Não é apenas o Campeonato Chileno que paralisou suas atividades por conta da convulsão social que ocorre no país desde o fim de outubro. A seleção também não entrará em campo nesta Data Fifa. Na última semana, a Bolívia (que vive dias igualmente tumultuados, mas ainda não havia sofrido um golpe militar) cancelou o amistoso que deveria disputar em Antofagasta – assim como o duelo contra o Panamá. Já nesta quarta-feira, o próprio Chile anunciou que não disputará o clássico contra o Peru, em Lima, marcado para o dia 19. Os jogadores foram os responsáveis pela decisão. Avaliaram que a seleção não é a prioridade no momento.

“Os jogadores convocados à seleção absoluta do Chile decidiram não disputar a partida amistosa ante a seleção do Peru, programada para o próximo dia 19, em Lima. A decisão foi adotada pelo elenco depois de uma reunião realizada nesta manhã no Complexo Juan Pinto Durán. O técnico Reinaldo Rueda liberou de maneira imediata todos os futebolistas, que desde este momento ficam à disposição de seus respectivos clubes. A federação chilena já comunicou sua decisão aos pares do Peru”, diz o comunicado oficial da ANFP, a federação local. Segundo a imprensa chilena, a entidade ainda tentou fazer os jogadores mudarem de ideia, sem sucesso.

Ao longo dos protestos no Chile, diversos jogadores importantes da seleção se manifestaram nas redes sociais e se posicionaram ao lado da população. A postura nesta Data Fifa não surpreende em nada. Alguns dos nomes mais ativos eram justamente lideranças da Roja, por mais que o elenco enfrente um racha entre alguns de seus protagonistas. No entanto, diante de um assunto essencial, prevaleceu o consenso de que não há sentido em pensar na seleção agora. Apenas atletas em atividade no exterior haviam sido convocados e todos retornaram a Santiago antes de tomar a decisão.

Capitão da seleção, Gary Medel esclareceu a posição, em nota dedicada “à toda opinião pública especialmente aos torcedores”: “Como equipe, tomamos a decisão de não jogar o amistoso pactado com o Peru, em atenção ao momento social que vive nosso país. Somos jogadores de futebol, mas antes de tudo somos pessoas e cidadãos. Sabemos que representamos um país completo e hoje o Chile tem outras prioridades muito mais importantes que o jogo de terça”.

“Há uma partida mais importante, que é a da igualdade, de mudar muitas coisas para que todos os chilenos vivam em um país mais justo. Apoiamos as manifestações, mas sem violência e feridos, tanto do lado dos manifestantes, quanto das forças de ordem. O Chile necessita de paz, mas que tampouco se esqueçam as demandas que originaram este movimento”, concluiu o defensor, em mensagem divulgada através de suas redes sociais.

Presidente da ANFP, Sebastián Moreno não escondeu o seu desagrado publicamente. O dirigente afirmou que existiam “compromissos firmados com antecedência”, sublinhando uma preocupação maior com os prejuízos financeiros. Também ressaltou que esta é a última etapa de preparação às Eliminatórias – o que não cola muito, convenhamos. A federação peruana, por sua vez, pode cobrar os prejuízos causados pelo cancelamento do amistoso.

O técnico Reinaldo Rueda respaldou a decisão de seus jogadores, embora ressalte os prejuízos. O comandante chegou a indicar que sua saída do time é uma possibilidade. “Antes de tudo, creio que todos vivemos estes 26 dias de conflito. O que aconteceu hoje é secundário ao que está se vivendo no país, com gente que perdeu seus filhos, seus irmãos. Creio que 25 mortos são mais importantes e todos devemos nos preocupar. Às vezes, somos muito superficiais”, afirmou.

“Os jogadores chegaram com grande disposição, se reuniram e tomaram a decisão de não viajar ao Peru, considerando que é a melhor demonstração de solidariedade. É algo muito respeitável. Como estrangeiro, estou em uma posição neutra ao que está passando. Só lamento tudo, porque estamos todos perdendo”, complementou. “Ontem havia o desejo de jogar, hoje tomam outra decisão. Não se sabe o que pode se passar. Não convoquei ninguém da liga nacional porque está paralisada. Mas se isso continuar assim… Eu venho trabalhar no futebol, se não tem futebol eu preciso ir. É algo atípico, não é normal. Quando vai normalizar? Essa é a grande pergunta”.

Rueda também se incomodou com o cancelamento de um amistoso da seleção olímpica na Espanha. O treinador vê a decisão como uma barreira ao próprio desenvolvimento do time principal, pensando na Copa de 2022. Além do mais, o Campeonato Chileno permanece sem perspectivas de retorno. Embora os clubes e a federação tivessem entrado em acordo com os jogadores para que a liga nacional fosse retomada neste final de semana, eles mudaram de ideia diante dos protestos mais recentes. Os torcedores também eram contra o retorno e prometiam boicotes nas arquibancadas.