O hooliganismo aterrorizou vários cantos do futebol europeu durante a década de 1980. E a Alemanha Oriental sofria bastante com o problema. A queda do regime comunista abria espaço para os mais diversos movimentos, alguns deles se aproveitando do futebol para extravasar a violência. Nesta época, se intensificou ainda mais a rivalidade entre os dois principais clubes de Berlim Oriental: o Dynamo, apadrinhado pelo regime e que, depois, passou a abrigar neonazistas; e o Union, símbolo da resistência ao sistema, que verteu a movimentos neonazistas e de esquerda.

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Ao longo das últimas décadas, a crise financeira do Dynamo, rebaixado para a quarta divisão da Alemanha reunificada, impediu os clássicos entre os times principais. Entretanto, qualquer faísca é o suficiente para reacender os velhos sentimentos. Como a ocorrida neste final de semana. O dérbi aconteceu no Estádio An der Alten Försterei. No entanto, o mandante do duelo era a equipe sub-23 do Union Berlim, que também está na liga – cheia de clubes tradicionais da antiga Oberliga alemã-oriental, como Magdeburgo, Carl Zeiss Jena e Zwickau. E o reencontro foi o suficiente para desencadear uma enorme briga nas arquibancadas.

O estádio para 21 mil espectadores estava cheio e, diante do histórico, também repleto de policiais. O que não impediu cerca de 100 ultras do Union de tentarem invadir o setor ocupado pelos visitantes, onde 400 torcedores do Dynamo se encontravam. A partir de então, se desencadeou a confusão. E a pancadaria generalizada teve continuidade de maneira ainda mais intensa nos minutos finais, com a vitória do Dynamo por 1 a 0. Por conta de pedras atiradas dentro de campo e da resposta violenta da polícia, usando bombas de gás lacrimogêneo, o árbitro precisou paralisar a partida por 18 minutos. Ao todo, 175 pessoas acabaram presas, enquanto 112 policiais se feriram.

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O presidente do Union Berlim, porém, também acusa o excesso de força da polícia durante o evento. “Foi uma enorme falha de quem supostamente deveria proteger a população. Ao invés disso, vemos provocações, violência, violação da ordem pública e um incrível desperdício de dinheiro dos contribuintes. Tal comportamento destrói quaisquer tentativas para uma cooperação entre as duas partes”, declarou Dirk Zingler. Enquanto isso, o porta-voz da polícia culpou o Ministro do Interior pelo contingente insuficiente no estádio, 650 policiais ao todo.

Por mais que o futebol alemão seja exemplo de organização, há problemas que se repetem por lá como em várias partes do mundo. O extremismo político que invade as arquibancadas, as dificuldades para lidar com os organizados, o abuso das forças policiais. Há um enorme pano de fundo histórico sobre o episódio. Mas, independente do passado, a tendência é que medidas duras aconteçam para que o caos não se repita. A impunidade não deve imperar por lá, e já começou com 64 investigações independentes entre si sobre a confusão.