Aldyr Garcia Schlee, quase sempre, é definido de uma mesma maneira: o criador da camisa da seleção brasileira. Ser o idealizador do maior símbolo do futebol mundial, obviamente, é um mérito imenso do gaúcho falecido na última semana. Mas não necessariamente o seu principal talento. Não seu maior dom ao observar o futebol. A literatura, porém, não reluz tanto quanto o amarelo no corpo de um Garrincha, de um Pelé, de um Romário. E a habilidade do escritor em sentir o que acontecia em campo acabou um tanto quanto oculta em sua rica biografia: como um tesouro ao também jornalista, doutor em ciências humanas e professor universitário.

Em 1997, Garcia Schlee publicou o livro “Contos de Futebol”. Traz diferentes histórias em que fala sobre o esporte com uma lupa diferente, não necessariamente voltada aos astros, mas destacando o encanto e a poesia ao redor da modalidade. Um desses textos é ‘Maestros del Fútbol’. Como em boa parte de sua obra literária, o gaúcho se debruça ao que acontece no Uruguai – país com o qual tinha uma relação intrínseca, a ponto de se definir como torcedor da Celeste. As linhas apresentam Oscar e Alcides, dois jogadores que despontam rumo ao Peñarol, em meio à greve geral dos futebolistas e às vésperas da Copa do Mundo de 1950.

Presente em “Contos de Futebol”, ‘Maestros del Fútbol’ também foi reproduzido no livro “Meia Encarnada, Dura de Sangue”. A versão abaixo está presente nos sites do Impedimento e da Central3. Confira:

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Maestros del Fútbol

Por Aldyr Garcia Schlee

Foi em 47 que jogamos uma preliminar no Centenário, ocasião em que entrei na cancha do velho estádio pela primeira vez. Como num sonho de fita de cinema, não podia acreditar que quem estava ali era eu mesmo, arrepiado de um frio estranho ante as tribunas ainda vazias. Tive que me contar para não bater queixo, para saltitar como os outros e esperar com aparente tranqüilidade o início do jogo.

Oscar fez dois golos. Alcides jogou muito. Eu não sei, nem me lembro direito (é como se não tivesse sido): parece que a bola vinha oval, que as distâncias eram maiores, que os outros eram mais ligeiros (no meio, eu procurava acertar, acho que me atrapalhei um pouco, tenho até hoje as pernas muito compridas, sou muito alto, mas não saía do chão, errei passes, não dava nada certo). Depois, quando terminou a partida, estava ainda meio zonzo, soube que alguém havia dito que era para a gente ir treinar, um dia, no Peñarol.

Alcides, sabem, era miúdo, magro, baixo, rápido, feioso, insistente, narigudo e driblador. Oscar não, Oscar era troncudo, forte, peito largo, ombros altos – e goleador. Nós nos reuníamos pelas esquinas do bairro, todas as noites. Alcides, el Ñato, por causa do seu nariz; Oscar, el Cotorrra, porque falava, falava, falava sem parar.

Só fomos ao Peñarol no início da temporada de 1948. Eu estivera antes em Jaguarão, onde morava meu pai, e havia dito: tenho um convite para treinar no Peñarol: se der certo, deixo os estudos e sigo a carreira de futebolista, quero ser um profissional.

Profissional, profesional…

Mau pai sorriu e continuou tomando seu mate (não sei se naquele momento sentia orgulho de mim). O certo é que fomos e nos apresentamos acompanhados de um tal Jaurreche. Oscar havia sido bem recomendado, havia deixado a marca dos seus golos inesquecíveis e, depois de alguns treinos, foi chamado por Mr. Galloway e incorporado ao plantel principal. Alcides, este, talvez, por magro e feio, com seu ralo bigodinho e seu enorme nariz, acabou na Terceira especial, com a alegação de que sua inscrição entrara fora de prazo e não podia jogar na Primeira, nem mesmo na reserva (o dono da sete aurinegra era Julio Cesar Britos, el Poroto Britos; e o suplente, José Maria Ortiz, el Solito Ortiz, titular de outros anos). Eu nem cheguei a me fardar para o primeiro treino: pediram-me que voltasse depois, porque havia muita gente (na verdade não havia muita gente; havia um único e exclusivo: chamava-se Jacinto e mandava em todos, em todo o mundo dentro do campo – até nos adversários e Às vezes no juiz).

