O Parma de 1990/91: Quando nasce uma potência

Clube muito simbólico da Era de Ouro do futebol italiano, o Parma atravessou a década de 1990 com um dos elencos mais fortes do período, reunindo astros nacionais e internacionais às custas de uma maciça injeção financeira provinda da Parmalat – então não apenas patrocinadora, mas também dona do clube. Aproveitando os 30 anos completados pelo acesso no último dia 27 de maio, relembramos a temporada de estreia dos gialloblù na Serie A, momento no qual o que se tornaria realidade ainda era promessa, mas já fazia seus estragos.

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O longo caminho até lá

Fundado em dezembro de 1913 como Parma Foot Ball Club, a agremiação se originou de outra de vida curta surgida na cidade em julho daquele ano, o Verdi Foot Ball Club, batizado em tributo ao famoso compositor clássico Giuseppe Verdi, nascido naquele município da região da Emília-Romanha, uma das mais ricas e industrializadas da Itália. Seu primeiro uniforme, revivido muito tempo depois, era completamente branco trazendo uma cruz negra na camisa.

Historicamente, a região tem o Bologna – com quem o Parma faz o principal dérbi local – como seu clube mais tradicional no Campeonato Italiano, vencedor de sete títulos (cinco na Serie A) e de longe o que mais disputou a elite do Calcio. Antes do Parma, também já haviam participado da Serie A com certa frequência o Modena, a SPAL e o Cesena. Ainda nos anos 1990, seria a vez de Piacenza e Reggiana. E mais recentemente, Carpi e Sassuolo.

A entrada do Parma na liga italiana começa logo após a Primeira Guerra Mundial, participando das divisões inferiores ainda no período do campeonato regionalizado. Seu estádio Ennio Tardini foi inaugurado em setembro de 1923 e batizado em homenagem ao advogado e ex-presidente do clube que não poupou esforços para levar adiante a construção, mas faleceu exatamente um mês antes da conclusão das obras e da abertura ao público.

O Parma alcança a divisão de elite pela primeira vez na temporada 1925/26 e disputa o Grupo B da Liga Norte, no qual enfrenta algumas das forças da época, como Juventus, Milan, Genoa e Pro Vercelli. É, porém, uma participação bastante tímida, levando o clube ao rebaixamento como penúltimo colocado, somando 15 derrotas em 22 jogos. Pelos próximos 64 anos, os gialloblù vão transitar entre descensos e acessos pelas divisões inferiores do Calcio.

A criação da estrutura de liga, em 1929, encontra o Parma na Serie B, descendo à terceira divisão dali a três anos. Assim, oscilando entre uma categoria e outra, ele ficaria até 1966, quando, um ano após ter descido da Serie B para a C, cai imediatamente – e pela primeira vez – para a D. Em momento de grave crise financeira, o clube é colocado em liquidação em janeiro de 1968 e chega a mudar de nome para Associazione Calcio Parmense.

Após voltar a se chamar Parma, em 1970, empreende nova escalada pelas divisões de acesso, retornando à Série B para as temporadas 1973/74 e 1974/75. No fim da década, desponta no clube o talentoso armador Carlo Ancelotti, destaque na campanha da nova promoção à segunda categoria em 1979, sob o comando de Cesare Maldini. Mas o meia é negociado com a Roma logo depois e, sem ele, a equipe dura apenas uma temporada na segundona.

Ousar para revolucionar

Aquele período também marca a chegada de Ernesto Ceresini à presidência do clube. Dono de uma empresa de construção, a qual administra com a ajuda do filho Fulvio, ele é conduzido ao cargo em 1977 e terá papel crucial na reestruturação do Parma de olho no acesso à Serie A. Em meados da década seguinte, o clube dará alguns passos significativos e um tanto ousados nesse sentido. O primeiro deles vem na temporada 1985/86.

Referendado por um bom trabalho no Rimini, chega ao clube o treinador Arrigo Sacchi, que terá sob seu comando um elenco repleto de nomes que em breve figurarão em equipes da Serie A, incluindo o próprio Parma: os goleiros Marco Landucci e Luca Bucci, os laterais Roberto Mussi e Walter Bianchi, os zagueiros Giovanni Bia e Gianluca Signorini, os meias Valeriano Fiorin e Roberto Bordin e a grande revelação da base gialloblù, o atacante Alessandro Melli.

