O Oro de 1962/63, que viveu a glória máxima no futebol mexicano antes de se apagar

Equipe de expressão do futebol de Guadalajara nas primeiras décadas de disputa do Campeonato Mexicano, o Club Deportivo Oro entrou em declínio vertiginoso a partir do fim da década de 1960 e acabou relegado às divisões inferiores do país e ao esquecimento. Mas antes disso, teve seu maior momento de brilho ao conquistar o título nacional em dezembro de 1962 vencendo na decisão o rival Chivas, que vinha de momento hegemônico. Naquele time campeão, os brasileiros tinham papel de destaque, ao lado de alguns nomes da seleção asteca.

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Antes da profissionalização, no início dos anos 1940, o futebol mexicano era dividido em torneios regionais e tinha na chamada Liga del Occidente (de Guadalajara, capital do estado de Jalisco) uma das mais expressivas e competitivas. Foi nesse contexto, para competir com as potências locais como Atlas, Chivas e Nacional, que nasceu o Club Deportivo Oro no dia 5 de janeiro de 1923, fundado por um grupo de joalheiros do bairro de Oblatos. Naturalmente, a cor de destaque em seu uniforme seria o amarelo, rendendo o apelido de “Los Áureos”.

Nos primeiros anos, fazer frente aos grandes clubes tapatíos era uma tarefa difícil: em 1933, o clube chegou a ser relegado a um “grupo B” da liga local. Mas aos poucos os resultados foram melhorando, e o Oro chegou ao vice-campeonato da Liga del Occidente na temporada 1939/40 e ao seu primeiro título na campanha seguinte. O mesmo aconteceria no início da década de 1940, com o segundo lugar na edição de 1941/42 sucedido pelo título na seguinte – que viria a ser a última da competição, substituída pela liga nacional profissional.

Os Áureos, no entanto, ficaram de fora da primeira temporada do novo certame (que na verdade surgiu da incorporação de clubes de outras partes do país ao campeonato da chamada Liga Mayor da capital, a principal competição regional de então). Do estado de Jalisco, apenas Atlas e Chivas foram convidados para a disputa. Mas na edição seguinte, em 1943/44, quando o torneio foi expandido de 10 para 13 clubes, o Oro seria um dos estreantes ao lado do León e do Puebla. A campanha, porém, foi fraca: o time terminou bem atrás na última colocação.

Os campeões de 1963

Já na temporada seguinte, o cenário mudou bastante e para melhor quando o clube decidiu contratar alguns reforços estrangeiros (na campanha anterior, havia participado com um elenco feito inteiramente em casa). Assim, impulsionado pelos 29 gols marcados pelo paraguaio Atilio Mellone, terceiro artilheiro do certame, o Oro saltou para a quarta colocação (atrás do campeão Veracruz, do Atlante e do Puebla) numa liga agora formada por 16 equipes. O destaque da campanha foi a goleada de 6 a 0 fora de casa sobre os Franjiazules.

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O time chegaria ainda mais perto do título em 1947/48, quando tirou do rival Chivas o veterano artilheiro Pablo “Pablotas” González para fazer dupla com Delfino Vázquez. Naquela edição, o Oro terminou empatado com o León na primeira colocação, o que forçou a realização de um jogo desempate no recentemente inaugurado Estádio Olímpico de la Ciudad de Deportes. No entanto, o 0 a 0 se manteve após tempo normal e prorrogação, obrigando a realização de uma segunda partida extra dali a dois dias. Sem “Pablotas” González, o Oro perdeu por 2 a 0.

Apesar de bem inferiores em termos de desempenho, as duas temporadas seguintes revelaram um novo goleador e ídolo histórico do Oro, o atacante José “Chepe” Naranjo, que disputaria as Copas do Mundo de 1950 e 1954 pela seleção mexicana. Seria o primeiro jogador mundialista dos Áureos. Na edição de 1953/54, que antecedeu o Mundial suíço, o Oro somou mais um vice-campeonato, ao terminar um ponto atrás do Marte. Foi uma temporada bastante equilibrada, na qual o campeão terminou apenas oito pontos à frente do lanterna.

Dois anos depois, o Oro se veria novamente na mesma situação de 1947/48: empatado na ponta da tabela com o León ao fim da temporada e levado a decidir o título num confronto direto no Estádio Olímpico de la Ciudad de Deportes. Mas outra vez veria sua ambição do primeiro caneco nacional ser frustrada: depois de sair na frente no placar logo aos dois minutos e se colocar de novo em vantagem após o primeiro empate dos Panzas Verdes, sofreriam a virada para 4 a 2 com três tentos do atacante Mateo de la Tijera, amargando novo vice-campeonato.

