O passado como jogador indica um pouco do que o Vasco pode esperar com a chegada de Sá Pinto

O Vasco realiza uma aposta para o seu comando técnico na sequência do Campeonato Brasileiro. Ricardo Sá Pinto não era a primeira opção da diretoria cruzmaltina, com especulações ao redor de Dorival Júnior e Felipão – nomes fortes para respaldar a atual presidência, às vésperas das novas eleições. Sem acerto com os medalhões, os vascaínos olharam para as alternativas de além-mar e resolveram fortalecer os laços com as próprias origens, bem como confiar na “grife portuguesa” em alta no futebol brasileiro. Sá Pinto possui um currículo de poucos trabalhos duradouros e algumas confusões, mas o seu histórico como jogador é o ponto mais interessante para acreditar em seu trabalho em São Januário.

Aos 48 anos, Sá Pinto possui sua carreira como técnico estabelecida ao longo da última década. Passou por dez clubes diferentes, sem nunca permanecer mais de uma temporada à frente da mesma equipe. Os principais trabalhos se concentram em Portugal, embora o lusitano também tenha rodado por mercados mais alternativos. Também dirigiu agremiações de Sérvia, Grécia, Arábia Saudita, Bélgica e Polônia. O Vasco reforça essa noção de “trotamundos”, mas com traços que podem facilitar seu casamento com os cruzmaltinos.

Sá Pinto em ação na Euro 2000 (Foto: Imago/One Football)

Muito da personalidade de Sá Pinto era notada em seus tempos como jogador. Formado pelo Salgueiros, o atacante despontou nas seleções de base e chegou ao Sporting em 1994. No Alvalade, “Ricardo Coração de Leão” (apelido bem sugestivo quanto ao mascote do clube) criou sua ligação mais forte. Não era um atacante de tantos gols, por vezes atuando aberto ou como segundo homem na linha de frente. Porém, tinha sua dose de qualidade técnica e compensava com muita entrega, com um estilo aguerrido dentro de campo. Isso ajudou que fizesse parte de momentos marcantes dos leoninos e da seleção portuguesa – mesmo que nem sempre positivos à sua imagem ou à sua carreira.

Quando chegou ao Alvalade, em 1994, Sá Pinto logo virou opção na seleção principal. O jovem fazia parte de uma forte equipe do Sporting, treinada por Carlos Queiroz e de muitos destaques oriundos da base leonina. Luis Figo era seu companheiro mais notável, em equipe que ainda contava com Krasimir Balakov, Ivaylo Yordanov e Emmanuel Amuneke na linha de frente. Reserva na conquista da Taça de Portugal em 1994/95, Sá Pinto virou um dos protagonistas do elenco alviverde na temporada seguinte e chegou em alta para a Euro 1996. Dono da camisa 9, o atacante foi titular em todos os jogos, na caminhada que se encerrou nas quartas de final.

Se a relação de Sá Pinto com o técnico António Oliveira era boa, o mesmo não aconteceu com o sucessor na seleção, o vitorioso Artur Jorge. Omitido em jogos das Eliminatórias da Copa, Sá Pinto chegou a invadir um treinamento de Portugal em 1997 para agredir o treinador e também seu assistente, o ex-atacante Rui Águas. Saiu aos socos com ambos. Por conta disso, o camisa 9 acabaria suspenso por um ano do esporte e perderia a progressão de sua carreira. Também deixaria o Sporting nesse período, transferindo-se à Real Sociedad. Depois de seu gancho, teve um desempenho mais tímido em Anoeta. Assim, ainda muito ligado aos leoninos, voltou a vestir a camisa sportinguista em 2000.

Sá Pinto e a confusão na seleção em 1997

Sá Pinto retornou à seleção portuguesa ainda em 1998, quando Humberto Coelho substituiu Artur Jorge após a tentativa fracassada de se classificar à Copa do Mundo. O atacante seria titular em parte das Eliminatórias da Euro e jogou a fase final do torneio continental em 2000, como reserva. Foram três aparições na campanha até às semifinais. Já na sequência da carreira, integraria um dos últimos momentos gloriosos do Sporting, parte do elenco campeão português em 2001/02. O velho ídolo, contudo, não jogaria tanto por conta das lesões. Jardel e João Pinto eram os astros leoninos naquela fase memorável.

Já na casa dos 30 anos, Sá Pinto teria temporadas menos frequentes no Sporting. Seu último grande ano aconteceu em 2004/05, quando compunha o ataque ao lado de Liédson e participou da campanha até a decisão da Copa da Uefa contra o CSKA Moscou. O veterano seguiria no clube até 2006, fora da seleção a partir de 2001. Sua última temporada aconteceu no Standard de Liège em 2006/07. Após pendurar as chuteiras, retornou ao José Alvalade como executivo. A relação carnal com os leoninos determinou também os passos seguintes de sua carreira.