O Parma de 1986/87

A equipe sobe à Serie B, mas faz ainda mais bonito na temporada seguinte, quando recebe os reforços dos meias Mario Bortolazzi e Davide Fontolan, além de Adolfo Sormani, filho do antigo craque ítalo-brasileiro Angelo Sormani. A quatro rodadas do fim, os emilianos ocupam a terceira posição e parecem próximos da elite. Mas três derrotas nos últimos quatro jogos encerram o sonho do acesso, derrubando o Parma para o sétimo posto.

Na Copa da Itália, porém, o clube cumpre uma campanha histórica. Termina em primeiro na fase de grupos, à frente do Milan, o qual derrota por 1 a 0, gol de Fontolan, dentro do San Siro diante de mais de 37 mil rossoneri. Os dois clubes se reencontram logo na fase seguinte, no mata-mata das oitavas de final, e novamente o Parma prevalece com outra vitória por 1 a 0 em Milão, gol de Bortolazzi, seguido de um 0 a 0 na volta, no Ennio Tardini.

O time cai na fase seguinte diante da Atalanta, mas os triunfos sobre os rossoneri encaminhariam a contratação de Sacchi pelo Milan – onde faria história – ao fim daquela temporada. Para seu lugar, o Parma traz o tcheco Zdenek Zeman, que reformula no elenco após muitos dos jogadores terem sido contratados por equipes da Serie A. Na pré-temporada, o time derrota o Real Madrid em amistoso. Na Copa, volta a bater o Milan no San Siro, desta vez nos pênaltis.

A vitória sobre o Milan na Copa da Itália

Zeman, porém, dura pouco no cargo, demitido no fim de outubro de 1987 com o clube próximo da zona de rebaixamento. Giampiero Vitali assume e conduz a equipe a um mais seguro 11º lugar, embora adiando mais um pouco o objetivo do acesso. Mas o elenco já concentra vários jogadores que levarão o Parma à elite dali a duas temporadas: o lateral Enzo Gambaro, os zagueiros Luigi Apolloni e Lorenzo Minotti, o meia-atacante Marco Osio, além do já citado Melli. 

Nesta temporada e na seguinte – quando o Parma termina em outra morna décima colocação – figuram ainda nomes como o veterano volante Patrizio Sala (ex-Torino e seleção italiana da Copa de 1978) e mais alguns que em breve se tornarão conhecidos na elite, como o goleiro Giovanni Cervone, o lateral Amedeo Carboni e o atacante Francesco Baiano. Mas o comandante do acesso só chegará em 1989: o ex-meio-campista Nevio Scala, de 42 anos.

Dono de extenso currículo como jogador de Milan, Inter, Roma e Fiorentina (entre outros) nas décadas de 1960 e 1970, Scala teve trajetória breve como treinador antes de aportar no Ennio Tardini. Dois anos antes, ainda dirigia as categorias de base do Lanerossi Vicenza. Porém, entre um trabalho e outro, esteve muito perto de levar a Reggina à Serie A pela primeira vez em sua história, perdendo o “spareggio” pelo acesso para a Cremonese.

Com o novo comandante mais alguns reforços, o Parma faz excelente primeiro turno, alcançando a liderança da Serie B (ao lado do Pisa) no dia 30 de dezembro de 1989, ao vencer fora de casa o “Derby Dell’Enza” contra a Reggiana por 2 a 0, com dois gols do atacante Maurizio Ganz. Mas logo em seguida, na virada do ano, o time entra em uma espiral de maus resultados, somando apenas um ponto nos próximos sete jogos e despencando para o oitavo lugar.

O presidente Ernesto Ceresini

Uma dessas derrotas vem no tapetão: no dia 21 de janeiro, a equipe vence em campo a Reggina por 2 a 1 de virada, com dois gols do meia Fausto Pizzi. Mas a torcida arremessa objetos no gramado do Ennio Tardini, atingindo o lateral adversário Armando Cascione. A federação então decreta a equipe granata – rival direta pelo acesso – vencedora por 2 a 0. Mas outra tristeza, ainda maior, chega subitamente duas semanas depois.

