O que o Leicester aprontou nesta sexta-feira merece todos os aplausos. As Raposas registraram a maior vitória de um time visitante na história do Campeonato Inglês – sim, em seus 131 anos, desde a criação da Football League em 1888/89. Também foi a maior vitória da história da Premier League, considerando os registros desde 1992/93. E, além da exaltação aos comandados de Brendan Rodgers, o resultado também deixa em evidência um esquadrão fantástico dos primórdios da liga reformulada. Afinal, o único time antes do Leicester a registrar um 9 a 0 na Premier League havia sido o Manchester United de Sir Alex Ferguson: um massacre para cima do Ipswich Town em março de 1995.

Bicampeão inglês, o Manchester United vivia uma temporada dura em busca do tri. Os Red Devils perseguiam o Blackburn na luta pela primeira colocação na tabela e, naquele momento, apareciam três pontos atrás da equipe treinada por Sir Kenny Dalglish. A goleada sobre o Ipswich Town serviu como uma mostra de força dentro de Old Trafford. Valorizou alguns ídolos, em especial Andy Cole, que se tornou o primeiro jogador a anotar cinco gols em uma mesma partida na era Premier League – Alan Shearer, Jermain Defoe, Dimitar Berbatov e Sergio Agüero igualariam o recorde nos anos seguintes.

Peter Schmeichel era o grande elo com o atual Leicester, goleiro do United naquela partida. Além dele, Fergie escalou uma equipe recheada de lendas: Roy Keane, Steve Bruce, Gary Pallister, Denis Irwin; Andrei Kanchelskis, Brian McClair, Paul Ince, Ryan Giggs; Andy Cole e Mark Hughes completavam a linha inicial. Seriam eles os responsáveis pela maior goleada do clube desde outubro de 1892. Já a principal ausência era a de Eric Cantona, dois meses após sua famosa voadora para cima de um torcedor do Crystal Palace.

O Ipswich Town também tinha as suas figurinhas carimbadas. O veterano John Wark, segundo jogador com mais partidas pelo clube, comandava a zaga. O ataque contava com Lee Chapman, campeão ao lado de Cantona no Leeds de 1991/92. Já o técnico era George Burley, outro símbolo da agremiação, que encerrava sua carreira como jogador naquele ano e iniciava uma passagem de oito anos pela casamata. O detalhe é que, no primeiro turno, os Tractor Boys haviam arrancado os três pontos no confronto com o United. Venceram por 3 a 2 em Portman Road.

O Manchester United até demorou para abrir a contagem em Old Trafford. Aos 16 minutos, Roy Keane acertou um chute cruzado de fora da área e superou o goleiro Craig Forrest. O primeiro tempo, aliás, seria relativamente econômico aos mancunianos. Cole marcaria o segundo aos 24, após grande arrancada de Ryan Giggs, e aumentaria a conta aos 37, aproveitando o rebote de uma espetacular bicicleta de Mark Hughes que acertou o travessão.

O resultado só desandou ao Manchester United nos 20 primeiros minutos do segundo tempo, quando a equipe anotou quatro gols. As jogadas em velocidade pelos lados eram o grande caminho aos Red Devils, que contavam com ótima participação de Giggs. Entretanto, o oportunismo ficava a Cole e Hughes, que aproveitaram duas chances cada dentro da área neste intervalo. Paul Ince marcou o oitavo, o gol mais bizarro, aos 28. O goleiro Forrest dominou a bola com o braço fora da área e o árbitro anotou a falta. Quando o arqueiro ainda voltava à meta, os mancunianos cobraram rápido e Ince mandou por cobertura. Já a pá de cal aconteceu aos 44, a partir de um escanteio cobrado por Giggs, que sobrou para Cole completar sua mão cheia.

O resultado seria um prenúncio ao final da temporada do Ipswich Town, que terminou na lanterna da Premier League. A equipe sofreu 93 gols em 42 partidas e ficou a 21 pontos de se salvar da degola, em ano no qual quatro equipes caíram. Já o goleiro Craig Forrest, cinco anos depois, tomaria de 7 a 1 contra os mancunianos, na ocasião defendendo a meta do West Ham.

O Manchester United, por outro lado, não terminou com a taça. Naquele mesmo dia, o Blackburn venceu o Aston Villa por 1 a 0 e, questionado sobre o assunto, Dalglish soltou uma célebre frase: “Ganhando por 1 a 0 ou por 9 a 0, os três pontos são os mesmos”. Ao término da campanha, ele teria razão. Os Red Devils até emplacaram um saldo de gols superior. Mas, um ponto à frente, a taça ficou com os Rovers.