Aquela equipe reunia os três jogadores do clube que foram convocados para a seleção mexicana que disputou a Copa do Mundo de 1954: o zagueiro Narciso “Chicho” López, o atacante Ranulfo Cortés (inscrito, mas que não chegou a viajar à Suíça) e o já citado José “Chepe” Naranjo. Nas campanhas seguintes até o fim dos anos 1950, o clube acumularia classificações medianas, antes de enfrentar uma verdadeira revolução na virada da década, que incluiu uma mudança de casa e também a abertura dos portos aos jogadores brasileiros.

A formação do Oro de 1960

Em 31 de janeiro de 1960 foi inaugurado o estádio Jalisco, que se tornou a casa de Atlas, Chivas e também do Oro (além do Nacional, a partir do ano seguinte). Com isso, era deixado de lado o velho estádio de Parque Oblatos. Construído pelos dirigentes áureos e aberto oficialmente em julho de 1930, era até aquele momento o de maior capacidade da cidade – fazendo com que recebesse também os jogos dos rivais nos torneios nacionais. Também fora um local importante para o desenvolvimento técnico e estrutural do próprio futebol tapatío.

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Na primeira temporada no novo palco, os quatro principais clubes de Guadalajara brilharam: Chivas, Oro e Atlas terminaram, nessa ordem, nas três primeiras posições do certame da primeira divisão, ao passo que o Nacional conquistou o título da categoria de acesso. Para o Chivas, seria o terceiro título mexicano consecutivo. Mas mesmo para o Oro, que terminou sete pontos atrás do rival na segunda colocação, também foi um ano marcante. Em fevereiro, os Áureos haviam contratado os primeiros jogadores brasileiros a atuarem no futebol asteca.

Na época, eram muito recorrentes as excursões de clubes brasileiros (assim como de diversos outros países tanto da América do Sul quanto da Europa) ao México para disputar séries de partidas amistosas ou mesmo de torneios da mesma natureza. Foi o caso do São Paulo, que visitou o país no início de 1960 para participar do Torneio Pentagonal de Guadalajara, o qual conquistou enfrentando inclusive o próprio Oro. A competição serviu ainda de vitrine para a contratação de três jogadores tricolores para reforçarem os Áureos.

O zagueiro Luís Carlos Peters, o Carlito (ex-Penapolense), o ponteiro Juracy Caetano e o atacante Manuel Tavares, o Neco (revelado pelo Botafogo de Ribeirão Preto) acabaram ficando no México para defender o Oro a partir da temporada 1960/61. Eles se juntariam a outro jogador estrangeiro que já fazia sucesso no clube desde o ano anterior, o meia-atacante colombiano Delio “Maravilla” Gamboa, da seleção cafetera, vindo do Atlético Nacional. Naquela temporada 1960/61, Gamboa e Juracy terminaram empatados como goleadores da equipe com 13 tentos cada.

Ainda em 1961, “Maravilla” Gamboa retornou ao futebol colombiano, e o Oro o substituiu com outro brasileiro, o ponta-de-lança Amaury Epaminondas, revelado pelo Vasco, mas também trazido do São Paulo, pelo qual havia se sagrado campeão paulista de 1957 marcando inclusive o primeiro gol na vitória de 3 a 1 sobre o Corinthians que valeu o título. Na edição 1961/62, a equipe desceu duas posições em relação à campanha anterior, terminando na quarta colocação (enquanto o Chivas levantava o tetra). Mas o grande salto estava logo ali adiante.

Além da chegada dos brasileiros, outra contratação importante no caminho à conquista inédita foi a do técnico húngaro Árpád Fekete. Antigo atacante de um lendário esquadrão do Újpest, campeão da Copa Mitropa em 1939, e que também havia feito carreira como jogador na Romênia, na Itália (onde defendeu diversos clubes) e na França, Fekete cruzou o Atlântico em 1954, migrando para os Estados Unidos pouco depois de obter seu diploma de treinador. E logo foi parar no México, assumindo o Chivas na temporada 1957/58.

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Com o Rebaño Sagrado, conquistaria os títulos de 1958/59 e 1959/60, os dois primeiros de uma série que culminaria um tetracampeonato em 1961/62. Mas no meio do caminho desse tetra, uma boa proposta financeira fez o magiar decidir tomar o rumo do Oro, que tinha ambições de desbancar o rival de Guadalajara. E fazia fé em seus ases estrangeiros, algo com o qual o Chivas era impedido de contar por força do estatuto do clube, que proíbe a contratação de jogadores nascidos em outros países. Mas os Áureos também tinham seus destaques locais.

