Esta coluna é uma parceria da Trivela com o OlimpCast, que trará toda semana um texto relembrando algum fato marcante dos torneios olímpicos de futebol. Leia mais colunas aqui e ouça o podcast Olimpcast

A Hungria de 1954 é apontada por muitos como uma das maiores seleções a não ganhar a Copa do Mundo – provavelmente divide o pódio com a Holanda de 1974 e o Brasil de 1982. Mas, diferente dessas, a seleção dos Mágicos Magiares, comandada em campo pelo lendário Ferenc Puskás e fora dele pelo visionário Gusztav Sebes, conseguiu ao menos um título relevante: a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Helsinque, em 1952. E foi um passeio de um time que já chamava a atenção do mundo para seus resultados e seu jogo exuberante.

A história já é mais ou menos conhecida e começa em 1948, quando Sebes, um filho de sapateiro que havia sido jogador amador e sindicalista numa passagem pela França, antes da Segunda Guerra Mundial, foi nomeado como parte de um comitê técnico para comandar a seleção – e no ano seguinte assume o posto sozinho, com carta branca para reestruturar o futebol do país após a ascensão de um governo comunista simpático à União Soviética.

Sebes movimenta o mercado interno a seu bel-prazer até encaixar os melhores jogadores no Honved, clube gerenciado pelas Forças Armadas. E a Hungria, que já tinha um currículo respeitável, com o vice-campeonato na Copa de 1938, começa a enfileirar bons resultados: 6 a 1 na Áustria, 8 a 2 na Polônia, 5 a 0 na Bulgária, na Suécia e na Tchecoslováquia. Nem mesmo a derrota por 5 a 3 para os vizinhos austríacos, em 14 de maio de 1950, desanimou os dirigentes e a comissão técnica. Desse dia em diante, o time emplacou 10 jogos de invencibilidade, com nove vitórias – inclusive um 12 a 0 sobre a Albânia – e um empate, 54 gols marcados e nove sofridos, até a estreia nos Jogos Olímpicos de Helsinque. Resultados que renderam ao time alcunhas como o “Golden Team” e “Mágicos Magiares”, pelo futebol envolvente e eficaz.

Era uma Olimpíada recheada de grandes estrelas, como o tcheco Emil Zatopek, que voltaria para casa com três medalhas de ouro, nos 5 mil metros, mil metros e na maratona, e o brasileiro Adhemar Ferreira da Silva, vencedor no salto triplo com quatro recordes mundiais – essas histórias estão no episódio 13 do OlimpCast, que você pode ouvir aí embaixo.

No futebol, foi o último torneio olímpico sem uma seletiva prévia, e já valendo a regra que vetava atletas profissionais. A Hungria, com seus militares de fachada em campo, teve de estrear numa fase preliminar contra a Romênia, onde obteve seu placar mais apertado: 2 a 1, gols de Czibor e Kocsis. Naquela fase, foram mais encantadoras a Iugoslávia, que fez 10 a 1 na Índia, e a Itália, com 8 a 0 sobre os Estados Unidos. O Brasil, que fazia sua estreia no futebol olímpico, fez 5 a 1 na Holanda, com gol do futuro campeão mundial Vavá. A grande surpresa foi a vitória de Luxemburgo sobre uma equipe amadora da Grã-Bretanha por 5 a 3, na prorrogação – o jogo acabou 1 a 1 nos 90 minutos e teve nada menos que seis gols no tempo extra.

