O resultado de um clássico pode ser determinante para a caminhada no restante da temporada. Em 2011/12, o Arsenal certamente provou essa sensação. Depois de um início cambaleante na Premier League, incluindo os vexatórios 8 a 2 contra o Manchester United, os Gunners acordaram justamente depois de um dérbi contra o Tottenham. Coincidência ou não, foi depois da derrota por 2 a 1 em White Hart Lane que a equipe de Arsène Wenger engrenou sete vitórias nos oitos jogos seguintes, pulando da 15ª para a quinta colocação.

Já no segundo turno, foi a partir do reencontro que o Arsenal demonstrou suas forças para ultrapassar os rivais na tabela e alcançar o terceiro lugar. Em uma virada espetacular, o triunfo por 5 a 2 foi o terceiro em uma série de sete dos Gunners. Pior ainda para os Spurs, que passaram os quatro jogos seguintes sem vencer, em derrocada que culminou na queda de Harry Redknapp – e acabou custando também a vaga na Liga dos Campeões, após o título do Chelsea em Munique.

A repetição do placar no último dérbi do norte de Londres, de certa forma, fez o passado recente ecoar na mente das duas torcidas. Arsenal e Tottenham foram para o Emirates mirando a vitória como ponto de virada. Em novo início inconsistente, os Gunners vinham alternando nas rodadas anteriores partidas insaciáveis com completos apagões. Já os Spurs não se viam longe disso. Depois de um início promissor com André Villas-Boas, o time começava cair de produção, com três derrotas em quatro jogos.

Os primeiro 20 minutos do clássico lembravam o Tottenham que venceu o Manchester United em Old Trafford, tomando a iniciativa. A entrada infantil de Emmanuel Adebayor, porém, acabou resgatando o time incapaz que perdeu para o Wigan em White Hart Lane. Melhor para o Arsenal, que mudou a postura acuada, como já tinha sido contra o United, para recobrar a efetividade vista antes contra o Southampton.

Se os 5 a 2 de sábado não tiveram Van Persie inspirado, como em fevereiro, ao menos contaram novamente com Walcott decisivo. Recuperando suas chances com Wenger, o ponta deu a profundidade que faltou ao Arsenal em boa parte da temporada, acomodado com a troca de passes intensa e pouco produtiva. Giroud é outro que se reencontrou depois dos 7 a 5 no Reading, com cinco gols em cinco jogos – antes, eram dois em 13. E Wilshere, mais “cascudo” depois do longo período afastado dos gramados, mantém o talento na organização. Peças que podem ser importantes na retomada dos Gunners, antes só de Cazorla.

A alguns quarteirões do Emirates, ainda no norte de Londres, os questionamentos a Villas-Boas se tornaram mais constantes. Até mesmo a estratégia de dar valor à Liga Europa é posta em xeque, diante da queda na tabela da EPL. A expulsão de Adebayor foi um imprevisto e custou caro demais. Porém, a mudança tática para o 4-4-2, formação utilizada pela primeira vez nesta temporada, entrou na conta do treinador. E, anteriormente, também ficou evidente a falta de alternativas de jogo, dependente dos lampejos de Bale ou Defoe que participaram diretamente de 78,9% dos gols do time no torneio, seja marcando ou dando assistência.

Outro problema latente está na defesa. O Tottenham é o terceiro que menos permite finalização. Em compensação, é o time que sofre mais gols com menos chutes dos adversários. Os Spurs são vazados uma vez a cada 6,1 arremates, o que explica também os 21 tentos levados até aqui – marca melhor apenas que a de outros quatro clubes. E a guerra velada entre Brad Friedel e Hugo Lloris, dois goleiros de inquestionável qualidade, acaba tendo sua parcela de responsabilidade no problema.

AVB agora precisa contornar qualquer resquício de crise – algo para o qual demonstrou ter pouca aptidão desde Stamford Bridge – para colocar ordem na casa em White Hart Lane. E a sequência de jogos, contra West Ham, Fulham, Everton e Swansea não permite tantas acomodações. Já Wenger tem pela frente adversários de nível parecido: Aston Villa, Everton, Swansea e West Brom. O francês só não pode esquecer que o bom clima de uma guinada na EPL pode ser jogada fora em caso de eliminação na Liga dos Campeões – algo ainda palpável. Como dito na última semana, a briga pelo Top Four segue aberta, mas depende de uma constância incomum para os rivais até aqui.

Londres sitiada

Se algum londrino precisava sair com a vitória do Emirates, o restante da rodada foi de prejuízo para os outros clubes da capital. Exceção feita ao West Ham, que fecha a rodada nesta segunda, os outros times da cidade foram derrotados. O Fulham patinou contra o até então inofensivo Sunderland. O Queens Park Rangers amargou derrota em casa para o Southampton e Mark Hughes tem sua cabeça a prêmio. E o Chelsea completou o quarto jogo sem vitória, caindo para o terceiro lugar.

De um começo de temporada promissor, Roberto Di Matteo se complica diante das carências. O elenco conta com duas opções por posição, mas claramente os reservas no meio de campo não estão no mesmo nível dos titulares. Na defesa, o desnível é geral: deixando muitos espaços, o time não permanece os 90 minutos sem levar gols desde o início de outubro, contra o Nordsjaelland, quando ainda assim Petr Cech saiu como o melhor em campo. Já Fernando Torres, o único sem um substituto de ofício, anotou só um gol nos últimos sete jogos.

Contra o West Brom, Di Matteo tentou usar um time misto, priorizando a Liga dos Campeões, mas a apatia do time o obrigou a mandar para campo Oscar, Mata e Ramires. Não adiantou. Mesmo sem Torres no terço final, o time abusava dos cruzamentos sem direção – foram 44, apenas sete conectando um jogador azul. Curiosamente, os dois gols dos Baggies vieram dos sete cruzamentos feitos pelo time em todo o jogo.

Às vésperas do encontro decisivo com a Juventus, Di Matteo ameaça mudanças no time, inclusive a saída de Torres, mas sem alterar o sacramentado 4-2-3-1 – sem a mesma “pegada” da temporada anterior. A medida pode até dar certo em Turim, embora fique a dúvida se o elenco aguentará a maratona de dezembro. O potencial do time orquestrado por Mata, Hazard e Oscar é inegável, mas provavelmente não seja tão eficaz em tantas frentes.