No Brasil, a palavra que define a alma do futebol tem sua origem entre as mulheres. Nem todo mundo sabe, mas o termo “torcer” surgiu a partir de moças que, nervosas com as partidas, torciam lenços nas arquibancadas brasileiras durante o início do século 20. Indica um pouco do elitismo nos primórdios, mas ressalta principalmente a maneira como as mulheres abraçaram o esporte desde o início. Tendo que enfrentar a resistência de muitos. E não apenas pelo direito de todas continuarem torcendo, muitas vezes sendo alvo de preconceito nos estádios. A entrada das mulheres no campo de jogo, sobretudo, precisou de décadas de luta.

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Assim como acontece com todo o universo do futebol, a participação das mulheres na modalidade teve os seus ancestrais antes da criação das regras. Elas disputavam o jogo de bola durante a Dinastia Han da China Imperial, bem como na França medieval e na Escócia do século 18. No entanto, a partir da formalização do futebol em 1863, as mulheres demoraram a ganhar espaço nos estádios.

O primeiro amistoso internacional feminino ocorreu em 1881, entre Inglaterra e Escócia, em Edimburgo. Dias depois houve um reencontro em Glasgow, mas o duelo acabou cancelado depois que centenas de homens invadiram o campo, empurrando as jogadoras e as obrigando a fugir em carruagens. Já em 1892 veio a primeira partida referendada pela federação escocesa. Não sem a discriminação masculina, classificando o jogo no Scottish Sport como “o espetáculo mais degradante que testemunhamos em conexão com o futebol”.

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Entretanto, as grandes pioneiras do futebol feminino realmente surgiram em 1894. Eram anos de transformações. A expansão das universidades femininas, a partir de 1870, começou a dar forma aos movimentos pelos direitos das mulheres, enquanto o incentivo à educação física nos anos 1890 impulsionou o interesse pelos esportes. Várias modalidades foram adaptadas a garotas, como o ciclismo, o tênis, o hóquei e o críquete. Mas o futebol seguia proibido. Era um jogo considerado violento, que crescia na classe operária (em tempos nos quais a educação se limitava à classe média e alta) e que tornava a prática impossível com as vestimentas femininas da época. Objeções que também serviam de partida a quem queria mudanças nos direitos das mulheres. Cada vez mais popular, o futebol entrou naturalmente neste contexto.

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Em 1894, as mulheres criaram o primeiro seu primeiro clube de futebol, em Londres. À frente delas estava Nettie Honeyball, a ativista feminista responsável pela formação do British Ladies Football Club. “Eu fundei a associação com o intuito de provar ao mundo que as mulheres não são criaturas ‘ornamentais e inúteis’ que os homens têm pintado. Devo confessar que, sobre todos os assuntos em que os sexos estão tão divididos, minhas convicções são pela emancipação. Espero pelo momento em que as mulheres se sentarão no Parlamento e terão voz nas negociações, especialmente nas principais”, disse, em entrevista ao Daily Sketch.

Porém, os historiadores afirmam que Honeyball nunca existiu de fato. Em tempos nos quais as mulheres tinham direitos mínimos, para não dizer nulos, ela optou por um pseudônimo. O mais aceito é que a “mãe do futebol” tenha sido Mary Hutson, capitã e secretária do time que adotou o nome falso. Independente de como se chamava, sua luta feminista naqueles anos representou muito. Era descrita como uma jovem de olhar duro e personalidade forte, vinda da classe média. Ao seu lado, a principal figura era Lady Florence Dixie, uma aristocrata escocesa que aceitou presidir e financiar o British Ladies. A marquesa era também uma notória feminista, além de ser reconhecida como jornalista e escritora.

A participação de Dixie, inclusive, foi decisiva para que o clube repercutisse na imprensa britânica. Ela era irmã do Marquês de Queensberry, personagem de um escândalo nacional em 1895. Oscar Wilde processou-o por difamação, após o nobre dizer que seu filho teve um caso homossexual com o escritor. Wilde perdeu na justiça. “Tudo que Lady Florence fizesse atrairia atenções, então a conexão dela com o futebol feminino deu um valor à imprensa que não teria normalmente”, afirmou o historiador Jean Williams, em entrevista à BBC em 2013.

