Mais de uma década antes da J-League e quase 40 anos antes da Superliga chinesa, um pequeno país da Ásia Oriental reunia astros internacionais (ainda que veteranos) em seu campeonato de futebol. No início dos anos 80, a liga de Hong Kong assistiu ao seu primeiro grande influxo de jogadores estrangeiros. Em sua maioria britânicos, mas também muitos holandeses, assim como de outros países europeus e até um conhecido brasileiro. Esse curioso e quase esquecido período tem suas melhores histórias relembradas aqui.

A chegada do jogo

Originário da junção dos vários territórios locais conquistados aos poucos pelos britânicos após as duas Guerras do Ópio contra os chineses, Hong Kong tornou-se protetorado do Reino Unido e 1898 por um prazo pré-estabelecido de 99 anos. Exposto à influência cultural inglesa, que contrastaria radicalmente com a da vizinha China, o país foi apresentado à novidade do futebol ainda nas últimas décadas do século XIX. E ainda em 1898 seria criada a primeira competição no país e uma das primeiras no continente: a Challenge Shield, nos moldes da FA Cup inglesa.

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A primeira liga foi criada em 1908, seis anos antes da fundação da Hong Kong Football Association, que se filiaria à Fifa somente em 1954. Antes disso, os jogadores de origem chinesa, maioria no país, defendiam a seleção da China – inclusive compunham a maioria dela nas participações nos Jogos Olímpicos em 1936 e 1948. O campeonato local, por sua vez, esteve interrompido durante a Segunda Guerra Mundial, voltando em 1945, data em que a federação foi refundada e a partir da qual passa a considerar oficialmente os campeões.

Neste período pré-Segunda Guerra, o domínio das conquistas era dos times de ingleses, como o Royal Garrison Artillery, detentor de cinco títulos. Mas já nos anos 30, o South China – que admitia apenas jogadores de origem chinesa e se tornaria o maior campeão de Hong Kong – passaria a monopolizar o cenário. Com a volta das competições após o fim do conflito mundial, o clube se manteria como hegemônico por várias décadas. Entre 1949 e 1978, venceu 19 das 30 edições da liga – esta última de maneira arrasadora, com 20 vitórias e 2 empates em 22 jogos.

O crescimento econômico e industrial observado no país nos anos 50 e 60 começou a fazer água no início da década de 1970, com o aumento das taxas de desemprego. Nesta mesma época, empresas sediadas no país começaram a investir no futebol, criando times formados por seus funcionários ou mesmo oferecendo vagas a atletas nas equipes em troca de empregos, o que fomentou o profissionalismo no esporte em Hong Kong. É precisamente neste momento que surge aquele que seria o clube mais forte da era de ouro do futebol do país.

A ascensão de uma potência

Conhecida mundialmente como fabricante de relógios, a japonesa Seiko criou seu time de futebol em Hong Kong em 1970. Filiado à liga no mesmo ano, o Seiko Sports Association começou sua trajetória naquele mesmo ano, na temporada 1970-71 da terceira divisão, e teve escalada rápida, chegando à elite em dois anos. E não parou por aí: conquistou o título da liga em sua temporada de estreia, além da Senior Challenge Shield (competição em mata-mata mais antiga do país) e da recém-criada Viceroy Cup, credenciando-se como rival de peso do South China.

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Na temporada seguinte, 1973-74, o South China deu o troco, faturando o título e deixando o Seiko em segundo. O novo clube voltaria a ser campeão um ano depois, mas ainda teria de aceitar um tricampeonato do South China, sendo vice nos dois primeiros e apenas quarto colocado em 1977-78. No fim daquela década, porém, iniciaria uma incrível e inédita sequência de títulos ao se sagrar heptacampeão entre 1979 e 1985, superando a marca de seis conquistas seguidas da liga estabelecida pelo South China entre 1957 e 1962.

Na primeira de suas sete conquistas consecutivas, o Seiko chegaria bem perto também de igualar a campanha histórica do South China na temporada imediatamente anterior: o título da nova potência do país veio de maneira invicta, com 19 vitórias e três empates em 22 jogos, 60 gols marcados e apenas 14 sofridos. O pódio foi completado por dois clubes tradicionais: o Happy Valley e o Eastern, entre os quais borbulhava uma acirrada rivalidade com tintas políticas, com o primeiro sendo bancado por grupos pró-China e o outro, pró-Taiwan.

