Em uma competição de mata-matas, o chaveamento costuma ser fundamental para determinar o sucesso de uma equipe. E o Porto não pode reclamar do que as bolinhas da Uefa lhe ofereceram nesta Liga dos Campeões. Os portistas pegaram adversários de um nível abaixo do que poderiam encarar. Agradeceram a sorte com muita competência até o momento, aproveitando as oportunidades. Depois de dominarem sua chave na fase de grupos, agora se confirmam nas quartas de final, eliminando a Roma. O gol anotado no Estádio Olímpico, apesar da derrota por 2 a 1 no jogo de ida, dava boas esperanças para o reencontro desta quarta-feira. Então, os lusitanos fizeram sua parte com maestria no Estádio do Dragão. Diante de um adversário em crise, o time de Sérgio Conceição dominou a partida do início ao fim. Poderia ser mais eficiente nos arremates, diante do bombardeio contra a meta giallorossa. E que a vitória por 2 a 1 nos 90 minutos tenha rendido uma prorrogação, o clube fez por merecer resultado no tempo extra. Alex Telles definiu o placar em 3 a 1 e confirmou a classificação daqueles que foram realmente superiores no confronto.

O Porto entrou em campo alinhado no 4-4-2. Sérgio Conceição apostou principalmente no jogo pelos lados do campo, onde caíam Tecatito Corona e Otávio. Mais à frente, os portistas se valiam das combinações entre Moussa Marega e Tiquinho Soares, oferecendo muita movimentação. Já a Roma, com a vantagem do empate, se alinhou em um contestável 3-4-3. Contestável principalmente pelas escolhas de Eusebio Di Francesco para a defesa, dando moral a uma linha pouco confiável composta por Kostas Manolas, Juan Jesus e Iván Marcano. No meio, também peças para aumentar o combate físico. A dose de talento ficava contida a Nicolò Zaniolo e Edin Dzeko na frente, em trinca completada por Diego Perotti.

Como era de se prever, o Porto dominou o primeiro tempo. Amassou a Roma durante a primeira meia hora de jogo. As chances apareciam aos montes, principalmente pelas investidas de Corona para cima de Rick Karsdorp, abrindo uma avenida pelo lado esquerdo do ataque lusitano. Mesmo reforçado, o sistema defensivo giallorosso parecia frágil demais. O problema dos portistas era a falta de precisão na definição. Os anfitriões finalizaram a maioria das vezes para fora, com o próprio Tecatito exagerando na força. Era o que aliviava a péssima apresentação dos italianos, com dificuldades até para avançar ao campo de ataque.

A persistência do Porto acabou premiada aos 26 minutos, com o gol que inaugurou a contagem. Méritos totais de Marega. O atacante roubou a bola de Manolas no campo de ataque, com um carrinho limpo, e iniciou o contragolpe. Tecatito avançou pela esquerda, com a defesa desmontada, e aproveitou a passagem do próprio Marega. Ele invadiu a área e logo deu o tapa rasteiro para Tiquinho Soares, pronto para resolver na pequena área. Apesar das dúvidas quanto ao posicionamento do brasileiro, o VAR corretamente validou o tento. Vantagem mais do que condizente, diante da ampla superioridade dos portistas.

O gol acordou a Roma, enfim, saindo um pouco mais ao campo de ataque. E os giallorossi se valeram do momento para arrancar o empate. Jogando na lateral direita, Éder Militão não fazia boa partida e cometia alguns erros. Quase deu um contragolpe mortal aos adversários, mas conseguiu se recuperar. Já o lance fatal aconteceu aos 37, em um pênalti cometido pelo brasileiro em cima de Perotti. Na cobrança, Daniele de Rossi deu uma paradinha e apenas deslocou Iker Casillas, com extrema tranquilidade. O Porto ainda tentou retomar a vantagem e pressionou antes do intervalo, sem grandes resultados.