Mr. Galloway era um inglês que todos reverenciavam como se fora o pároco do time: só faltava lhe pedirem a bênção, lhe beijarem a mão e lhe confessarem, um a um, todos os pecados. Ele se mantinha distante, como os ingleses do cinema, e parecia pensar muito sobre qualquer coisa que lhe diziam – fosse apenas um nome (o nome, por exemplo, de um jogador que lhe era apresentado), fosse toda uma explicação sobre isso ou aquilo que acontecia aqui e ali no mundo do futebol.

Mr. Galloway debruçava-se sobre a mesa, onde fincava os cotovelos, e pensava muito, com as mãos cruzadas sob o queixo. Pensava talvez na Inglaterra, nos campos cobertos de neve, em calções compridos e camisas de lã – porque seu olhar, às vezes dirigido para um ou outro, ia muito além, atravessando paredes e fronteiras, perdido em distâncias insondáveis e tempos imemoráveis.

Assim, quando Mr. Galloway nos viu, foi que se não nos visse: disseram-lhe meu nome, o de meus amigos; explicaram-lhe que eu era center-half, que Alcides era ponteiro-direito e que Oscar jogava com a 9. Nós vínhamos do campinho do Cerro da Vitória, Oscar havia feito dois gols numa preliminar, contra o próprio Peñarol…

Quem sabem Mr. Galloway nunca tenha sido apresentado a nós e tudo tenha se passado apenas com Jaurreche, que era ligado às divisões inferiores, que nos vira jogar e que nos levara pela mão a “Los Aromos”. Mas o certo é que lembro até hoje, com um tremor de medo (mais do que de respeito), de Mr. Galloway, que era como se não estivesse em Montevidéu, e a quem sempre culpei e a quem nunca perdoei por jamais me ter dado uma oportunidade no time.

Mr. Randolph Galloway sentava-se à mesa de jantar separado de todos os demais. Punha um guardanapo no colo, acomodava-se na cadeira; e comia com a elegância de quem tinha nas mãos e no uso do garfo e da faca a agilidade e a leveza que pretendia para nós nos pés e no trato da bola.

Eu vi Mr. Galloway, com seu suéter sanfonado na cintura, de boné e megafone, à distância. Mr. Galloway foi, com certeza, quem me barrou – e quando Jaurreche veio me avisar que não havia lugar para mim no treino, eu já estava certo de que não teria vez. Sou até hoje um tipo de pernas muito compridas, sou alto e meio desajeitado, não dei certo de beque, porque precisava de alguém sempre atrás de mim para uma eventualidade, então virei centro-médio…

Eu, Oscar e Alcides nos conhecemos jogando futebol. Oscar e Alcides eram mais velhos e já jogavam juntos desde pequenos, em qualquer baldio, com qualquer bola que se apresentasse; eu gostava demais de futebol e tornei-me grandote o suficiente para arranjar lugar nos quadros que se formavam sobre a hora de se começar cada partida. Oscar e Alcides eram como donos dos campos do Cerro da Vitória; eu, sempre arrumava um jeito de poder jogar com eles.

Fico pensando, hoje, em Mr. Galloway: tento me lembrar bem da figura dele, mas não sei, antes me passam pela cabeça imagens cinematográficas, cromos coloridos, escudos, bandeiras – os desfiles da vitória no primeiro campeonato mundial, as faixas brancas e azuis, o pequeno sol, o cavalo, o touro, as estralas douradas em campo negro, os retratos dos grandes craques do passado, os distintivos de lapela… Um guri pequeno ouvia compenetrado as fantásticas histórias dos resultados heróicos e das grandes conquistas, havia ganho de aniversário a camisa de barras pretas e amarelas, exibia como um troféu e guardava como um tesouro a pelota Superball nº 2 mandada buscar pelo reembolso postal no Rio de Janeiro. Que me importa hoje Mr. Galloway? Por que tenho de falar dele, agora?