No dia 4 de fevereiro, momentos antes de o Parma receber o Como pela 22ª rodada, um infarto fulminante leva à morte o presidente Ernesto Ceresini, um verdadeiro e eterno apaixonado pelo clube. Com lágrimas nos olhos, o Estádio Ennio Tardini assiste a um empate em 0 a 0 – que vale o único ponto somado pela equipe naquela má sequência. Enquanto seu filho Fulvio assume a presidência interinamente, o time luta pela reabilitação.

O Parma volta a vencer exatamente um mês depois, ao derrotar o Monza por 1 a 0. E, no fim de março, ao bater o Brescia por 1 a 0, o time se lançaria numa arrancada decisiva para conquistar o acesso, que seria confirmado em 27 de maio, com uma rodada de antecedência, justamente no dérbi da volta contra a Reggiana, agora no Ennio Tardini. Com a vitória por 2 a 0, gols de Osio e Melli, os gialloblù garantiam a promoção histórica.

O time subia como quarto colocado na Serie B, com 46 pontos em 38 jogos e atrás do Torino (que retornava após cair no ano anterior), do Pisa (que vinha frequentando a categoria principal com assiduidade ao longo daquela década) e do Cagliari (que voltava após seis anos e acumulava dois acessos seguidos, após ir parar na Serie C por duas temporadas). E passaria por uma grande transformação para disputar a elite do Calcio, então em sua era de ouro.

Começa a era Parmalat

Logo após o acesso, o clube seria adquirido pela Parmalat, multinacional italiana dos laticínios sediada na cidade (como o nome indica), um império erguido pelo empresário Calisto Tanzi no início dos anos 1960 e que desde o fim da década seguinte começaria a investir em patrocínio esportivo. Primeiro, estamparia sua marca nos macacões de esquiadores, como o italiano Gustav Thöni e o sueco Ingemar Stenmark. Em seguida partiria para o automobilismo.

Em 1978, a empresa bancou a transferência do austríaco Niki Lauda, então bicampeão mundial de Fórmula 1, da Ferrari para a Brabham, conseguindo com isso a exposição de sua marca nos carros da scuderia britânica. Três anos depois, ela ganharia ainda mais destaque com o título do brasileiro Nelson Piquet, repetido em 1983. O ano seguinte seria o último da parceria: ainda em meados de 1984, seria a vez de direcionar sua verba para o futebol.

O time do acesso em 1989/90

Primeiro através de sua marca de sucos de frutas, a Santàl, que era exposta na camisa do Avellino – equipe constante na Serie A de então – a partir da temporada 1984/85, atendendo ao pedido de Ciriaco de Mita, futuro primeiro-ministro italiano, amigo dos Tanzi e torcedor do clube. No ano seguinte seria a vez da companhia transcender as fronteiras italianas também no futebol e se associar a um gigante mundial do esporte: o Real Madrid.

Os merengues ostentariam a marca Parmalat em suas camisas no lugar da de outra multinacional italiana (a fabricante de eletrodomésticos Zanussi) a partir da temporada em que a lendária Quinta del Buitre conquistaria sua segunda Copa da Uefa e iniciaria seu penta nacional – é em razão desse patrocínio que o Parma enfrentaria e venceria os madridistas no já mencionado amistoso de 18 de agosto de 1987 no Ennio Tardini.

Semanas antes daquele jogo, havia sido a vez de o clube local a enfim acertar um contrato de patrocínio com a empresa. Mas o investimento maciço só viria com a chegada à primeira divisão e a consequente aquisição do Parma pela multinacional de laticínios. Com o dinheiro dela, o clube já estrearia na Serie A colocando o pé na porta quanto às contratações – especialmente as de atletas estrangeiros, os primeiros a vestirem a camisa gialloblù na história.

Grün, Taffarel e Brolin

O choque inicial vem com a contratação de um goleiro, o primeiro estrangeiro da posição a atuar no futebol italiano – e único até 1996. Titular da seleção brasileira na recém-encerrada Copa do Mundo disputada em solo italiano, Taffarel é contratado do Internacional em meados de julho por quase US$ 1,7 milhão. A transferência também tem motivações econômicas ao patrocinador, que pretende usá-la como chamariz para expandir sua participação no mercado brasileiro.

Nevio Scala pede um reforço para a zaga e, a princípio, o clube pensa no soviético Oleg Kuznetsov (Dynamo Kiev) – algo também propício para a Parmalat, que visa a aquele mercado em expansão após a abertura econômica ao exterior – e ainda em Guido Buchwald (Stuttgart), campeão com a Alemanha Ocidental. Outras especulações apontam também o nome do colombiano Andrés Escobar, revelação do Mundial que defende o Young Boys, da Suíça.

