O buraco não tem fim: Entre desmandos, Munique 1860 pode ter que jogar até a quinta divisão

Depois de ser rebaixado à terceira divisão, o clube não pagou a licença necessária e vê um turbilhão de problemas pela frente

Quando o fundo do poço já parecia ter chegado ao Munique 1860, o tradicionalíssimo clube da Baviera se afundou ainda mais. O rebaixamento na segunda divisão do Campeonato Alemão foi bastante doloroso. Na última rodada, os Leões tomaram a virada do Heidenheim por 2 a 1, com gols aos 41 e aos 49 do segundo tempo. Foram obrigados a disputar os playoffs contra o terceiro colocado da terceira divisão. E, depois de um empate fora de casa, que até parecia favorável, perderam para o Jahn Regensburg por 2 a 0 em plena Allianz Arena, diante de 62 mil torcedores. Derrota que provocou lamentações maiores pelas cenas de selvageria nas arquibancadas. Mas que não representaria o fim da linha, ao contrário do que todos pensavam. A diretoria não pagou a licença para disputar a terceira divisão na próxima temporada. A torcida sequer sabe se terá que reerguer seu os celestes do quarto ou do quinto nível, ambos amadores. Penúrias que devem render outras tantas consequências nos próximos dias.

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No centro do debate, está Hasan Abdullah Ismaik. O bilionário jordaniano, dono de empresas em diferentes ramos de investimento, se transformou em acionista majoritário do Munique 1860 em 2011. Dinheiro importante para salvar os Leões da insolvência, em tempos nos quais até mesmo o rival Bayern de Munique auxiliou os vizinhos a equilibrarem as contas. Apesar de adquirir 60% das ações, o suficiente para evitar a quebra dos celestes, o magnata passou a contar com apenas 49% do poder de decisão dentro da diretoria, conforme a regra 50+1 da federação alemã, que impede investidores externos de terem controle majoritário sobre um clube. Já um motivo de insatisfação do novo dono.

Ao longo de seus primeiros anos, Ismaik não fez grandes investimentos em contratações no Munique 1860. O clube manteve a sua política de apostar em jovens promessas e em suas prolíficas categorias de base, o que não deu tanto resultado em campo, apesar das vendas de jogadores como Julian Weigl e Bobby Wood. A maneira como os Leões se desfaziam de seus prodígios por pouco dinheiro, aliás, alimentava a insatisfação da torcida. Já na atual campanha, a diretoria resolveu mexer nos cofres e desembolsou quase €10 milhões em novos jogadores, além de trazer um técnico renomado como Vítor Pereira no meio do campeonato. Nada que tenha ajudado. Pelo contrário, diferentemente do que aconteceu em 2015, os celestes não conseguiram superar os playoffs contra o rebaixamento.

A queda causou as saídas imediatas do presidente Peter Cassalette e do diretor esportivo Ian Ayre, que pediram demissão de seus cargos – apenas complementando um ano em que as mudanças no departamento de futebol foram frequentes. Já Ismaik, o homem-forte do dinheiro, seria o responsável por bancar a licença à terceira divisão. Teria que fazer um depósito acima de €5 milhões à liga. Por divergências com o restante do clube, ainda dona de 51% do poder de decisão, o jordaniano resolveu fazer uma série de exigências para fornecer a quantia. A lista de ordens chegou a ser classificada como extorsão pela imprensa local, enquanto os dirigentes se defenderam dizendo que atender as propostas seria ignorar as regras da liga, inclusive a do 50+1. Assim, sem que ninguém cumprisse o que desejava, o bilionário jogou o Munique 1860 em um limbo sem precedentes nas últimas décadas.

1860

“Se o comando do clube tivesse cooperado para levar certas coisas na direção certa, eu imediatamente teria liberado o dinheiro. Estou sendo erroneamente acusado. Não sou o mau nessa história”, declarou Ismaik, em entrevista à revista Kicker, nesta quinta-feira. O empresário também afirmou que entrará com um processo legal contra a regra 50+1 da federação: “Cheguei ao ponto de dizer que não vai mais longe do que isso. Eu gostaria de lidar com a questão de outra maneira”. O magnata já desembolsou cerca de €60 milhões nos últimos seis anos, e a queda representaria uma perda de até €20 milhões nas finanças do clube. Apesar disso, segue com o discurso de colocar os Leões na elite.

Agora, uma série de questões nebulosas rondam o Munique 1860. A presença na quarta divisão, regionalizada e semi-profissional, depende do cumprimento dos pré-requisitos exigidos pela federação da Baviera. Entre eles, que a regra do 50+1 continue sendo respeitada. Diante da intransigência de Ismaik, não seria surpreendente que os Leões descessem mais um degrau, rumo ao quinto nível. Além disso, a continuidade na Allianz Arena se sugere improvável. Assim, a equipe poderia voltar à antiga casa, o Estádio Grünwalder – algo desejado por boa parte da torcida. Resta saber se os torcedores continuarão frequentando as arquibancadas.

Não é a primeira vez que o Munique 1860 retorna aos níveis amadores. Em 1982, o clube também foi rebaixado aos níveis regionais por problemas financeiros. Entretanto, o caminho era mais curto, no que representava a terceira divisão. Doze anos depois, os Leões já estavam na elite. A reconstrução é possível, claro. Os celestes contam com a segunda maior base de torcedores da Baviera, em uma das regiões mais ricas do país. Arranjar investimentos não seria o problema. O ponto é saber se a torcida continuará apoiando um clube destroçado pelos desmandos de sua diretoria. Se continuará comprando ingressos para ver o brinquedo de um magnata, que rebaixou também o orgulho de cada um que ama a camisa. Não seria surpreendente se um novo Munique 1860 surgisse como alternativa em breve, a exemplo do que aconteceu com o United of Manchester ou o Austria Salzburg.