É claro, meu sonho de guri era ser jogador de futebol (profesional, profissional…). O sorriso de meu pai, não sei se foi de orgulho, como gostaria que fosse; ou se foi de pena, como temo que tenha sido. Afinal, eu teria abandonado os estudos – e o certo é que não iria longe, ainda mais e mesmo na suplência de Jacinto, que era dono do time, não se lastimava nunca e jogava sempre todos os jogos de cada temporada.

Jacinto nunca me dirigiu a palavra. Acho que nunca me viu, apesar de eu ter estado muitas vezes com ele, acompanhando Alcides e Oscar nos vestiários e nos treinos do Peñarol. Ele tinha uma experiência enorme, um jeito só dele de mandar, gestos e palavras que impunham admiração e respeito. Por isso, não lhe tenho mágoa, não lhe guardo qualquer rancor: me consolo imaginando que, se Mr. Galloway me escalasse, Jacinto – o caudilho, o condutor do plantel – haveria de selar definitivamente a minha sorte, concluindo que de nada adiantava mesmo falar comigo…

Quem falava muito comigo era el Pollo Tejada, trienador da 3ª Divisão. Daqui da Terceira – dizia – saiu Pepe Schiaffino, em 1945, e debutou direto na seleção celeste, antes de jogar no primeiro quadro do Peñarol. Aqui se fazem dois tipos de craques – explicava – os que vão jogar a vida toda por aí afora, depois de se demorarem por aqui sem deixar recordações; e os que, com uma passagem breve mas igualmente espetacular por esta Terceira, se tornam inesquecíveis porque se fazem “maestros del fútbol” como el Pepe.

Eu sabia que Tejeda estava querendo dizer que, assim como Pepe Schiaffino, também Alcides, o meu amigo, o meu amigo Alcides, el Ñato, se fazia “maestro del fútbol”. Eu o observava treinando, enquanto ajudava Tejada com o material de treino. Era magro sim, ágil, rápido – mas forte, decidido, e chutava bem. Não fazia o tipo que passasse pela Terceira sem deixar recordações; mas, por isso mesmo, não podia ficar ali o resto da vida, ao ponto de se transformar em uma amarga lembrança, como o outro Schiaffino, Raúl, “el pequeño maestro” – afastado das canchas por uma lesão muscular rebelde, justamente quando se afirmava ante todos por sua inteligência e habilidade inigualáveis.

Raul, esse durou o que o lírio dura. Derrubá-lo era um crime. E ele sucumbiu às impurezas das canchas como uma flor que não pode ser tocada – dizia-me comovido Pollo Tejada.

Eu nunca me aproveitei da intimidade que tinha com Tejada para pedir-lhe um lugar no time. Desde que Mr. Galloway ou, sei lá, o Jaurreche, não deixaram eu ao menos me faradar “porque havia muita gente”, desisti de jogar futebol. Continuei acompanhando meus amigos todo o dia; enquanto pude não abandonei a “barra vieja”, mas jamais voltei a calçar chuteiras e a envergar a camiseta de qualquer time.

Aliás, em 1948 não fui só eu que parei. Paramos todos, porque houve a primeira grande greve dos jogadores de futebol do Uruguai. Oscar, el Cotorra, nos advertiu de que se armava alguma coisa; mas ninguém acreditava muito que fosse possível parar tudo – eu mesmo não tinha bem consciência do que havia por trás daquela atmosfera de magia, trespassada por cheiro de linimento, na qual nossas esperanças eram renovadas diariamente.

O certo é que eu vivia cada encontro fugaz, cada palavra de estímulo que o mundo do Peñarol oferecia na Terceira Divisão ao Ñato e na Primeira, ao Cotorra. Eu certamente não percebia que cada encontro daqueles era uma prova, e que o mundo futebolista é feito de um submeter-se constante à aprovação, em cada treino, em cada jogo, em cada torneio – e que, mesmo aqueles que recebem ordem para se fardar e ganham uma oportunidade, têm sim é o caminho aberto para um fardar-se e desfardar-se que vai acompanhá-los por toda a vida, um sim-não que não é própria essência do mágica do futebol, mas que no profissionalismo transformou-se em arma de sujeição e de exploração com que os clubes mantêm seus plantéis.

