Boca Juniors e Cruzeiro fizeram 70 minutos de um bom jogo de futebol. Não era o mais técnico ou o mais refinado, mas contava com o empenho das equipes, jogando a sério, tentando construir o resultado favorável. Empurrado pela torcida na Bombonera, o Boca era claramente superior. Contava com as atuações inspiradas de Wilmar Barrios na defesa e de Mauro Zárate no ataque, fazendo por merecer a vitória parcial. O time de Mano Menezes sofria com alguns desleixos atrás e a falta de agressividade, mas seguia vivo. No entanto, um lance normal de jogo vira desastre a partir de um árbitro ruim – por falta de provas, outras afirmações não são possíveis. A cabeçada de Dedé que atinge o rosto do goleiro Esteban Andrada está entre o mais corriqueiro de um esporte de contato. Só que uma chamada desnecessária do árbitro de vídeo gerou a decisão incompreensível (inadmissível ou qualquer outro adjetivo que você preferir) do árbitro Eber Aquino. O zagueiro é expulso. E o que deveria estar sendo tratado como um triunfo natural dos xeneizes infelizmente ganha ares de farsa, em partida encerrada com 2 a 0 no placar. A Libertadores perde todo o seu crédito em um duelo que deveria ser enorme. Vira um dos maiores absurdos já ocorridos no futebol sul-americano, revisto em vídeo e legitimado descaradamente.

O VAR é um sistema falível, vale deixar isso bem claro. O vídeo pode ajudar bastante na condução da arbitragem, através de revisões que corrijam os erros. Porém, tudo cabe à interpretação das regras do jogo e depende da competência (ou da idoneidade) de que apita. Nem todos os lances são absolutos, como a marcação de impedimento ou a bola que passa pela linha. As faltas, por exemplo, se enquadram no julgamento do responsável por assistir na tela e do árbitro que recebe a instrução antes de tomar a decisão. De qualquer forma, um choque como o ocorrido entre Dedé e Andrada é do jogo. Caso Eber Aquino marcasse dentro de campo, na velocidade da jogada, até daria para entender (e digo entender, não aceitar) um eventual cartão a zagueiro. O papel do VAR seria alertar quanto a isso. O que aconteceu na Bombonera foi exatamente o contrário. Um lance inicialmente tratado como normal vira escândalo porque o adicional erra na orientação e o árbitro adicional bate o martelo sobre o insólito. A partir de então, tudo fica condicionado.

A expulsão de Dedé entra em um contexto amplo de favorecimentos. O primeiro ponto concerne à Libertadores, uma competição historicamente manchada por erros. Mesmo quando foi introduzido na última edição, o VAR teve seus problemas, de ocasiões que deveriam ter sido chamadas e acabaram ignoradas, gerando muitos questionamentos. E a inoperância histórica da Conmebol se soma em um momento no qual os clubes brasileiros perdem força política nos corredores da entidade. A eliminação do Santos por conta de sua ingenuidade e também de um erro da entidade promoveu amplo debate. A expulsão que prejudica o Cruzeiro escancara esse contexto, de uma maneira que alimenta as teorias da conspiração e permite desconfianças. Seria o mínimo à Conmebol anular a expulsão do defensor, como ocorre em outras competições. A esta altura, do jeito como influenciou o placar final, não adiantaria totalmente.

Além disso, há uma discussão pertinente sobre a própria maneira como clubes e seus personagens lidam com os erros de arbitragem. Um problema não influencia o outro e há graus bastante diferentes naquilo que pode ser considerado como prejudicial. Na maioria absoluta das vezes, de qualquer forma, os favorecidos se calam. O ponto é que ações isoladas fazem parte de um sistema generalizadamente falho, para não dizer apodrecido, de carências das arbitragens. Aí que uma união dos clubes e, o básico, a honestidade diante dos episódios é necessária. O caso do Cruzeiro acaba atingindo o cúmulo, naquilo que todos têm seu grau de culpa – seja por negligência, por incompetência ou por má fé. A reclamação não pode, e não deve, ser seletiva.

