O Millenium Stadium recebeu duas equipes em momentos diferentes naquele 4 de maio de 2002. Depois de ser rebaixado no final dos anos oitenta, o Chelsea havia conseguido se estabelecer na Premier League na década seguinte, com direito a um terceiro lugar e apenas campanhas de parte de cima da tabela a partir de 1996. Estava prestes a disputar a terceira de Copa da Inglaterra desse período, já com dois títulos na mala. Mas ainda era uma equipe de segundo escalão, embora não isso estivesse prestes a mudar. Diferente do Arsenal. O time de Arsène Wenger venceu o Campeonato Inglês duas vezes, inclusive naquela temporada, e foi vice outras três nesse período. Era um timaço que estava muito próximo de alcançar o seu auge.

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A decisão da Copa da Inglaterra de 2002, a primeira vez que Arsenal e Chelsea decidiram o campeonato mais antigo do mundo, foi um prelúdio de mudanças e de grandes feitos para as duas equipes. O clube do oeste de Londres seria comprado por Roman Abramovich, um ano depois, e subiria rapidamente de patamar com o bicampeonato inglês conquistado sob o comando de José Mourinho. O Arsenal, por sua vez, seria segundo colocado na temporada seguinte, antes de vencer a Premier League de maneira invicta e chegar à final da Liga dos Campeões, o canto do cisne de um dos melhores times que o time do norte da capital britânica já teve.

Essa partida foi simbólica porque a ascensão do Chelsea, pouco depois daquela final, tem relação intrínseca com o futuro do Arsenal, não apenas porque foi esse time o vice-campeão dos Invencíveis e o responsável por eliminá-los da Copa dos Campeões. A chegada de um milionário inflacionando o mercado e atraindo jogadores até mesmo de outros clubes ingleses atrapalhou o planejamento de Wenger, cujo cálculo era o prosseguimento do duelo cabeça a cabeça com o Manchester United, como foi entre 1997 e 2004, período em que os dois clubes revezaram-se na ponta da tabela da Premier League. Depois do título invicto, o Arsenal nunca mais foi campeão e só conseguiu ficar em segundo lugar duas vezes. Já o Chelsea ganhou quatro títulos da liga nacional e foi vice mais três vezes.

Em 2002, a semente dos Invencíveis já estava plantada. O Arsenal, recém campeão inglês, entrou em campo com Seaman; Lauren, Cambpell, Tony Adams e Ashley Cole; Vieira, Parlour, Wiltord e Ljunberg; Henry e Bergkamp. Sete jogadores que formariam a base da equipe imbatível, com os reforços de Lehmann, Kolo Touré, Gilberto Silva e Robert Pires. O Chelsea, no entanto, seria reformulado nos anos seguintes. Do time que encarou os Gunners em Cardiff naquela ocasião, apenas Lampard, Gallas, Gudjohnsen e o jovem Terry, que entrou no segundo tempo no lugar de Babayaro, teriam participação substancial no primeiro título inglês da Era Abramovich.

Não foi um jogo fácil, decidido com dois golaços do Arsenal. Parlour acertou seu petardo de fora da área para abrir o placar, aos 25 minutos do segundo tempo. Dez minutos depois, Ljunberg fez jogada individual, ganhou da marcação na raça e, na classe, acertou um belo chute colocado no ângulo de Cudicini: 2 a 0, placar final. Os Gunners venceriam o Manchester United, quatro dias depois, para selar o título inglês e reivindicar a terceira Dobradinha de sua história.