Quando foi um domingo, estava vazio o Centenário, estavam fechados todos os estádios. Comecei então a compreender que o futebol, aquele futebol que eu tanto havia desejado jogar, e que jogavam Alcides e Oscar, não era somente um jogo, o jogo alegre e muito divertido dos campinhos do Cerro da Vitória, mas um trabalho – um trabalho sério e muito duro – que não bastava realizar, mas era preciso defender e dignificar.

A greve durou quase meio ano. Saímos dela mais velhos e com as ilusões renovadas. Até porque, fora alguns ganhos, com a grande parada o Conselho Diretivo do Peñarol mandou de volta à Inglaterra Mr. Galloway, e trouxe da Argentina o húngaro Emérico Hirsch, técnico que havia transformado o River Plate numa máquina de jogar futebol.

Hirsch era um homem descomunal, maior do que Máspoli, maior do que Ortuño. Ele se impôs desde o primeiro momento, tomou conta de tudo. Quis conhecer todo o plantel, até a famosa Terceira, em que se havia consagrado Pepe Schiaffino e onde atuava el Ñato Alcides. Acompanhou calado os treinamentos, foi apresentado a cada jogador, foi assessorado pelos dirigentes e auxiliares. Quando se tratou da ponta direita, avisaram-no de que havia dois para a posição: Poroto Britos e Solito Ortiz. O húngaro apenas sorriu: e disse: Gracias, mas o ponteiro-direito vai ser el flaco aquele.

O magro Alcides, Alcides – el Ñato, como se fosse eu, autorizado enfim a se fardar! Eu me senti outra vez no meio, no posto de Jacinto, de novo ao lado de Oscar, Oscar – el Cotorra, outra vez junto com os amigos, como nos campinhos do Cerro da Vitória, alto e sem jeito, mas emocionado e feliz por eles, cujo contentamento e alegria escondiam a dureza e a seriedade daquele trabalho transformado em paixão de todos nós.

Alcides e Oscar enfim se juntaram na “esquadrilha da morte”, a linha de frente que haveria de liquidar com todos os adversários na memorável campanha invicta do Peñarol na temporada de 1949. Foram quase quatro golos por partida (116 em 31 jogos). Nas dezoito partidas do Campeonato, Oscar fez vinte gols e Alcides, oito. No ano seguinte, estariam os dois envergando a camisa celeste da seleção uruguaia. E eu tive que voltar ao Brasil para seguir o meu caminho.

Não nos despedimos. Não avisei ninguém e também não encontrei ninguém mais, para dizer que ia embora.

De longe, continuei acompanhando a carreira dos dois. Muitas vezes tive ganas de escrever-lhes. De dizer-lhes que eram minhas todas as suas alegrias, como todas as conquistas e todas as sua glórias, das quais compartilhava orgulhoso por vê-los consagrados e envaidecido por tê-los como amigos – companheiros, enfim.

Só mais de vinte anos depois voltei ao Uruguai e, no primeiro domingo, fui ao Centenário. Jogava o Peñarol e, desde a preliminar, estive pensando em mim, em nós, ali naquela cancha onde tudo se decidia a cada semana, a partir de uma bola de futebol.

Quando o jogo ia começar, subi os degraus da Tribuna América em busca de um lugar melhor, e então dei com Oscar e Alcides a poucos passos de mim, sentados distraidamente como dois espectadores comuns: el Ñato com um casaco forrado de pêlo de cordeiro, el Cotorra de braços cruzados sobre as pernas.

Não me aproximei mais. Não sei bem o que senti: se era medo de não ser reconhecido por eles; se era medo de não reconhecê-los mais – Oscar explicando porque tinha ficado gordo e careca; Alcides tentando justificar por que tinha disputado por outra seleção as eliminatórias do Campeonato Mundial de 1958. Eu, tendo que me explicar e justificar também: o que fazia, onde andava…

Sentei-me a uma distância prudente, de modo a vê-los sem ser visto.

O Peñarol entrava em campo saudado pela torcida.

– Sabe quem são aqueles dois, lá? – me cutucou um tipo, a meu lado.

– ?

– São Ghiggia e Míguez, em carne e osso.

– Sim, Alcides Edgardo Ghiggia e Oscar Omar Míguez, respondi-lhe, encerrando o assunto.

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Publicado originalmente no livro Contos de Futebol (Mercado Aberto, 1997)


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