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Depois que um anúncio no jornal Daily Graphic atraiu cerca de 30 jogadoras, os treinos do British Ladies começaram ainda em 1894, comandados por Bill Julian, veterano do Tottenham. Já o primeiro jogo aconteceu há 120 anos. Em 23 de março de 1895, duas equipes representando o norte e o sul de Londres se enfrentaram, diante de 10 mil espectadores. O publicou vaiou as atletas e boa parte das pessoas foi embora antes do apito final. Em geral, a imprensa também lançou críticas pesadas. “Os primeiros minutos foram suficientes para mostrar que o futebol feminino está totalmente fora de questão. Nenhuma das qualidades requeridas a um futebolista foi vista no sábado”, escreveu o The Sketch. Ainda assim, comercialmente o evento teve sucesso.

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Apesar da resistência, o British Ladies saiu em turnê pelo Reino Unido, disputando mais de 100 amistosos pela ilha. Nos primeiros meses, chegaram a mobilizar as pessoas nas ruas de Belfast e a arrecadar fundos para a caridade.  Todavia, a campanha contrária nos meios de comunicação pesou e o público de curiosos diminuiu após o primeiro ano, diante de tanto preconceito. Honeyball deixou a equipe na primavera de 1895, desiludida pela maneira como ela tinha se tornado apenas uma maneira de fazer dinheiro a promotores.

Ainda assim, o clube empunhou a bandeira dos direitos da mulher através do país, além de promover o esporte feminino. A equipe ajudou a abrir a imprensa para vários debates em voga no final do século 19 sobre os ideais femininos e a sexualidade. Através de sua representatividade, o British Ladies subvertia os padrões da sociedade vitoriana, abolindo anáguas e espartilhos para vestir calças e blusas. “Futebol é o esporte para mulheres, que superará todos os outros, garantindo bem-estar e destruindo o monstro com cabeça de hidra: as atuais roupas femininas”, declarou Lady Dixie, em entrevista à Pall Mall Gazette.

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Infelizmente, a trajetória do British Ladies não passou de dois anos. Em setembro de 1896, o desgaste e a falta de dinheiro dissolveram a equipe. Após chegar em Exeter, o clube não tinha fundos para pagar o hotel ou seguir viagem. Sem ajuda do prefeito, as jogadoras precisaram ser resgatadas por amigos. Em 1902, a federação reiterou o veto a partidas amistosas com a participação de mulheres. A reabertura ao futebol feminino só aconteceu durante a Primeira Guerra Mundial, com a modalidade usada para entreter o povo e disciplinar as trabalhadoras. Contudo, o fim do conflito voltou a recrudescer o espaço às mulheres em campo. Entre várias iniciativas esparsas, o futebol feminino só ganhou forças na segunda metade do século, se tornando um evento global depois dos anos 1990, com a criação da Copa do Mundo.

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Por mais que a experiência do British Ladies tenha durado pouco, ela possui a sua importância histórica. Acima da iniciativa primordial do futebol feminino, também representa uma época de mudanças nos direitos das mulheres. Para Lady Dixie e Nettie Honeyball, o esporte se tornou o caminho para rejeitar as diferenças impostas entre homens e mulheres. Uma prática social que confrontava as barreiras de gênero. E, mesmo que o futebol tenha sido atrapalhado pelos conservadorismos, a luta progrediu. A reforma no vestuário teve sucesso em um movimento amplo naqueles anos, enquanto o sufrágio feminino se iniciou ao redor do mundo na década de 1890, chegando ao Reino Unido em 1918.

Já nos dias atuais, Nettie Honeyball e Lady Dixie servem como exemplos. Idealistas em um debate que evoluiu, mas ainda tem muito a caminhar. As mulheres estão cada vez mais presentes em campo e nas arquibancadas, mas ainda sofrendo com a disparidade e o sexismo – algo que se repete em outras tantas áreas. Que o futebol, como há mais de um século, sirva de uma maneira mais ampla na sociedade em busca da igualdade de gênero. E que o Dia Internacional da Mulher não se ofusque em flores ou presentes. A data serve não para comemorar, mas para conscientizar sobre as opressões que ocorrem cotidianamente e para tentar mudar um quadro ainda longe do ideal às mulheres.