“Acordar com o pé esquerdo”, no futebol, não deveria ser uma expressão de mau agouro. A alguns, afinal, a canhota costuma ser símbolo de bênção. Um artefato mágico, de superpoderes a raros escolhidos. Na América do Sul, sobretudo, “ser armador” e “usar a esquerda” automaticamente confere ao eleito propriedades místicas. Uma entidade sobrenatural, que pode não estar sempre em seu dia inspirado, mas tem habilidade o suficiente para tirar o planeta dos eixos. E o River Plate acordou com o pé esquerdo neste domingo. Tirou a Terra de sua rotação natural, graças a uma canhotinha pródiga. Juan Fernando Quintero possui várias virtudes que o encaixam como este personagem singular, de talento extraordinário. O escolhido, justo na decisão contra o Boca Juniors. Seu chute indefensável rompe a história millonaria em dois. Torna aquele pé esquerdo venerado por todo o sempre em Núñez.

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Após a Copa do Mundo, uma das maiores preocupações da torcida do River Plate não era sobre quem chegaria para a sequência da Copa Libertadores, com a equipe muito bem formada. Era quem ficaria. Afinal, as atuações de Quintero pela seleção colombiana certamente empolgaram os millonarios por aquilo que o meia poderia aprontar no segundo semestre. Mas também causava calafrios imaginar que qualquer clube europeu poderia oferecer um caminhão de dinheiro ao camisa 8. Nas noites em que os cafeteros jogaram por música na Rússia, Quintero foi o principal responsável a ritmá-los. Fez a ausência de James Rodríguez ser esquecida, por ora. Demonstrou a mais pura malícia sul-americana, de antever o jogo, de mandar os passes onde bem entendia, de tratar a bola como uma companheira querida.

Por isso mesmo, o anúncio de que o acordo com o Porto seria mantido e que o empréstimo de Quintero seguiria respeitado até o final do ano provocou comemorações no Monumental. E a confiança não demorou a se pagar. As melhores atuações dos River Plate nos mata-matas desta Libertadores foram embaladas pela canhota do colombiano. Nas oitavas de final, contra o Racing, o armador mandou prender e soltar no meio-campo. Ditou ordens à equipe e comandou a orquestra nos 3 a 0. O mesmo se veria diante do Independiente, em duelo mais faceiro nas quartas de final. Quintero saiu do banco aos 15 do segundo tempo no jogo de volta, substituindo Lucas Pratto. Justamente a meia hora em que os millonarios buscaram a classificação. O tento que abriu o caminho a vitória aconteceu em uma arrancada do cafetero, explorando os espaços e acertando um chutaço de fora da área para vencer o goleiro Martín Campaña. O cara.

Se Quintero usa a camisa 8, porém, é porque o River Plate já tinha quem honrar a 10: Pity Martínez, outro armador de canhota privilegiada. E o espaço ao colombiano se dava pela ausência do companheiro, lesionado. Pity ofuscou Quintero ao ter papel decisivo nas semifinais contra o Grêmio. Assim, ganhou a titularidade na Bombonera e, com outra atuação acima da média, relegou o cafetero a parcos minutos em campo. Talento, no entanto, nunca é demais a uma equipe. A necessidade neste domingo urgia. Levou o comando técnico millonario a tomar uma atitude ousada. Pity Martínez começou o jogo em Madri e, diante da vantagem do Boca Juniors, continuou ao segundo tempo. Quintero saiu do banco para substituir Leo Ponzio, símbolo do clube, mas mal na noite. Uma substituição que mudou os rumos da final. O pé esquerdo que tirou a Libertadores dos eixos.

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Em um momento no qual o River Plate crescia em campo, Quintero potencializou a equipe. Enzo Pérez passou a fazer o trabalho de proteção na cabeça de área, enquanto o quarteto de meias ganhava mais liberdade para criar. Havia muita qualidade pela esquerda, com Pity Martínez e o fenomenal Exequiel Palacios. Mas era pela direita que o jogo realmente fluía, não apenas pelo camisa 8 aparecendo na faixa central. Ignacio Fernández fazia a atuação de sua vida, chamando a responsabilidade, criando chances. O golaço que deu o empate aos millonarios nasceu com ele. Quintero iniciou a jogada pelo meio e tocou ao camisa 26. Fernández tabelou com Palacios, devolvendo de calcanhar, e cruzou para Lucas Pratto fuzilar.