Entre os mexicanos do time, dois nomes chamavam a atenção e se colocavam como a referência técnica: o goleiro Antonio “Piolín” Mota – de baixa estatura, mas bastante elástico e acrobático – e o meia ofensivo Felipe “El Pipis” Ruvalcaba – capitão da equipe, armador talentoso e de quem partiam as principais jogadas ofensivas dos Áureos. No meio daquele ano, a dupla havia estado no Chile com a seleção mexicana que disputou a Copa do Mundo. Embora nem um nem outro tenham entrado em campo, eles ainda voltariam a disputar outros Mundiais.

Naquela temporada, o clube ganharia outros dois reforços brasileiros para se juntarem a Neco e Amaury, os remanescentes das primeiras levas – Juracy seguiu para o Necaxa e Carlito havia se transferido para a UNAM – e que haviam se convertido em ídolos da torcida. Um deles era Ademar Barcellos, outro nome vindo do São Paulo e que podia atuar como lateral ou volante. O outro era o meia Nicola Gravina, que se destacou no Bonsucesso em meados da década anterior e também passou pelo futebol paulista antes de tentar a sorte no México.

O Oro de 1963

O time estreou no campeonato em 1º de julho recebendo o Irapuato e vencendo sem dificuldades por 3 a 0. O primeiro tropeço veio logo em seguida, ao perder para o Atlante na capital por 1 a 0. Mas a recuperação viria numa sequência em que o clube somou nove pontos em dez possíveis, ao derrotar o Monterrey (3 a 2), o Atlas (2 a 1, num jogo em que o rival foi o mandante no Jalisco), o Necaxa (4 a 3) e o Morelia (3 a 0) – estes dois últimos fora de casa – e empatar em 1 a 1 com o Toluca. Assim, o Oro foi catapultado à liderança, ultrapassando América e Nacional.

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O cenário foi mantido após a rodada seguinte, mesmo com os Áureos parando num 0 a 0 em casa diante do León, graças aos tropeços dos perseguidores. Porém, em 26 de agosto, quando o Oro foi derrotado por 1 a 0 ao visitar o América na capital, o campeonato ficou bem embolado, com quatro líderes empatados: os próprios Oro e América, além de Nacional e Chivas, todos com 12 pontos em nove jogos. Uma semana depois, o Oro ficaria no empate em 1 a 1 no clássico com o Nacional no Jalisco e seria ultrapassado pelas Águilas na ponta da tabela.

Duas vitórias – 3 a 2 sobre o Tampico fora de casa e 4 a 2 na UNAM (estreante na primeira divisão naquele ano) no Jalisco – reconduziram o Oro à liderança. Mas a última rodada do primeiro turno, desmembrada entre os dias 20 e 23 de setembro, provocaria uma reviravolta que redefiniria a disputa pelo título naquela temporada. No sábado, o América foi batido pelo lanterna Tampico em sua visita a Tamaulipas, enquanto o Atlas venceu o Monterrey fora de casa. E no domingo, no Jalisco, o Oro foi derrotado no clássico diante do Chivas por 2 a 1.

Com esses resultados, os rivais Chivas e Atlas assumiam a ponta da tabela somando 18 pontos, um a mais que o Oro e dois a mais que os antigos líderes América e Nacional – que a partir dali ficariam cada vez mais afastados da briga. O próprio Atlas também não duraria muito tempo na primeira colocação, ao emendar uma sequência de seis partidas sem vitória logo na largada do returno. Desse modo, o Chivas se colocaria como o único obstáculo entre os Áureos e o primeiro título nacional de sua história. Uma boa e acirrada disputa vinha por aí.

A equipe do Oro com sua camisa auriazul

O Oro começaria bem o returno, derrotando o Irapuato por 4 a 2 fora de casa e dando o troco da derrota para o Atlante na ida vencendo o mesmo adversário no Jalisco por 3 a 2. Nesse processo, alcançaria o Chivas na liderança. Porém, uma sequência ruim de quatro jogos dos Áureos faria os rivais abrirem distância: o time de Árpád Fekete perdeu na visita ao Monterrey (2 a 1), recuperou-se vencendo novamente o Atlas (3 a 1, resultado que afastou ainda mais o rival da disputa), mas voltou a ser derrotado fora de casa, agora diante do Toluca (3 a 2).