Nos primeiros anos da década de 1980, com o profissionalismo vivendo seu auge até então, a liga de Hong Kong começou a se tornar um destino atraente para jogadores britânicos – fossem eles veteranos com passagem por seleções ou nomes de menor prestígio – e de outros países. Eram atletas que, para fazer seu pé-de-meia, anteriormente costumavam migrar para a NASL norte-americana. Com a decadência do campeonato dos Estados Unidos (extinto em 1984), a antiga colônia britânica na Ásia passou a receber dezenas de jogadores das ilhas.

O Seiko se aproveitaria disso para se fortalecer e seguir hegemônico. Mas, curiosamente, num primeiro momento recorreria não a britânicos, mas a holandeses. A partir de 1981, com a chegada do técnico George Knobel, que dirigira o Ajax e comandara a Laranja na Eurocopa de 1976, vários nomes conhecidos da seleção daquele país aportariam no clube. Os primeiros a chegar foram os meias Gerrie Mühren e Theo de Jong.

O primeiro fizera seu nome no Ajax e também defendera o Betis, além de ter disputado as Eliminatórias da Copa de 74, embora tivesse ficado de fora do Mundial. O segundo, que esteve na Copa, teve carreira destacada no Feyenoord. No ano seguinte, juntaria-se a eles o meia Dick Nanninga, autor do gol holandês na derrota para a Argentina na final da Copa do Mundo de 1978, além de britânicos como o atacante Ronnie Goodlass, ex-Everton.

Os dois citados teriam passagem curta, mas o influxo de estrangeiros não só seguiu crescendo como se diversificou em termos de nacionalidades: para a temporada 1983-84, chegariam o ponta sueco Benny Wendt – ex-Kaiserslautern e Standard Liège, e que também disputara a Copa de 1978 – e o goleiro finlandês Olli Isoaho. Mas o principal reforço para aquela campanha foi outro veterano holandês: o meia Arie Haan, de carreira vencedora no Ajax, Anderlecht e Standard Liège, e que integrara a Laranja finalista dos Mundiais de 1974 e 1978.

Haan penduraria as chuteiras após vencer o título de Hong Kong e a Viceroy Cup com o Seiko naquela temporada. Décadas depois, curiosamente, ele passaria vários anos dirigindo equipes chinesas. Por fim, entre tantos nomes notórios do futebol holandês, naquele período o clube também contou com o atacante René van de Kerkhof (outro que atuou pela Laranja nas Copas de 1974 e 1978) durante a temporada 1984-85. Todos os citados participaram de campanhas de título do Seiko na liga, no hepta que se estendeu até 1985.

Até aquele ano, aliás, o clube já contava com uma recheada sala de troféus: eram nove títulos da liga, oito da Challenge Shield, cinco da FA Cup (segunda competição mata-mata do país em importância) e cinco da Viceroy Cup. O último título da liga daquela sequência levou o Seiko a disputar a Copa dos Campeões (atual Liga dos Campeões) da Ásia, reintroduzida na temporada 1985-86 depois de um hiato de 15 anos sem ser disputada.

Após eliminar o Liaoning, da China, e o 25 de Abril, da Coreia do Norte, o clube se classificou para o turno final a ser disputado na Arábia Saudita, mas não concordou com o regulamento e deixou a competição. Naquela campanha, o time contava com o ponta inglês Trevor Morley, campeão europeu com o Aston Villa em 1982, e o experiente zagueiro escocês Gordon McQueen, ex-Leeds e Manchester United, e que participara das Copas de 1974 e 1978 por sua seleção. Com eles, o Seiko venceria a FA Cup e a Viceroy Cup, mas terminaria apenas em quarto na liga.

O “Clássico dos Relógios”

Não demoraria até que uma concorrente da Seiko no ramo dos relógios – a norte-americana Bulova – seguisse o exemplo e criasse seu próprio time (com o nome da empresa), para competir na liga de Hong Kong. Fundado em 1977, entrou para a liga no mesmo ano e também escalou rapidamente as divisões inferiores. Na temporada 1979-80 estreava na elite, e logo vieram os estrangeiros, com o atacante Terry Conroy, ex-Stoke, liderando a primeira leva.