Sá Pinto jogando a Champions com o Sporting – Foto: Imago/One Football

Sá Pinto ocupou inicialmente o cargo de gestor esportivo do Sporting, a partir de 2009. Ficou dois meses no posto, outra vez minado por seu caráter intempestivo. A relação com Liédson não era tão boa nem mesmo nos tempos de jogador, com algumas disputas por protagonismo. E o reencontro com o “Levezinho” resultou em uma troca de socos nos vestiários, que culminou na saída do dirigente. Então, Sá Pinto foi assistente na União de Leiria, até voltar como técnico sub-19 do Sporting.

Ricardo Sá Pinto teve sua primeira experiência como técnico principal no próprio Alvalade. Assumiu a equipe profissional em fevereiro de 2012, no lugar do demitido Domingos Paciência, e teve um final de temporada interessante em 2011/12. Chegou à semifinal da Liga Europa, eliminando o Manchester City, mas sucumbiu ao Athletic Bilbao. Também seria finalista da Taça de Portugal, derrotado pela Acadêmica de Coimbra na decisão. Mas, em 2012/13, não duraria dois meses no cargo, demitido pelos resultados inconsistentes.

A partir de então, Sá Pinto começou a rodar a Europa. Ia bem no Estrela Vermelha, mas os problemas com a chefia fizeram com que durasse só 11 jogos. Seus trabalhos seguintes não perduraram muito mais: OFI Creta (34 partidas), Atromitos (19 partidas) e Belenenses (25 partidas), até ficar por apenas cinco duelos no Al-Fateh, da Arábia Saudita. Voltaria rapidamente ao Atromitos, até seu melhor momento na casamata. Ficou a temporada inteira de 2017/18 à frente do Standard de Liège, faturando a Copa da Bélgica e cumprindo os objetivos previstos. Saiu diante do retorno de Michel Preud’Homme, ídolo do clube em seus tempos de goleiro e que tinha sido campeão também como técnico em 2008. Desta forma, o ex-atacante voltaria a rodar, com mais 28 jogos à frente do Legia Varsóvia em 2018/19.

No início da temporada passada, Sá Pinto assumiu o Braga. Chegava a uma equipe com boas perspectivas, presente na Liga Europa e competitiva no Campeonato Português. Foi bem no torneio continental, liderando um grupo cascudo contra Wolverhampton, Besiktas e Slovan Bratislava. O problema era a campanha mediana na liga nacional, vagando no meio da tabela, fora da zona de classificação às copas europeias. Seria demitido depois de 30 partidas, substituído por Rúben Amorim – que, graças ao seu início arrasador, levou os minhotos à terceira colocação no Campeonato Português.

Sá Pinto, pelo Belenenses (Gabriele Maltinti/Getty Images/One Football)

O Vasco pode esperar um técnico enérgico à beira do campo. Sá Pinto costuma ser reconhecido em seu trabalho como um comandante que fortalece o moral do elenco, embora nem sempre as relações perdurem. Sua exigência também se reverte nos treinamentos, montando equipes com pegada dentro de campo, além de boas médias de gols anotados nos clubes mais recentes. Seu desafio em São Januário será primeiro acertar a defesa, pela maneira como o time de Ramon Menezes se mostrava exposto. Também precisará dar um repertório maior aos cruzmaltinos, num jogo que vinha manjado e muito dependente de suas principais figuras – sobretudo Cano e Benítez.

O carisma é uma virtude de Sá Pinto, mesmo que isso não ganhe jogos. O passado no Sporting indica esta imagem. Resta saber se essa personalidade forte será suficiente para sustentar o trabalho em um clube com problemas financeiros, às portas das eleições e que depende de resultados rápidos para não sofrer no Brasileirão. Sá Pinto não terá muito tempo para se adaptar, considerando a pressa em São Januário. Apesar disso, seu desafio é mostrar que a solução escolhida pelos vascaínos não vai durar apenas alguns meses, como de praxe em sua carreira à beira do campo.

Sá Pinto, em partes, reflete o sucesso de Jorge Jesus no Brasil. Mas as outras apostas portuguesas (mais notadamente Jesualdo Ferreira e Augusto Inácio) indicam como a nacionalidade não é garantia de sucesso. O Vasco não tinha um técnico estrangeiro há cinco décadas e o novo contratado representa uma quebra nesse sentido, embora não pareça um corpo estranho pela própria história do clube, entre suas origens lusitanas e as próprias conquistas com gringos – em especial Ondino Vieira, criador do Expresso da Vitória. Ainda assim, é necessário separar boa vontade e capacidade.

Não é apenas o Vasco que faz sua cartada com Sá Pinto. O treinador também assume um clube de proporções que não encontraria na Europa. Sua chegada deixa um clima positivo, pela própria maneira como exaltou a identidade cruzmaltina em seu vídeo de apresentação, por mais que o ambiente ao redor e a saída de Ramon não ajudem. Mas será preciso esperar para ver se isso dará caldo em campo. A carreira do treinador lusitano não permite muitas certezas, ainda que seu passado como jogador prometa um enorme comprometimento com as cores. O que tantas vezes não é suficiente, afinal.