O nome que chega não é nenhum desses, mas outro de primeira linha: o belga Georges Grün, ex-Anderlecht, jogador com experiência de duas Copas do Mundo e uma Eurocopa pelos Diabos Vermelhos, além de várias boas campanhas europeias com seu clube – poucos meses antes, havia enfrentado a Sampdoria na decisão da Recopa. E também um defensor versátil, capaz de atuar com a mesma eficiência como zagueiro, lateral-direito ou volante.

O terceiro e último estrangeiro é um nome em franca ascensão, que se conseguiu se sobressair em meio ao fiasco de sua seleção no Mundial, ao qual chegara como um semidesconhecido: trata-se do rápido e habilidoso atacante sueco Tomas Brolin, apenas 20 anos, trazido do IFK Norrköping. Uma aposta ousada e que simboliza bem o espírito do clube na época: o de um estreante ambicioso, a quem não bastaria apenas a permanência na elite.

O elenco de 1990/91 posado

Entre os “nativos”, o principal reforço é o experiente meia Stefano Cuoghi, que defendera o Milan no turbulento início de década dos rossoneri e aporta no Ennio Tardini após quatro temporadas no Pisa. Revelado pelo clube, o lateral-esquerdo Stefano Rossini, retorna emprestado pela Inter. E chegam outros nomes da Serie B para compor elenco: o defensor Rocco de Marco (Reggina), o meia Giovanni Sorce (Licata) e o rápido atacante Graziano Mannari (Como).

Por outro lado, para que estes cheguem, alguns nomes importantes do acesso saem pela outra porta. O goleiro Giacomo Zunico vai para o Lecce. Seguem para a Udinese, então na Serie B, o zagueiro Massimo Susic, antigo titular, e o ala-esquerda reserva Alessandro Orlando. Já o meia Fausto Pizzi retorna à Inter ao fim de seu empréstimo. E o centroavante Maurizio Ganz, reserva bastante utilizado na campanha anterior, toma o rumo do Brescia.

O time-base

A base da equipe titular, no entanto, é mantida, assim como o esquema empregado por Nevio Scala segue sendo o 5-3-2 amplamente utilizado na última Copa do Mundo, num momento em que o tradicional “gioco à italiana” – sistema quase unânime desde os anos 1960 – começa a cair em desuso dentro do país. A receita são três zagueiros sólidos, dois alas indo e voltando, três meias versáteis e dois atacantes velozes e de grande movimentação.

À frente de Taffarel (goleiro de 24 anos, grande calma e frieza e bons reflexos), o setor defensivo tem o líbero Lorenzo Minotti, revelado pelo Cesena, jogador inteligente, versátil, forte no jogo aéreo e, sobretudo, de grande liderança; o stopper Luigi Apolloni, zagueiro sólido e marcador muito eficiente vindo da Reggiana; e ganha agora o belga Georges Grün, que faz com elegância e bons passes a transição da defesa para o meio-campo.

Os alas, assim como Minotti e Apolloni, são os mesmos da campanha do acesso: Cornelio Donati – aos 32 anos, um dos veteranos do time e vindo do Padova – pela direita e Enzo Gambaro – um ex-reserva da Sampdoria – pela esquerda provêm a amplitude no apoio e fecham os espaços pelos flancos do campo. Os já citados Stefano Rossini e Rocco de Marco, novidades para aquela temporada, são os principais reservas do setor defensivo.

No meio, Daniele Zoratto é o “regista” recuado. Nascido em Luxemburgo, mas filho de imigrantes italianos, volta ao país de seus pais ainda criança e mais tarde defenderá a Azzurra (como jogador do Parma). Aos 29 anos, é um dos atletas mais rodados daquele elenco, tendo passagens por clubes como o Cesena, o Rimini e o Brescia. Para a organização do time e a criação de jogadas, tem ao seu lado o já citado Stefano Cuoghi, ex-Milan e Pisa.

Titular na campanha do acesso, o armador Tarcisio Catanese perde a posição para Cuoghi, mas se torna peça importante vindo do banco de reservas. Além dele, o volante Aldo Monza também é bastante utilizado quando é necessário acrescentar combatividade ao setor. Há ainda o recém-contratado Giovanni Sorce, meia ofensivo trazido do pequeno Licata e que se torna uma espécie de “supersub” da equipe naquela temporada de estreia na Serie A.