Em 1981, chegariam o atacante Charlie George, ídolo histórico do Arsenal, e o goleiro Barry Daines, vindo do Tottenham. No ano seguinte, George deixaria o clube, mas chegariam o zagueiro Brian Greenhoff, ex-Manchester United, e o armador escocês Don Masson, ex-Derby County, que disputara a Copa de 1978. Em 1983, seria a vez do atacante Phil Boyer (artilheiro da liga inglesa pelo Southampton em 1979-80) e do escocês Tommy Hutchison, ex-Manchester City.

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Embora o investimento fosse pesado e o número de jogadores experientes acima da média, o Bulova não chegou a se firmar como clube vencedor. Nos oito anos de sua breve existência (fecharia as portas após a temporada 1984-85), conquistaria apenas uma vez a Senior Shield, em 1984, e duas vezes a FA Cup e a Viceroy Cup, em duas dobradinhas (1981-82 e 1982-83). Na liga, então dominada pelo Seiko, a equipe obteria no máximo o vice em 1982-83 e 1983-84.

Um brasileiro em Hong Kong

Lateral-esquerdo que se projetou no Flamengo (onde jogou entre 1967 e 1975), viveu bons momentos no Fluminense e Botafogo, chegou à Seleção na Taça Independência de 1972 e na Copa do Mundo de 1978, defendeu o Internacional e também passou pelo futebol argentino vestindo as camisas do Ferro Carril e do Boca Juniors, Rodrigues Neto já contava 34 anos quando se tornou o primeiro – e em seu tempo, o único – brasileiro a atuar em Hong Kong.

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No fim de 1983, após uma frustrante passagem como jogador e técnico do São Cristóvão, lanterna do Campeonato Carioca, ele foi chamado para integrar um combinado sul-americano organizado pelo empresário Juan Figer que excursionaria pela Ásia, com uma escala em Hong Kong, onde enfrentaria o Seiko. Além de Rodrigues Neto, outros nomes bem conhecidos, como Éder, Dunga, Edevaldo, Wilsinho, Romerito, Rodolfo Rodríguez e Figueroa integravam a chamada “seleção pirata”, que provocou polêmica no Brasil, com os jogadores ameaçados de punição.

Para Rodrigues Neto e para o técnico do combinado, o ex-atacante do Flamengo Esquerdinha, a excursão foi mais proveitosa: rendeu um contrato com o Eastern para a temporada 1983-84, já em andamento. Com a dupla brasileira, a equipe melhorou sua posição na liga e ainda conquistou a FA Cup ao bater o Zindabad por 2 a 1 na final, tendo Rodrigues Neto se sagrado o artilheiro da campanha, com cinco gols. Na temporada seguinte, porém, os dois deixariam o clube: o treinador seguiria para a Indonésia, enquanto o jogador penduraria as chuteiras.

As caras conhecidas dos outros times

Embora, naturalmente, a quantidade (e qualidade) de astros importados fosse proporcional ao poderio financeiro de cada equipe, os clubes bancados por multinacionais não eram os únicos a exibirem caras conhecidas do futebol europeu em suas equipes. Mesmo que fosse por poucas partidas ou apenas como convidados. Foi o caso de duas lendas do futebol britânico: o zagueiro Bobby Moore, campeão mundial com a seleção inglesa em 1966, e o atacante norte-irlandês George Best, ídolo do Manchester United.

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Aposentado então já há três anos, Bobby Moore aceitou um convite do empresário Peter Lam, o bilionário que bancava o Eastern, para atuar pelo clube na final da Challenge Shield, em dezembro de 1981, contra o Hong Kong Rangers. O zagueiro começou o jogo no banco e só entrou no fim, quando placar já estava definido em 4 a 0 para seu time.

A passagem curtíssima como jogador, porém, seria um “até breve”. Na temporada 1982-83, após a saída do técnico Peter Wong para o Seiko, Moore foi apontado como novo treinador da equipe. Sua única temporada no comando, no entanto, não seria bem-sucedida: o time chegou à decisão da Viceroy Cup, mas foi derrotado pelo Bulova. Na liga, terminou na terceira colocação.

