Bérgamo curte um momento inesquecível ao seu futebol. Pela primeira vez na história, a Atalanta disputará a Liga dos Campeões. A classificação da Dea aconteceu com todos os méritos, construída não apenas neste ano. O trabalho de Gian Piero Gasperini à frente dos nerazzurri é fantástico, criando uma equipe ofensiva e destemida. E a Champions, por fim, serve como o apogeu às grandes campanhas, após duas participações na Liga Europa e boas aparições na Copa da Itália. Se o quarto lugar na Serie A 2016/17 não foi suficiente para colocar os orobici na principal competição continental, desta vez a façanha garante uma vaga direta na fase de grupos. A chance de providenciar mais noites inigualáveis à torcida em Bérgamo.

Apesar do ineditismo na Champions, a Atalanta possui certa experiência nas competições continentais. Os nerazzurri participaram dos demais torneios da Uefa em outras seis oportunidades. E a trajetória mais memorável aconteceu em 1987/88, durante a “era de ouro” do Calcio. Repleta de nomes históricos, a Dea foi semifinalista da Recopa Europeia. Em tempos nos quais os italianos acumulavam bons desempenhos além das fronteiras, por pouco os orobici não se adicionaram à lista de finalistas.

A estreia continental da Atalanta aconteceu em 1963/64. Campeão da Copa da Itália, o clube de Bérgamo se classificou à recém-criada Recopa Europeia. Só não teria tanta felicidade no sorteio. A Dea acabou cruzando o caminho do Sporting e não resistiu aos portugueses. Depois de uma vitória para cada lado, os times voltaram a se encontrar para um jogo extra em Barcelona. Os leoninos se deram melhor, garantindo o triunfo por 3 a 1 dentro do Estádio de Sarrià, com dois gols já na prorrogação.

Oscilando entre a primeira e a segunda divisão, com direito a uma passagem pela terceirona, a Atalanta ressurgiu no cenário internacional em 1987. A Dea se aproveitava da reabertura do mercado italiano a jogadores estrangeiros e contava com seus astros. Figurinha carimbada da seleção sueca, Glenn Peter Strömberg foi contratado em 1984. O meio-campista de bom porte físico e qualidade técnica vinha do Benfica, onde foi campeão nacional, embora seu período mais vitorioso tivesse acontecido com o Göteborg. Em 1981/82, conquistou a Copa da Uefa sob as ordens de Sven-Göran Eriksson. Além disso, a outra aposta estrangeira era Trevor Francis, multicampeão com o Nottingham Forest, que teve uma passagem anterior pela Sampdoria, antes de aportar em Bérgamo. Com o auxílio da dupla, os nerazzurri chegaram à final da Copa da Itália, apesar da derrota para o Napoli na decisão.

Como também havia faturado o Scudetto em 1986/87, o Napoli se classificou à Champions. Assim, a vaga na Recopa Europeia caiu no colo da Atalanta. E o torneio internacional se tornou uma grande oportunidade de levantar a poeira, após meses agridoces em Bérgamo. Apesar da longa caminhada na Copa da Itália, os nerazzurri terminaram rebaixados na Serie A em 1986/87. A derrota para a Fiorentina na última rodada decretou o descenso, a dois pontos de sair do Z-3. Ao mesmo tempo em que conduziam seu sonho além das fronteiras, os orobici tentavam encaminhar seu acesso na segunda divisão italiana.

Apesar da saída de Trevor Francis, Strömberg continuou liderando a Atalanta na Serie B e se firmou como um ícone da agremiação, ganhando a braçadeira de capitão. Já outro personagem central ao clube chegou naquela campanha: o técnico Emiliano Mondonico, que se tornaria um ídolo em Bérgamo. Após dirigir Cremonese e Como nas temporadas anteriores, vinha para resgatar o moral dos orobici no segundo nível. A seu dispor, o treinador contava com veteranos que ajudariam a reerguer a equipe na segundona, como Carmine Gentile, Aldo Cantarutti e Carlo Osti. Porém, também se prepararia ali o time que fez bons papéis na Serie A durante a virada para os anos 1990. Domenico Progna, Luigino Pasciullo, Valter Bonacini e Eligio Nicolini seriam figurinhas carimbadas neste processo. Naquela jornada, também veio como reforço o bom Ivano Bonetti, meio-campista que estava na Juventus.

Em tempos nos quais a Serie B guardava uma disputa duríssima, a Atalanta se manteve na luta pelo acesso desde o primeiro turno. O aumento no número de promovidos ajudou e a Dea alcançou a quarta colocação, subindo ao lado de Bologna, Lecce e Lazio. Se a obrigação terminou cumprida no cenário doméstico, o sonho seria duradouro na Recopa. Os nerazzurri fizeram uma campanha excelente e, a certa altura, se tornaram os únicos representantes italianos vivos nas copas europeias, atraindo a torcida de todo o país.

Mesmo na segundona, a Atalanta tinha um elenco mais forte que boa parte dos concorrentes na Recopa. E os tropeços iniciais criaram certa pressão sobre Mondonico, questionado no comando da equipe. A Dea começou despachando o Merthyr Tydfil, de Gales. Apesar do susto na visita ao amadores no Reino Unido, com o triunfo dos anfitriões por 2 a 1, os italianos se recuperaram no Atleti Azzurri d’Italia – então chamado de Estádio Comunale. Com apenas 21 minutos, Oliviero Garlini e Aldo Cantarutti garantiram os 2 a 0 em Bérgamo.