Completa o meio-campo titular um dos jogadores mais simbólicos daqueles primeiros anos do Parma na elite: o meia-atacante Marco Osio. Revelado pelo Torino, é emprestado ao Empoli em 1986/87, marcando o primeiro gol da história dos azzurri na Serie A ao bater a Inter por 1 a 0. Chega ao Parma na campanha seguinte e logo conquista a torcida. Jogador raçudo, ofensivo, líder, de cabelo e barba grandes, recebe o apelido de “Il Sindaco” (“o prefeito”).

Osio veste a camisa 9, mas não é um autêntico centroavante, e sim uma espécie de ponta-de-lança, ou “trequartista”, vértice mais recuado em relação aos dois homens de frente, e que vinha de trás para finalizar. Estes dois atacantes, ambos muito velozes, são o sueco Tomas Brolin e o prata-da-casa Alessandro Melli, uma das maiores revelações das categorias de base do clube e que também chegará à Azzurra, assim como Minotti, Apolloni e Zoratto.

A estreia na Serie A

A primeira campanha do Parma na história do Campeonato Italiano em pontos corridos pode ser dividida em quatro momentos distintos. Nas cinco primeiras rodadas, a equipe oscila, ainda se ambientando à nova realidade. Daí em diante e até o fim do primeiro turno, o time deslancha ao vencer sete de suas próximas 12 partidas, até encerrar a metade inicial da competição na vice-liderança. É quando a imprensa passa a trata-lo como “il Parma del miracolo”.

O início do returno, porém, é o pior momento da equipe na temporada, com desempenho que é o extremo oposto do obtido no período imediatamente anterior: nos dez primeiros jogos, o time soma apenas duas vitórias e cinco derrotas, o que o afasta de vez de qualquer aspiração de título, caindo para a sexta posição com pontuação bem aquém dos líderes. Mas na reta final, o Parma estanca o mau momento e se segura para garantir a classificação europeia.

A tarde de 9 de setembro de 1990 é histórica: o Parma estreia na Serie A num Ennio Tardini lotado recebendo a poderosa Juventus, que traz a dupla de frente que volta consagrada da Copa do Mundo (embora a Itália termine apenas em terceiro, mesmo jogando em casa): Roberto Baggio e Salvatore Schillaci, este o artilheiro do Mundial. Curiosamente, a Velha Senhora tem apenas um estrangeiro em campo, o recém-contratado zagueiro brasileiro Júlio César.

Melli contra o Napoli

Marcar a ocasião com uma grande vitória teria sido um cenário épico para o Parma, mas não foi possível: a Juventus abre o placar no primeiro tempo, com o lateral Nicolò Napoli pegando rebote de cabeçada de Schillaci no travessão, e amplia na etapa final em pênalti sofrido e convertido por Baggio, num lance contestado por posição duvidosa de Schillaci no início da jogada. Também em penalidade, Melli desconta no fim, anotando o primeiro gol do clube na Serie A.

Na segunda rodada, o time soma seu primeiro ponto exatamente no palco da final da Copa do Mundo, o Estádio Olímpico de Roma, ao empatar sem gols com a Lazio – que vê o uruguaio Rubén Sosa chutar um pênalti para fora. Uma semana depois, de volta ao Ennio Tardini, os gialloblù finalmente vencem sua primeira partida na competição – e com estilo: desbancando nada menos que o Napoli de Maradona e Careca, atual detentor do Scudetto.

Após um início bastante estudado e com as defesas prevalecendo, o único gol do jogo sai aos 19 minutos da etapa final. O ala Rocco de Marco desce pela direita e cruza para Osio mergulhar num peixinho e estufar as redes de Giovanni Galli. Com Taffarel aparecendo sempre muito bem quando acionado, e Grün e Apolloni tomando conta de Maradona e Careca, os donos da casa seguram a vitória e dão uma volta olímpica, saudados por seus torcedores.

Nos dois jogos seguintes, o time para em empates. Diante do Bari no San Nicola, fica duas vezes atrás no marcador, mas consegue chegar à igualdade com gols de Brolin e Minotti saídos em cobranças de escanteio – o segundo, já a seis minutos do fim da partida. Em seguida, vem um 0 a 0 diante da futura campeã Sampdoria no Ennio Tardini, um jogo movimentado e de muitas ocasiões de gol, mas não aproveitadas. E que tem Taffarel em nova atuação segura.