George Best, por sua vez, atuou por dois clubes em 1982, sempre como convidado, numa fase de sua vida em que ele tentava se manter sóbrio após os problemas com o alcoolismo. Fez duas partidas pelo Sea Bee e uma pelo Hong Kong Rangers (contra o Bulova, em novembro daquele ano), sendo aclamado pelos torcedores. No mesmo período, também competiu por uma equipe de arremesso de dardos chamada Presstuds, formada por jornalistas e ex-jogadores.

Outro inglês campeão do mundo que atuou em Hong Kong foi o meia Alan Ball. O ex-jogador de Blackpool, Everton, Arsenal e Southampton aportou no Eastern na temporada 1982-83, sua única por lá antes de pôr fim à longeva carreira. No clube, ele teve a companhia do ponta-esquerda Graham Paddon (ex-Norwich e West Ham), do armador Len Cantello (nome histórico do West Bromwich Albion) e do ponteiro norte-irlandês Terry Cochrane (ex-Middlesbrough).

Mesmo o South China, que até 1981 mantinha como princípio a aceitação apenas de jogadores locais, foi forçado a abrir as portas aos atletas estrangeiros. Vivendo momento difícil naquele início de década (chegou a terminar a temporada 1982-83 na lanterna da elite, salvando-se da degola graças à saída do Ryoden da liga), o maior campeão contou com poucos forasteiros, mas alguns eram bem conhecidos, como o ponteiro escocês Willie Johnston, ex-West Bromwich Albion, e que acabou excluído da Copa de 1978 num controvertido caso de doping.

O próprio Ryoden contou, em suas duas últimas temporadas antes de abandonar a liga, com o goleiro escocês David Stewart, ex-Leeds. Outras equipes, como o Caroline Hill e o Happy Valley, também incluíram jogadores britânicos, ainda que menos conhecidos, em seus elencos. Já o Kui Tan teve em seu time da temporada 1980-81 o lateral-direito australiano Doug Utjesenovic, que defendeu os Socceroos na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha Ocidental.

O fechamento dos portos

Antes do início da temporada 1986-87, entretanto, a federação de Hong Kong tomou medida controvertida, e que levaria ao fim daquele período dourado da liga nacional: alegando que o influxo de jogadores estrangeiros prejudicava o desenvolvimento do talento nacional, ela decidiu proibir a escalação e contratação de atletas de outros países. As consequências foram imediatas – e duras: o Seiko encerrou suas atividades e o público nos estádios – que havia chegado a superar facilmente os 20 mil torcedores de média – caiu drasticamente.

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A justificativa era um tanto insólita, uma vez que a seleção de Hong Kong vinha apresentando progressos em seus resultados. A campanha nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1986 havia surpreendido favoravelmente: na primeira fase, num grupo com a vizinha China, Macau e Brunei, os honcongueses passaram em primeiro lugar e obtiveram uma vitória histórica sobre os chineses em Pequim por 2 a 1. Na etapa seguinte, porém, acabariam eliminados pelo Japão, que avançou para decidir a vaga no Mundial com a Coreia do Sul.

Com o fechamento, também ficaram para trás, por um tempo, os grandes duelos internacionais entre clubes do país contra time europeus e sul-americanos. O Seiko chegou a receber Ajax (num jogaço vencido pelos holandeses por 5 a 4), Corinthians (empate sem gols em janeiro de 1984), Internacional, Hamburgo e Boca Juniors. Já o Bulova lotou o estádio nacional de Hong Kong em amistosos contra o Liverpool em junho de 1983 – no qual contou com o veterano goleiro norte-irlandês Pat Jennings como convidado – e o Manchester United em maio do ano seguinte.

Três anos depois, antes do início da temporada 1989-90, a federação retirou a proibição ao notar que ela havia sido contraproducente, mas o campeonato não se recuperou, com o interesse minguando lentamente. A seleção também apresentou declínio que demorou a ser revertido. Somente na década atual é que o interesse pelo futebol no país foi revigorado, com a chegada de outros nomes estrangeiros, alguns mundialmente conhecidos, como Nicky Butt, Mateja Kezman e, mais recentemente, Diego Forlán e Mohamed Sissoko.

BÔNUS: No vídeo abaixo, a final da Viceroy Cup da temporada 1984-85, com a vitória do Seiko (de azul) sobre o South China (de vermelho) por 4 a 3.