Nas oitavas de final, a Hungria acabou com o encanto da Itália, marcando um sonoro 3 a 0, dois gols de Palotás no primeiro tempo e um de Kocsis nos minutos finais. O Brasil passou apertado por Luxemburgo, 2 a 1, e o duelo mais emocionante envolveu outros dois países do bloco comunista: Iugoslávia e União Soviética. Os iugoslavos fizeram 3 a 0 no fim do primeiro tempo, chegaram a abrir 5 a 1 aos 14 da etapa final, mas os soviéticos reagiram de forma inacreditável e foram buscar o empate por 5 a 5. Bonito, mas inútil: dois dias depois, no jogo extra, a Iugoslávia venceu de forma inapelável, 3 a 1. Diz a lenda que os jornais soviéticos esconderam o resultado da partida até o ano seguinte, com a morte do líder Josef Stalin – mas o fato é que a potência comunista, em sua primeira Olimpíada com esse nome, levou para casa 22 medalhas de ouro naqueles Jogos, ficando atrás só dos Estados Unidos.

Vieram as quartas de final, e a Hungria começou a esbanjar: 7 a 1 sobre a Turquia. Kocsis e Puskás fizeram dois cada um; Palotás, Lantos e Kocsis completaram o placar, que chamou de vez os holofotes para os húngaros.

Na semifinal, o duelo era contra a Suécia, campeã em Londres-1948 e que também contava praticamente com força máxima, porque o futebol na Escandinávia ainda não era profissional – apesar da transferência de vários destaques do ouro sueco à Serie A italiana. Outro passeio magiar em  um 6 a 0, com gol de Puskás no primeiro minuto, algo que se tornaria uma característica do trabalho de Sebes: cuidar da preparação física e fazer o time voar nos minutos iniciais, alucinando os adversários e abrindo vantagem cedo no placar.

Na outra semifinal, a Iugoslávia passou pela Alemanha com relativa facilidade, 3 a 1 – os alemães, que haviam batido o Brasil nas quartas, celebravam seu retorno aos Jogos, depois de serem barrados em Londres como punição de guerra, com um time teoricamente unificado, mas formado só por ocidentais.

Na decisão, vestindo branco com estreitas faixas em vermelho e verde, a Hungria só controlou uma Iugoslávia exausta, que havia feito uma partida a mais, com prorrogação. Após um primeiro tempo truncado, em que Puskás até perdeu um pênalti, defendido pelo goleiro Vladimir Beara, os húngaros forçaram e chegaram aos gols na etapa final, com o próprio Puskás, aos 25 minutos, e Czibor, aos 38. No vídeo abaixo, há registros diferentes dos lances da partida e até uma entrevista do capitão húngaro em seu idioma natal.

Com a medalha de ouro no peito, a Hungria emendaria mais uma longa sequência invicta, com direito às memoráveis vitórias sobre a Inglaterra por 6 a 3, em Wembley, em 1953, e 7 a 1, em Budapeste, em maio de 1954, histórias contadas pelos amigos da Central3 no Meu Time de Botão #214. Esse, aliás, foi o último jogo antes do Mundial na Suíça, que terminaria com a frustrante derrota de virada para a Alemanha Ocidental – na qual Czibor e Puskás voltaram a marcar, igualando-se ao uruguaio José Pedro Cea como os únicos a marcar em final de Copa e de Olimpíada. Do time que esteve em campo em Berna, o único titular que não esteve em Helsinque foi Toth, que tomou a vaga de Palotás nesse período.

Sebes seguiu no cargo e a Hungria colecionando vitórias Europa afora, mas não houve tempo para buscar o bi olímpico – a Olimpíada de Melbourne foi só em novembro de 1956, um mês depois da invasão soviética que reprimiu protestos de estudantes e trabalhadores em Budapeste e provocou o exílio de Puskás e Kocsis, entre outras estrelas. Curiosamente, o último jogo de ambos pela seleção fora em setembro de 1956, justamente uma vitória por 1 a 0 sobre a União Soviética em Moscou.

A Hungria se retirou do torneio olímpico de futebol, buscando o ouro e a vingança contra os soviéticos no polo aquático, história que ficou conhecida como “a batalha do sangue na água” e que contamos no episódio 15 do OlimpCast. O futebol húngaro depois disso teve apenas um ou outro lampejo, mas a história jamais esquecerá os incríveis Mágicos Magiares.