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Depois do quarto jogo, um empate em 3 a 3 em casa diante do Necaxa no dia 1º de novembro, o Oro assistiria ao Chivas abrir quatro pontos no topo da tabela faltando sete rodadas para o fim do campeonato. Naquela altura, imaginava-se que os Rojiblancos (que buscavam o quinto título mexicano consecutivo e haviam conquistado em agosto daquele ano a Copa dos Campeões da Concacaf), fariam valer mais uma vez sua tradição de chegada, enquanto os Áureos ficariam de novo pelo caminho, morrendo na praia. A não ser que iniciasse ali uma reação.

Para a surpresa geral, foi o que aconteceu. O time derrotou o Morelia no Jalisco (3 a 2) e o León em Guanajuato (2 a 0), empatou com o America em casa (1 a 1) e venceu o Nacional no clássico tapatío (2 a 0), somando sete pontos em oito possíveis. Enquanto isso, o Chivas incrivelmente empatava quatro partidas seguidas, o que reduzia sua vantagem na ponta da tabela a apenas um ponto. Chegaria ao quinto empate ao ficar no 2 a 2 com o Toluca fora de casa. Mas, desta vez, o Oro não aproveitou: obteve o mesmo placar no Jalisco diante do lanterna Tampico.

Na penúltima rodada, ao derrotar a UNAM fora de casa por 3 a 1 na quinta-feira, 13 de dezembro, o Oro alcançou a liderança isolada de maneira provisória. Mas no domingo, o Chivas decidiu parar de empatar e recuperou a ponta goleando o Necaxa por 4 a 0. Os rivais de Guadalajara eram os dois únicos times com chance de conquistar o título mexicano, com os Rojiblancos – que não perdiam há 15 partidas e haviam sofrido só duas derrotas nas 25 rodadas até ali – dependendo apenas do empate no confronto direto para levantar o pentacampeonato.

Os capitães se cumprimentam antes da partida decisiva

O clássico tapatío que decidiria o título mexicano de 1962 aconteceu – naturalmente – no Jalisco em 20 de dezembro, outra quinta-feira. Precisando da vitória, o time do Oro dirigido por Árpád Fekete foi a campo com Antonio “Piolín” Mota no gol. O quarteto defensivo tinha pelas laterais Germán “Tamal” Ascensio à direita e o brasileiro Ademar Barcellos à esquerda, com Victor Chavira e Rogelio González Navarro – trazido do rival Atlas no início da década para se transformar em um dos pilares do setor nos Áureos – pelo centro.

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No meio-campo, o capitão Felipe “El Pipis” Ruvalcaba iniciava a armação de jogadas auxiliado por outro brasileiro, Nicola Gravina. Na frente, pelas pontas, havia os velozes Jorge “Tepo” Rodríguez pelo flanco direito e José Luis “Zurdo” Pérez pela extrema esquerda. Eram dois jogadores – juntamente com Ruvalcaba e Nicola Gravina – responsáveis por municiar a dupla brasileira do comando do ataque: o centroavante Amaury Epaminondas, goleador isolado do certame até ali com 19 gols, e o ponta-de-lança Manuel Tavares, o Neco.

O Chivas, por seu lado, contava com um timaço que cedeu nada menos que sete atletas à seleção mexicana que havia disputado no meio do ano a Copa do Mundo do Chile, obtendo a primeira vitória do país num Mundial (3 a 1 sobre a Tchecoslováquia) e perdendo apertado para Brasil (2 a 0) e Espanha (1 a 0). A forte defesa reunia o goleiro Jaime “El Tubo” Gómez, os laterais Arturo Chaires e José Villegas e o vigoroso zagueiro Guillermo Sepúlveda. E do meio para a frente havia ainda o armador Isidoro Díaz e os atacantes Salvador Reyes e Héctor Hernández.

O jogo teve primeiro tempo movimentado, mas que terminou sem gols. O único tento da partida sairia somente aos 26 minutos da etapa final. Um cruzamento alto para a área foi mal afastado pelo goleiro do Chivas, “Tubo” Gómez, que, ao tentar interceptar o centro, colidiu na área com o zagueiro áureo Rogélio González Navarro. A sobra ficou para Neco, que mergulhou de cabeça e mandou de peixinho a bola para as redes do rival. Era o tento que revertia a vantagem do empate do Chivas e garantia a conquista inédita do Oro no futebol mexicano.