Para a segunda etapa, a Roma perdeu De Rossi. O capitão saiu lesionado e deu lugar a Lorenzo Pellegrini. Enquanto isso, o Porto intensificou a sua postura agressiva e voltou a bombardear a meta adversária. O perigo era constante e Robin Olsen realizou uma defesaça, em chute cruzado de Marega. Todavia, ninguém conseguiria segurar o malinês pouco depois, anotando o segundo gol de sua equipe aos sete minutos. Após cobrança de escanteio, Tecatito roubou uma bola pela esquerda e cruzou com veneno. O passe forte foi em direção ao segundo pau e Marega se aproveitou do desleixo de Marcano, que vacilou em sua marcação. Entrou sozinho na pequena área, com meta escancarada à sua frente, apenas para arrematar. Prêmio à grande atuação do atacante.

Não demorou para Di Francesco finalmente tirar Karsdorp, em noite tenebrosa, botando Alessandro Florenzi. Nada que tenha ajudado a equipe. Se o Porto não era tão intenso quanto nos minutos anteriores, continuava mandando no duelo e criando oportunidades. A falta de capricho ainda era um entrave. A Roma vivia de espasmos e dependia basicamente da potência de Steven N’Zonzi para tentar alguma aproximação com ataque. Nem mesmo Zaniolo ajudava. Vez ou outra, tentava incomodar com as bolas paradas, mas nada suficiente para assustar os portistas.

À medida que o tempo passou, Sérgio Conceição passou a acionar seu banco. Mandou a campo Yacine Brahimi e Fernando. Enquanto isso, Di Francesco finalmente desistiu de seus três zagueiros, com Bryan Cristante na vaga de Marcano. Mas, nos minutos finais, a figura seria mesmo Olsen. O goleiro fez duas defesas para salvar sua equipe, parando os arremates de Brahimi e Otávio. Do outro lado, quando Perotti poderia aproveitar o erro de Pepe, bateu para fora. E houve até mesmo um princípio de confusão após uma falta do zagueiro, que vinha se estranhando com Dzeko durante boa parte do tempo. O placar invertido em relação à ida, de qualquer forma, forçou a prorrogação.

O ritmo do jogo caiu no tempo extra. Mesmo com as novas alterações, os times sentiam o cansaço. O Porto seguia com a iniciativa, só que sem criar tantas chances. E a Roma até ameaçou o crime no segundo tempo. Dzeko teve duas chances. Na primeira, mandou para fora. Depois, deu um leve toque para encobrir Casillas, mas viu Pepe se esticar para evitar o tento quase em cima da linha. O zagueiro, aliás, fazia uma partidaça e evitava maiores riscos aos portistas. Por fim, a justa vitória dos lusitanos se consumou aos 12 minutos. Florenzi puxou a camisa de Fernando na área, em pênalti bobo flagrado pelo VAR. Na cobrança, Alex Telles chutou com precisão e correu para o abraço. Em meio ao desespero dos acréscimos, a partida de Champions virou pelada. Os portugueses desperdiçaram ótimos contra-ataques, enquanto os italianos insistiam no chuveirinho. No máximo, também reclamaram de um penal, negado pelo VAR. O empenho dos anfitriões para manter sua defesa a salvo valeu a vaga nas quartas.

Os números ajudam a dimensionar ainda melhor a superioridade do Porto. O time executou 31 finalizações, 26 delas apenas no tempo normal, contra 15 da Roma. Além disso, teve 60% de posse de bola, melhor também em desarmes e bolas ganhas pelo alto. Detalhes que fizeram diferença no Estádio do Dragão, em uma equipe que viu jogadores em noite inspirada – Marega, Pepe, Tecatito e Alex Telles merecem a menção. Enquanto os portistas tentarão se recuperar no Campeonato Português, após a derrota sofrida contra o Benfica no final de semana, poderão sonhar um pouco mais na Champions. Há grandes chances de serem os azarões na próxima fase, mas já mostraram como são duros de se encarar, sobretudo por sua potência física. E, quem sabe, ainda contem com o auxílio das bolinhas mais uma vez.