Na etapa seguinte, um pouco mais de dificuldade contra o OFI Creta. O primeiro jogo aconteceu em Salônica e, mesmo assim, 9,5 mil torcedores cretenses apoiaram a equipe no norte da Grécia. Takis Persias fez o gol da vitória por 1 a 0. Apesar da missão ingrata na Itália, os comandados de Emiliano Mondonico outra vez reverteram a situação com o triunfo por 2 a 0. Garlini e Nicolini carimbaram o passaporte. E as quartas de final guardavam a chance de uma revanche aos orobici. O Sporting novamente era o oponente continental. Entre os destaques sportinguistas estavam lusitanos como Vítor Damas, Oceano e Mário Jorge. Além disso, uma legião brasileira compunha o elenco, com menções especiais a Paulinho Cascavel e Duílio Dias.

Desta vez, a Atalanta começou jogando dentro de casa. Mudou a impressão sobre aquela campanha, finalmente recebendo elogios da crítica. Sempre fiel e fanática, a torcida levou mais de 25 mil para empurrar a equipe no Comunale. E a classificação se encaminhou com mais uma vitória por 2 a 0, gols de Nicolini e Cantarutti. Com a vantagem estabelecida, a Dea ganhou um apoio massivo rumo a Portugal. Os principais monumentos de Bérgamo se coloriam com adereços em azul e preto, assim como a maioria das casas na cidade. Mais de cinco mil italianos pegaram a estrada rumo a Lisboa, enquanto um telão foi montado em praça pública para que os torcedores se reunissem durante a partida de volta. União que terminou em êxtase.

A Atalanta suportou a pressão dos 55 mil presentes no antigo José Alvalade (cerca de 50 mil lusitanos) e garantiu o empate por 1 a 1. Foi um resultado valiosíssimo, considerando os desfalques importantes, incluindo o de Strömberg. “Vocês falarão da Atalanta dos milagres”, resumiria Mondonico, após aquela emblemática classificação. O treinador ia à desforra, após ter sofrido com os ataques da crônica esportiva.

Antigo camisa 1 do Milan, o goleiro Ottorino Piotti precisou trabalhar bastante em Lisboa. Conteve o bombardeio até o segundo tempo, quando o holandês Peter Houtman abriu o placar para o Sporting. Os leoninos ainda balançariam as redes pela segunda vez, em tento anulado por falta sobre Piotti. Logo depois, em um contra-ataque perfeito, Cantarutti selou a histórica passagem dos nerazzurri para as semifinais. O rodado atacante, que fez sua carreira em clubes como Pisa e Catania, foi um talismã naquelas noites europeias. Já em Bérgamo, uma erupção tomou as ruas da cidade. O feito era único à agremiação e gerou uma festa gigantesca, apesar do desafio pesado na etapa seguinte. Os orobici encarariam o KV Mechelen, que investia pesado em seu elenco e vinha em franca ascensão no futebol belga.

Sob as ordens de Aad de Mos, o Mechelen tinha em seu elenco alguns jogadores importantes. Leo Clijsters havia sido titular da seleção na Copa de 1986, embora o grande craque fosse mesmo o goleiro Michel Preud’Homme, no momento em que firmava sua carreira em alto nível. Também estavam por lá o belga Marc Emmers, bem como os holandeses Graeme Rutjes e Erwin Koeman, que representaram o clube na Copa de 1990. Um time fortíssimo, que faria o sonho da Atalanta ruir desde o primeiro jogo. Na Bélgica, Strömberg chegou a buscar o empate após a vantagem inicial dos anfitriões, mas Piet den Boer determinou o triunfo por 2 a 1 nos minutos finais. Embora as esperanças resistissem, a situação era difícil.

Em Bérgamo, 40 mil torcedores se reuniram nas arquibancadas do Comunale e seguiram a acreditar. Garlini abriu o placar e ia dando a classificação à Atalanta. Além disso, Preud’Homme colecionou milagres e evitou a pressão dos anfitriões. O problema veio em um lance capital no início do segundo tempo. Após um pênalti não marcado sobre Strömberg, os belgas empataram com Rutjers. Por fim, Emmers apareceu para dar novo triunfo por 2 a 1 aos visitantes e assegurar a classificação.

O Mechelen terminou campeão, derrotando o Ajax na final por 1 a 0. Já a Atalanta ganhou motivos para crer que faria bons papéis em seu retorno à Serie A – algo que não demorou a se cumprir. Logo no ano da volta, em 1988/89, a Dea terminou em sexto e se confirmou na Copa da Uefa. Depois ainda descolou um bom sétimo lugar, emendando a segunda participação consecutiva além das fronteiras. Enquanto idolatrado Strömberg permanecia como esteio dos nerazzurri, o clube contratou Evair em 1988. Já em 1989, Claudio Caniggia se tornou seu parceiro no ataque, suplantando o sueco Robert Prytz como terceiro estrangeiro. Apesar da queda precoce contra o Spartak Moscou na Copa da Uefa 1989/90, o time alcançaria as quartas de final em 1990/91. Eliminou Dinamo Zagreb, Fenerbahçe e Colônia, até a queda para o timaço da Internazionale.

Aquela havia sido a última participação da Atalanta nos torneios continentais, até o renascimento encabeçado por Gian Piero Gasperini e Papu Gómez, com duas aparições recentes na Liga Europa. A classificação à fase de grupos da Champions League e o próprio dinheiro injetado nas finanças levam a crer que o sucesso pode se manter de maneira mais duradoura. E uma boa inspiração nesta nova caminhada é o efeito que a Recopa de 1987/88 causou. Ela permitiu ambições maiores aos orobici, em tempos nos quais a Serie A oferecia desafios mais duros. Principalmente, reforçou os laços do clube com sua torcida, a grande marca do futebol em Bérgamo.