A grande sequência da campanha começa com uma ótima vitória fora de casa sobre a Fiorentina do técnico Sebastião Lazaroni. A Viola vem em grande fase, tendo eliminado o próprio Parma na Copa da Itália com dupla vitória por 1 a 0, além de viver seu melhor momento naquela edição da Serie A. Seu trio de estrangeiros inclui outro brasileiro, o volante Dunga, além do ponta romeno Marius Lacatus, destaque no Mundial, e do meia tcheco Lubos Kubik.

A arrancada no primeiro turno

O jogo é bastante parelho na primeira etapa, com chances de parte a parte. Mas o Parma é bem melhor nas finalizações e chega a abrir três gols de vantagem. O primeiro deles, diga-se, é um golaço de Melli, que recebe um lançamento, domina no peito e, sem deixar cair, chuta de virada, de fora da área, no ângulo do goleiro Marco Landucci. Ele também anota o segundo, três minutos depois, batendo cruzado na saída do arqueiro.

Pouco antes, a Fiorentina havia reclamado de um pênalti não marcado. E logo depois perderia chance incrível com Lacatus, após driblar Taffarel e acertar a rede pelo lado de fora. Brolin, em jogada individual, anota o terceiro para o Parma e, ainda na primeira etapa, Kubik desconta cobrando penalidade. Na etapa final, pouco depois de Melli desperdiçar ótima chance de marcar o quarto, Renato Buso diminui para a Viola, mas a vitória é gialloblù.

Na rodada seguinte, a vítima é a Roma de Rudi Völler, Aldair e Thomas Berthold, batida por 2 a 1 no Ennio Tardini. Todos os gols saem na primeira etapa: Brolin abre a contagem cabeceando um centro da esquerda, Giuseppe Giannini empata após receber lançamento de Aldair e, pouco antes do intervalo, um chute cruzado de Minotti desvia em Sebastiano Nela e dá a vitória ao Parma, que já alcança a quarta colocação no campeonato.

A derrota para a Inter no San Siro por 2 a 1 encerra uma sequência invicta de seis partidas. Mas o time se reabilita batendo o Pisa por 2 a 0 na Arena Garibaldi – com Melli e Osio marcando os gols e Taffarel pegando um pênalti de Lamberto Piovanelli, então o artilheiro do campeonato – e também o Cagliari pelo mesmo placar no Ennio Tardini, desta vez com Osio e Grün balançando as redes. Os dois triunfos levam o clube a recuperar o quarto posto.

Um novo revés é sofrido na visita ao perigoso Genoa, equipe que também seria a sensação daquela temporada: um pênalti convertido pelo uruguaio Carlos Aguilera e uma bomba de falta cobrada por Branco deixam os Grifoni em vantagem. Melli chega a descontar no início da etapa final, mas o empate não vem: Graziano Mannari (que entrara no lugar de Brolin) balança as redes, mas o gol é corretamente anulado por impedimento.

O duelo contra a Roma

O empate em casa por 1 a 1 diante de um Bologna na zona de rebaixamento (e que cairia ao fim da temporada) sofrido com gol do suíço Kubilay Türkyilmaz a dois minutos do fim é bastante lamentado e motiva uma reação do setor defensivo: o Parma passaria os próximos cinco jogos sem ser vazado. Venceria a Atalanta em casa (1 a 0), empataria sem gols com um bom Torino no Delle Alpi e com o Lecce em casa, derrotando ainda o Cesena fora (1 a 0).

O quinto é o aguardado duelo contra o Milan de Arrigo Sacchi no Ennio Tardini pela última rodada do primeiro turno, já após a virada do ano, em 20 de janeiro de 1991. Na visita ao Parma, embora desfalcados de Paolo Maldini, os rossoneri trazem seu trio holandês (Frank Rijkaard, Ruud Gullit e Marco Van Basten), mais o capitão Franco Baresi, o ex-gialloblù Carlo Ancelotti e outros nomes de peso. Mas são inteiramente superados no primeiro tempo.

