínterim, o técnico do Peñarol foi expulso, Dudu foi expulso e o tempo fechou. O palmeirense, agora compreensivelmente ansioso, queria cobrar a falta, mas um jogador do Peñarol ficou na frente da bola. Dudu reclamou com o atrapalhadíssimo árbitro e levou cartão amarelo. Falou mais algum impropério e levou mais um cartão amarelo. Dois em dois segundos. Provavelmente um recorde. Com um a menos, o Palmeiras continuou pressionando – não tinha outra escolha – e ficou mais vulnerável para o contra-ataque. Rodríguez perdeu a chance de fazer o gol da vitória do Peñarol de dentro da pequena área. Completou cruzamento da esquerda por cima do travessão.

A apoteose do Allianz Parque saiu no nono minuto de acréscimo dos oitos que o árbitro Roddy Zambrano prometeu. Sua matemática não está tão ruim assim: o jogo realmente estendeu-se além do previsto. Zambrano permitiu uma cobrança de lateral do Palmeiras que resultou em escanteio. Permitiu a cobrança de escanteio que resultou no gol de cabeça de Fabiano, o terceiro, o da vitória. E encerrou a partida logo em seguida, para a irritação dos uruguaios, coroando uma atuação desastrosa da arbitragem para os dois lados.

O Palmeiras tem sete pontos em três jogos: duas vitórias em casa e um empate longe dos seus domínios. Os resultados são os previstos, mas precisa jogar mais bola. Quando fez isso, contra o Atlético Tucumán lá na Argentina, mesmo com um a menos, e em momentos contra Peñarol e Jorge Wilstermann, as chances de gol foram aparecendo com tranquilidade. Há muita qualidade na equipe. Ninguém ganha a Libertadores na afobação. Uma vitória épica aqui e outra ali são inerentes a uma competição tão difícil. Duas seguidas são sintoma de que há um problema. E o problema está mais na cabeça do que nos pés dos palmeirenses.