Internacional e Cruzeiro concluem nesta quarta-feira mais um episódio do confronto que teve seu ápice de “rivalidade” com os grandes times dos anos 1970, mas possui muitas outras histórias a contar. Afinal, a própria origem do embate possui ares grandiosos. A primeira vez que colorados e celestes se enfrentaram foi em 1962, pela Taça Brasil. Já um encontro por mata-matas e que colocava frente a frente equipes importantes, ainda que de maneiras distintas a ambas as torcidas.

O jogo valeu pela decisão da “Zona Sul”, uma das etapas regionais da Taça Brasil, que dava vaga nas semifinais. O Internacional chegara à competição por conta do título estadual conquistado em 1961. E aquele feito seria praticamente um oásis aos colorados, em meio à duríssima seca que encararam até o período de glórias rumo aos anos 1970. O feito do Inter interrompeu um pentacampeonato do Grêmio e antecedeu o heptacampeonato dos maiores rivais. Seria um ponto fora da curva, mas muitíssimo valorizado no antigo Estádio dos Eucaliptos, e marcaria a estreia do clube na Taça Brasil.

O Cruzeiro, por outro lado, dava alguns sinais do esquadrão que surgiria na sequência da década de 1960, mesmo sem contar com os nomes mais célebres. Naquela virada de década, a Raposa conseguiu emendar o tricampeonato mineiro. O troféu de 1961 representava justamente o ápice daquela série, no terceiro tri de sua história até então. Em tempos ainda prévios à construção do Mineirão, a Raposa celebrava suas conquistas no Estádio Independência.

Na fase anterior da Taça Brasil, Cruzeiro e Internacional tiveram dificuldades contra oponentes inferiores. Os mineiros encararam o Rio Branco, de Campos dos Goytacazes, que havia conquistado o Campeonato Fluminense – anterior à unificação do Campeonato Carioca. Os celestes passaram, mas depois do empate fora de casa e da vitória mínima em Belo Horizonte. Emerson garantiu a classificação com um gol aos 41 do segundo tempo, no Estádio Barro Preto. Já o Inter teve sua dose de calafrios contra os catarinenses do Metropol, mas venceu em Criciúma e em Porto Alegre, ambos os triunfos por 3 a 2.

O duelo decisivo entre mineiros e gaúchos começou, enfim, em 10 de outubro de 1962. A ida foi realizada no Estádio Independência. O Cruzeiro era comandado pelo antigo ídolo Niginho. O zagueiro Vavá surgia como principal figura da Raposa, que também contava com o goleiro Mussula e com o atacante Orlando Rossi entre seus destaques. Já os laterais Massinha e Geraldino participariam de um Campeonato Sul-Americano pela Seleção. Do lado do Internacional, Pedrinho já tinha substituído Sérgio Torres no comando do elenco após o título gaúcho. Aquela equipe tinha Gainete no gol, Cláudio Danni de referência na zaga, Oswaldinho conduzindo o meio-campo e um imberbe Flávio Minuano despontando no ataque, acompanhado por Alfeu, irmão do ídolo gremista Alcindo. O “outro Bugre” seria decisivo.

Diante do mau tempo em Belo Horizonte, o público para a partida de ida foi aquém do esperado. E o próprio jogo, sob chuva, deixou a desejar. Ainda assim, o Cruzeiro foi superior e lamentou o empate por 1 a 1. Os anfitriões perderam muitas chances e só abriram o placar quando o goleiro falhou, dando a brecha a Norival. Antes do intervalo, Alfeu aproveitou um cruzamento para deixar tudo igual. O resultado, porém, era considerado injusto até mesmo pela imprensa gaúcha, tamanha a superioridade dos celestes.

A situação permaneceu aberta ao Internacional, em reencontro curiosamente marcado para o Olímpico. Segundo o regulamento da Taça Brasil, as partidas precisavam acontecer no maior estádio da cidade, o que levou os anfitriões ao “território hostil”. Os colorados até preferiam exercer o seu mando de campo no Estádio dos Eucaliptos, mas a insistência dos dirigentes do Cruzeiro levou a partida mesmo para a casa do Grêmio. Sob protestos de seus dirigentes, o Inter precisou acatar a determinação.

Apesar da insatisfação, o Internacional fez valer o mando de campo. Venceu por 2 a 1, mas teve que arrancar a virada. Também sob chuva em Porto Alegre, o Cruzeiro abriu a contagem aos 25 minutos, com o camisa 10 Elmo. Aos 40, o Inter arrancou o empate num lance acusado de irregularidade. Alfeu teria ajeitado a bola com o braço, antes de fuzilar. A arbitragem, contudo, não marcou a infração. E o gol da vitória premiou o substituto Mauro, que acabara de entrar no lugar de Flávio. Aos seis minutos do segundo tempo, o atacante garantiu a comemoração dos colorados pela classificação.

O Internacional terminou eliminado nas semifinais da Taça Brasil 1962, mas com honras. Os colorados encararam o esquadrão do Botafogo e dificultaram bastante à equipe de Garrincha. Após dois empates por 2 a 2, foi necessária a realização de uma partida extra para a classificação dos cariocas. O título, ainda assim, terminou nas mãos do Santos. Restaria a Cruzeiro e Inter esperarem um pouco mais para se tornarem os primeiros representantes de seus estados a erguerem pela um título nacional.