É nesta etapa inicial que o Parma marca seus dois gols, ambos com Melli. Logo aos seis minutos, Osio recebe, dá uma meia-lua em Alessandro Costacurta, arranca pela direita e cruza. Ancelotti não consegue cortar, e o goleador gialloblù fuzila o goleiro Andrea Pazzagli. E aos 34, o mesmo Melli recebe lançamento nas costas da defesa milanista, que para pedindo impedimento, mas o atacante tem toda a liberdade para driblar Pazzagli e levar a bola às redes.

A vitória leva o Parma à vice-liderança ao lado da Juventus e a dois pontos da campeã de inverno Internazionale. Porém, antes da virada do turno, Milan e Sampdoria vencem um jogo adiado que tinham cada um, e os emilianos descem uma posição. De todo modo, a campanha na primeira metade da competição é altamente satisfatória, colocando o time de Nevio Scala não apenas na disputa pela classificação europeia como também na briga pelo Scudetto.

Caindo na real

O início do returno, porém, traz a equipe de volta à terra. O primeiro abalo nas ilusões de título vem na visita à Juventus, quando o time sofre sua derrota mais pesada daquela campanha: um míssil do zagueiro brasileiro Júlio César em cobrança de falta abre o placar no primeiro tempo. E na etapa final, um gol de Pierluigi Casiraghi, outro de Giancarlo Marocchi e dois de Roberto Baggio fecham os inapeláveis 5 a 0 para os bianconeri. E o Parma sente o baque.

Após um 0 a 0 diante da Lazio em casa, o time sofre outra derrota pesada, agora para o Napoli no San Paolo, em uma das últimas partidas de Maradona antes da suspensão por doping: 4 a 2, num jogo em que o Parma comete três pênaltis. E em seguida vem a vitória magra sobre o Bari por 1 a 0, graças a um gol contra bizarro de Massimo Brambati, um dos dois únicos triunfos da equipe nas dez primeiras rodadas do returno (da 18ª à 27ª).

Pela frente ainda vêm a derrota para a Sampdoria em Gênova (1 a 0), a vitória em casa sobre a Fiorentina com gol de Minotti – num jogo em que a Viola carimba duas vezes a trave de Taffarel e tem um tento anulado por toque de mão – e os empates com a Roma na capital (1 a 1, gol de Brolin) e a Inter no Ennio Tardini (0 a 0), precedendo talvez o pior resultado de todos: a derrota em casa para o Pisa, antepenúltimo na tabela, por 3 a 2.

Alessandro Melli em ação contra a Roma

Diante de uma atuação desastrosa da defesa gialloblù, os toscanos chegam a abrir três gols de vantagem (dois de Michele Padovano e um de Maurizio Neri), antes de os donos da casa reagirem e diminuírem com Brolin e Melli, cobrando pênalti. A última parada da sequência ruim é na Sardenha, onde o time é batido pelo Cagliari, outro que ocupa a zona da degola, por 2 a 1. Agora 11 pontos atrás da líder Sampdoria, o Parma não briga mais pelo Scudetto. 

Nesse momento, porém, as esperanças de uma vaga europeia se renovam por linhas tortas: na noite de 20 de março, pelo jogo de volta das quartas de final da Copa dos Campeões, o Milan vai perdendo por 1 a 0 para o Olympique de Marselha no Vélodrome – resultado que o elimina do torneio – quando um apagão nos refletores leva à interrupção da partida. As luzes retornam 20 minutos depois, mas os rossoneri se recusam a voltar a campo.

Uma semana depois, o comitê disciplinar da Uefa dá seu veredito: o Milan, atual bicampeão do torneio, é declarado perdedor da partida interrompida por 3 a 0, eliminado da competição e ainda suspenso por um ano das competições europeias. Para os demais clubes da Serie A, a punição tem outro significado: com os rossoneri se mantendo entre os ponteiros do certame nacional, havia chance de o sexto colocado também se classificar à Copa da Uefa.

Uma esperança na reta final

E é exatamente nessa hora que a campanha do Parma ganha novo impulso: pela primeira vez no returno o time vence dois jogos seguidos. No dia 7 de abril, dá o troco no Genoa devolvendo os 2 a 1 da ida, agora no Ennio Tardini: Melli abre o placar na etapa inicial, os Grifoni empatam logo em seguida, mas os donos da casa arrancam forças para se colocar novamente à frente com um gol do reserva Giovanni Sorce, escorando cruzamento de Osio.