Mas a emoção durou até os últimos minutos: após sofrer o gol, o Chivas se mandou ao ataque. E num escanteio, perto do apito final, até mesmo “Tubo” Gómez apareceu na área do Oro. A bola viajou até a cabeça do goleirão, na marca do pênalti, e parecia também tomar o rumo das redes, no ângulo de “Piolín” Mota. Mas o arqueiro áureo, demonstrando fabulosa elasticidade, esticou-se todo para espalmar e evitar o empate que daria o título aos rojiblancos. Uma mostra de que o Oro não se permitiria mais falhar na hora da decisão. Enfim a taça era dos Áureos.

Os jogadores pagando promessa

A conquista histórica emocionou o futebol mexicano. Dias após a vitória sobre o Chivas, liderados por Neco, um grupo de jogadores e dirigentes dos Áureos seguiu em caminhada até a Basílica de Nossa Senhora de Zapopán, um dos santuários mais visitados do país, localizado na região metropolitana de Guadalajara. Acompanhados por torcedores (entre eles muitas crianças), os novos campeões foram oferecer o título nacional, pagando promessa feita antes da decisão. A procissão dos atletas ganhou destaque nos jornais no dia seguinte.

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A segunda metade da temporada 1962/63 seria ocupada pelas copas. Primeiro, haveria a disputa da Copa Adolfo López Mateos, em edição única, na qual o Oro chegou à final após eliminar Toluca, Morelia e León, mas acabou batido pelo America por 4 a 1. Em seguida, viria a Copa México, em que o clube deixou pelo caminho Necaxa e Irapuato antes de cair nas semifinais para o Chivas. Mas o Oro ainda levantaria o troféu Campeón de Campeones, espécie de supercopa do país, vencendo de novo o rival Chivas por 3 a 1 na capital em julho.

Na mesma época, o Oro chegou a participar da famosa International Soccer League, disputada nos Estados Unidos entre 1960 e 1965 e que chegou a ter como campeões os cariocas America e Bangu. Os Áureos também chegaram a enfrentar um brasileiro, o Sport, com quem empataram por 3 a 3 em Chicago no dia 29 de maio. A campanha, no entanto, foi fraca: com só uma vitória, a equipe terminou em penúltimo na sua chave (que também incluía, entre outros, o West Ham de Bobby Moore e Geoff Hurst) à frente apenas dos franceses do Valenciennes.

Com praticamente a mesma base campeã, o Oro voltaria a chegar perto do título na temporada 1964/65, terminando como vice, dois pontos atrás do Chivas. Logo em seguida, contrataria outro brasileiro que marcaria época no clube: o atacante Berico, revelado pelo Guarani e contratado do Flamengo. E teria três jogadores convocados pelo México para a disputa da Copa do Mundo de 1966: além de Felipe “El Pipis” Ruvalcaba, também iriam à Inglaterra o zagueiro Gustavo Peña (capitão da seleção) e o atacante Ramiro Navarro.

A entrega da taça de 1963

Mas a partir de 1965, com a saída de alguns nomes importantes – como Amaury, que seguiu para o Toluca – os resultados começaram a minguar. Até brigar contra o rebaixamento na temporada 1968/69, sob o comando de outro brasileiro, o ex-zagueiro campeão do mundo Mauro Ramos de Oliveira. Na ocasião, o time terminou empatado na última posição com o Jabatos de Nuevo León e teve de disputar um playoff de descenso. Após dois empates, o sufoco só chegou ao fim no terceiro jogo: 1 a 0, gol de Bernardino Brambila no último minuto.

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Em novembro do ano seguinte, após o fim do torneio Mexico 70 (que valeu como o campeonato nacional naquele ano em que o país recebeu a Copa do Mundo), o Oro mudaria de nome para Club Social y Deportivo Jalisco, após ter sido comprado por um grupo de empresários do setor açucareiro. “Los Mulos” (outro apelido dos Áureos) se transformariam em “Los Gallos”. Após dez anos discretos na elite, bem longe de repetir os bons momentos do antigo Oro, o Jalisco acabaria rebaixado ao fim da temporada 1979/80 e nunca mais retornaria.

Em 2008, o clube foi refundado com o nome original ao ser adquirido pelo ex-jogador Sergio Villalobos e seu filho Ariel Villalobos Domínguez. Desde então, milita nas divisões inferiores do país contando basicamente com atletas locais. Atualmente disputa um dos grupos regionalizados da Liga TDP, equivalente à quarta divisão mexicana. E, com um passo de cada vez, sonha com o retorno dos tempos de glória dos velhos Áureos no cenário nacional.

Os campeões nos jornais da época
A capa do Oro campeão
A edição do campeão
A flâmula do Oro campeão

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui. Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.