O bairro do Estácio representa uma parte fundamental da história cultural do Rio de Janeiro. Foi lá que surgiu a primeira agremiação carnavalesca da cidade. E na vizinhança tão particular também cresceu Luiz. Filho de um funcionário público e de uma costureira, o garoto do Morro de São Carlos logo passou a acompanhar o pai, músico amador, na boemia. Alimentou seu gosto pela canção. Desenvolveu o seu dom. E acabaria adotando o sobrenome artístico do pai: virou Luiz Melodia. Seu talento, porém, não se limitava à música. Luiz também era bom de bola. Como qualquer menino, seu sonho era jogar pelo clube de coração. Ser ponta direita do Vasco. “Eu sempre tive uma vontade de ser jogador de futebol. Só que não levei adiante, a música ultrapassou a vontade”, declarou em 2015, durante entrevista ao Corujão do Esporte.

Nesta sexta, Luiz Melodia faleceu aos 66 anos, em consequência de um câncer na medula óssea. Deixou uma obra ampla, que inclui alguns clássicos e perambula por diferentes vertentes. Inclusive, pelo futebol. Afinal, quando a Revista Placar resolveu gravar o seu primeiro CD, reunindo versões dos hinos de alguns dos principais clubes brasileiros, Melodia foi um dos convidados. Homenageou o seu Vasco, ao lado de Fernanda Abreu, Celso Blues Boy e Pierre Aderne. Em certa medida, um reencontro com sua própria história.

Quando garoto, Luiz Melodia fazia parte do Guanabara. Era o ponta direita driblador do time organizado pelo Seu Luís, no próprio Morro de São Carlos. “Acho que o futebol era o que vencia a minha cabeça. Porra! Era o que mais eu estava a fim, até porque toda a garotada… Independentemente de música, também era louco para ser um profissional, velho! E tinha muitos que treinavam no São Cristóvão, que era pertinho lá do São Carlos, do morro. […] Os caras achavam que eu era o maior driblador. Achavam, mas não tenho bem a certeza. O futebol era uma das coisas, depois da música, mais legais que existiam no São Carlos. Dia e noite. E íamos [com o Guanabara] a uns jogos em outras cidades…”, contou ao site Gafieiras.

Melodia pode não ter chegado tão longe no futebol quanto outros garotos do São Carlos. No máximo, participava dos famosos ‘babas’ no sítio dos Novos Baianos. Mas, fora dos gramados, sempre representou o Vasco. Era daqueles torcedores que aproveitam a turnê para assistir ao time fora de casa – como aconteceu certa vez em 1988, conforme retratado pela Placar, quando, dias depois de um show em Salvador, acompanhou o jogo com o Vitória na Fonte Nova. Era até mesmo próximo de alguns jogadores e outros membros do clube. Em 2011, por exemplo, não escondeu a alegria diante do sucesso do amigo Cristóvão Borges à frente da equipe: “Eu o conheço como jogador de futebol e caso precisasse assumir, acho que assumiria numa boa, porque o cara tem essa sensibilidade. Sabia que não ia dar errado. Acho que foi uma coisa maravilhosa”, declarou o músico, ao Sportv.

Um dos episódios mais marcantes de Luiz Melodia em relação ao Vasco aconteceu em 1994. O músico não perdeu apenas um ídolo com a morte de Dener. Perdeu também um amigo. Os dois se conheceram quando o prodígio ainda estourava na Portuguesa e foi ver um show. Melodia compareceu ao velório para prestar a última homenagem. Mais do que isso, usou a camisa 10 cruz-maltina durante um espetáculo no Memorial da América Latina e escreveu uma breve letra ao jovem. “Se vocês querem um aviso, eu vou dar: por favor, deixem o menino driblar. O menino não é bobo, é esperto demais. Pode até lhe tombar. Por isso, lhe dou um aviso, amigo: deixe o menino driblar. O menino vai deixar saudades”, dizia a composição, criada em cima da canção ‘O Menino’.

E o espírito solidário de Luiz Melodia apoiou o próprio Vasco. Em 2011, o músico foi uma das estrelas do show ‘Vamos todos cantar de coração’, que reuniu diversos artistas cruz-maltinos – entre eles, também Erasmo Carlos, Teresa Cristina, Nelson Sargento, Paulinho da Viola e Martinho da Vila. A apresentação rendeu a gravação de um CD e de um DVD. Já as vendas do álbum e as bilheterias do espetáculo foram revertidas ao Colégio Vasco da Gama, que educa os jogadores das categorias de base do clube.

Assim, diante da notícia sobre Melodia nesta sexta, o Vasco e muitos torcedores se manifestaram em pesar. Em sua página oficial no Facebook, o clube postou a seguinte mensagem mensagem: “Ao grande vascaíno Luiz Melodia que, assim como nós, dividiu o amor por estas cores, vestiu a cruz, cantou Vasco, puxou Casaca e gritou gol. Vivemos e continuaremos carregando o orgulho da luta e o amor pelo Vasco. #LuizMelodiaEterno”. Nada mais justo.