Uma semana depois é a vez de enfrentar o vizinho (e lanterna) Bologna no Renato Dall’Ara. O Parma sai na frente com Melli, sofre o empate com Türkyilmaz ainda na primeira etapa, mas de novo mostra poder de reação: nos oito minutos finais, o time marca mais duas vezes, com Grün de cabeça e Melli em cobrança de pênalti, para assegurar uma vitória fundamental na caminhada rumo à Europa, a cinco rodadas do fim do campeonato.

Em seguida, o time empata em 0 a 0 com dois rivais diretos pela vaga europeia: a Atalanta em Bérgamo e o Torino no Ennio Tardini. E ainda leva um susto que quase coloca tudo a perder na visita ao Lecce, que brigava contra o descenso. Na tarde quente de 12 de maio no Estádio Via del Mare, o Parma cumpre atuação abaixo da crítica e perde por 1 a 0, gol de Paolo Benedetti. Para piorar, todos os outros postulantes à Copa da Uefa pontuam.

O time de 1990/91

Faltando apenas duas rodadas, pelo menos oito times seguem vivos na briga pelas quatro vagas na Copa da Uefa. E o Parma tem como últimos adversários o já rebaixado Cesena em casa e, por ironia, o proscrito Milan no San Siro. Os bianconeri são superados com uma vitória por 2 a 0, gols de Osio e Brolin. E os demais resultados da 33ª rodada já deixam alguns postulantes pelo caminho. Restam cinco clubes disputando três vagas.

Com o Scudetto confirmado, a Sampdoria se garante na Copa dos Campeões. A Roma, finalista da Copa da Itália diante dos próprios blucerchiati, passa a ter presença assegurada na Recopa de qualquer jeito. A Inter, em terceiro e bem acima do resto, também está na Copa da Uefa. Sobram Genoa, Juventus (que decaiu bastante no returno), Torino, Parma e Napoli – este, com chances mais remotas. São os que vão para a última rodada na briga.

O Napoli derrota o Bologna no San Paolo por 3 a 2, mas não é o suficiente em vista dos outros resultados. O Torino se garante em um 0 a 0 com a Atalanta no Delle Alpi. No confronto direto, o Genoa derrota a Juventus no Luigi Ferraris por 2 a 0 com gols do brasileiro Branco e do tcheco Tomas Skuhravy. A Velha Senhora fica pendurada, tendo de torcer por uma vitória de um Milan alheio às disputas diante de um motivado Parma no San Siro.

A classificação histórica

O estádio está lotado, mas não por qualquer razão de competição e sim pela despedida de Arrigo Sacchi como técnico do Milan, que almeja assumir a seleção italiana – o que fará em outubro, no lugar do demissionário Azeglio Vicini, durante as Eliminatórias para a Eurocopa de 1992. O Parma, desfalcado de Melli, procura o gol, mas não com muita efetividade. O mesmo vale para o Milan, com Marco Van Basten em baixa com os tifosi rossoneri.

No fim das contas, se não faz mal ao Milan, o empate sem gols é muito comemorado pelo Parma, que garante sua primeira classificação europeia menos de um ano após obter o histórico acesso à Serie A – e deixando a Juventus de fora. Ainda que a campanha continental inaugural termine já no primeiro mata-mata da Copa da Uefa, diante do CSKA Sofia, ela esboça uma tradição copeira dos emilianos que se estenderá pelos próximos anos.

Alçando voos cada vez mais altos graças ao crescente aporte financeiro da Parmalat, o clube vencerá, em pouco mais de uma década, três vezes a Copa da Itália (em 1992, 1999 e 2002, com vices em 1995 e 2001), uma Recopa europeia (em 1993, com um vice no ano seguinte) e duas Copas da Uefa (em 1995 e 1999), além de uma Supercopa da Itália e outra da Europa. No entanto, a derrocada econômica da empresa, na virada do século, levaria junto o Parma.

Ali naquela temporada de estreia, porém, já era possível perceber que se tratava de um clube ambicioso e de potencial proporcional a isso. Faltariam, porém, as conquistas máximas: o Scudetto, do qual o Parma mais se aproximaria com o vice-campeonato de 1997, e a Liga dos Campeões, na qual os emilianos só conseguiram chegar à fase de grupos uma única vez. Hoje, sob controle chinês, o clube tenta aos poucos voltar a seus dias de potência.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.