Falando um pouco de futebol, aquilo que deveria importar, o Cruzeiro também não pode negar os seus erros por conta disso. Não foi uma boa partida dos mineiros. Mano Menezes optou por uma escalação que não funcionou, sem a necessária criatividade, sem velocidade aos contra-ataques e sem encaixe defensivo – principalmente pela esquerda, onde sofriam Egídio e Rafinha. A Raposa até poderia ter marcado o seu gol, entre o bom momento no primeiro tempo, em que Thiago Neves desviou uma bola de cabeça no pé da trave, e o início do segundo, quando o meia voltou a falhar quando estava livre e Wilmar Barrios salvou uma bola de maneira espetacular em cima da linha. Entretanto, foi pouco ao time que começou acuando os argentinos e depois se retraiu. Manteve uma posse improdutiva, em que rodar a bola não era o suficiente para ameaçar.

O Boca Juniors, como dito acima, tem seus méritos. Corrigiu os seus problemas de início, quando jogava demais no campo de defesa, e passou a pressionar a partir dos 15 minutos, atacando bem os espaços deixados por Cruzeiro. Alguns jogadores não estavam na melhor noite, como o burocrático Darío Benedetto e o desencontrado Cristian Pavón. Foram compensados por outros companheiros inspirados. Mauro Zárate se tornou um show à parte, primando pela boa movimentação no ataque, buscando o jogo e aparecendo para finalizar. Além disso, Pablo Pérez acertou mais do que nunca em suas participações decisivas. O gol saiu a partir de uma combinação entre os dois, aos 35 minutos. Aproveitando o rombo pela direita ofensiva, Pérez deu um passe sublime para Zárate arrematar.

Já no segundo tempo, quando o Cruzeiro tentava se recuperar do prejuízo, quem apareceu foi Wilmar Barrios. O volante colombiano possui suas limitações ofensivas. Ainda assim, o sucesso do time de Guillermo Barrios Schelotto passa muito por sua competência sem a bola. É um excelente marcador, abnegado em seu trabalho. Algo que ficou evidente no momento em que o chute sutil de Rafinha passou por Andrada, mas o meio-campista arrancou bem em cima da linha, graças a um carrinho apenas possível porque não deixou de acreditar. O lance serviu para inflamar a torcida xeneize e impulsionar novamente o Boca. Numa desatenção de Fábio, Zárate quase empatou, em chute de longe que bateu na trave. Os argentinos pareciam mais preparados a ampliar graças à movimentação de seu ataque.

Aos 24 minutos, no entanto, o jogo acabou no choque entre Dedé e Andrada. O goleiro ficou caído em campo, aparentemente desacordado, e voltou a jogar mesmo assim, sangrando na boca. Já Eber Aquino resolveu tomar a decisão inadmissível, em que mesmo o amarelo soaria desmedido. Não foi o único erro ali, na sequência que permitiria o segundo gol do Boca Juniors. Mano Menezes também demorou a acertar sua defesa, preferindo trocar antes Barcos por Raniel. Edílson errou totalmente o corte e havia um buraco na entrada da área. Felicidade imensa de Pablo Pérez, que acertou um chutaço, sem chances para que Fábio defendesse. Mas o confronto já estava condicionado pelo vermelho.

Dedé fazia uma grande partida e era o único que realmente transmitia confiança diante das falhas pontuais cruzeirenses. Não dá para dizer até que ponto sua ausência determinou o gol (o que fez Edílson é indesculpável). Só que o duelo todo havia perdido sentido. Depois, Manoel entrou e o melhor lance antes do apito final foi da Raposa, em bomba de Edílson cobrando falta, que Andrada desviou com a ponta dos dedos. O placar ficaria mesmo com o prejuízo muito maior do que deveria aos mineiros, por mais que os xeneizes merecessem o resultado positivo.

Será curioso acompanhar a postura da Conmebol diante do caso. Afinal, a ausência de Dedé se torna um problema maior para o Cruzeiro contornar o resultado no Mineirão. Caso tudo fique na mesma, o que é mais provável, impera o descrédito sobre a Libertadores inteira. Uma pena que o torneio, um marco do continente, que tem todas as possibilidades de ser uma das melhores competições do mundo, termine manchado novamente por esse tipo de atrocidade. O VAR, que deveria ser um símbolo de transparência, soa mais como escarro. E trouxas somos todos, que ficamos em frente à televisão ou lotamos os estádios na esperança de ver a bola prevalecer – sobretudo quando se nota uma festa tão bonita na Bombonera, relegada a segundo plano. Que o episódio não pare por aí. E não pelos dirigentes da confederação, mas pelos próprios clubes que precisam se mexer para oferecer campeonatos que realmente valham a pena para quem gosta de futebol. Se a inação continuar, o que se perderá é o próprio interesse.