A queda de braço pendeu ao River Plate a partir de então. Contou com a batuta de Quintero, o canhoto místico, o armador abençoado. A partir do momento em que o colombiano entrou em campo, nenhum outro jogador tocou mais a bola no Bernabéu. O fardo era nele, o homem pensante e de toque refinado. O camisa 10 travestido de 8 que não fugiu da responsabilidade. E na prorrogação, quando o cansaço sobre as pernas se misturava aos temores tomando a cabeça, Quintero quis mais aquela decisão do que qualquer outro. Depois de algumas tentativas no primeiro tempo extra, apareceu para definir. Para resolver o quanto antes, para evitar o drama dos pênaltis. Para dar o título aos millonarios. Galinhas que cantariam de galo, em meio ao caos e à agonia dos minutos derradeiros.

O relâmpago que dividiu os céus de Madri em dois aconteceu a seis minutos do fim. Quintero participou da gênese da jogada, antes que a bola chegasse a Camilo Mayada. Inteligentemente, deu um passo para trás, procurando mais espaço, na entrada da área. Quando o uruguaio devolveu a bola, a marcação sobre o meia ainda era cerrada, cercado por dois, com o terceiro se aproximando. Mas o privilégio do craque não é apenas o de pensar mais rápido que todos os outros, é o de agir instantes antes, graças ao raciocínio mais veloz que o estalar de dedos. O parco espaço era latifúndio. Quintero dominou e já engatilhou a perna esquerda. A canhotinha de ouro, que trata a bola como amante. “Gracias, vieja”. E foi, teleguiada, no alto da meta xeneize, longe do alcance de Esteban Andrada. Trajetória perfeita para ganhar os ares e cair mansa, sonolenta, ao sono profundo nas redes. O camisa 8 resolvia uma final que parecia fadada ao ranger de dentes eterno, graças à virtuosidade de seu dom.

Os instantes finais ainda reservariam outro lance especial a Quintero, agora como coadjuvante. Quando o desespero já havia tomado o Boca e Andrada fincara o pé na área adversária, o colombiano driblou o marcador com um calcanhar no vácuo, recuperando-se para habilitar Pity Martínez ao terceiro gol. Os dois camisas 10 juntos. Os dois armadores canhotos. Os dois heróis, que terminaram por dar o toque de habilidade ao River Plate campeão da Libertadores. O cafetero, ainda, com o nome gravado como o melhor da final.

A trajetória de Quintero é errante. O canhoto pródigo também punido pela acomodação. A carreira promissora no Porto não vingou e a recuperação se deu apenas quando voltou para casa. Redescobriu-se com a camisa do Independiente Medellín no último ano e, em janeiro, tornou-se o eleito do River Plate para fazer sua torcida sonhar mais alto. E fez, com o pé esquerdo, sinal de ótimos agouros aos millonarios. Agora, dando um passo rumo aos Emirados Árabes Unidos, permitindo que em Núñez se devaneie com o título mundial. O talento de Quintero, Martínez, Palacios e outros comandados por Marcelo Gallardo torna este desejo palpável, contra um Real Madrid longe de viver os seus melhores dias.

E qual o futuro de Quintero? Aos 25 anos, a pergunta volta à tona. As divagações já tinham acontecido após suas participações nas Copas de 2014 e 2018, após a passagem pelo Porto. O contrato com os lusitanos, aliás, segue em vigor até 2021 e o clube poderá contar com o reforço a partir de janeiro. Que sua capacidade física não seja tão grande para aguentar os 90 minutos em ritmo máximo, o talento não se questiona. Os próximos anos, entretanto, são impossíveis de se prever. O colombiano poderá desabrochar de vez a partir deste domingo. Ou não, ou viver de lampejos. Certo é que, o futuro bem mais distante, dentro de algumas décadas, se torna claríssimo ao jovem. Seu nome será lembrado pelo canhotazo na entrada da área do Bernabéu. O momento insuperável na carreira, o aclamado eternamente em Núñez. O pé esquerdo que aqueceu o peito do River Plate para sempre.


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