Pegando a estrada, são quase 14 horas de carro. Mais de 1,3 mil quilômetros separam a Arena Condá do Monumental de Núñez. Mesmo assim, dezenas de fiéis à Chapecoense subiram no ônibus para acompanhar a jornada inédita – incluindo até mesmo Altayr Zanella, 74 anos, que ao lado de seus amigos teve a ideia de fundar o clube em maio de 1973. Não era questão de ganhar ou perder. E nem só de enfrentar o River Plate. O que todos queriam (que fosse de longe, e muitos mesmo sem torcer pelo Verdão) era a chance de respirar a história. Ver o maior momento de um clube sendo escrito. A derrota por 3 a 1 em Buenos Aires não foi um bom resultado para a Chape. Mas o orgulho não reside aí, e sim na forma como um time que mal era conhecido no Brasil há alguns anos peitou o atual campeão sul-americano, em um dos estádios mais importantes e mais imponentes do mundo. Um dia para guardar.

A Chapecoense começou a desfrutar do momento desde o drama contra o Libertad, classificando-se às quartas de final nos pênaltis. Já sabia quem seria o seu adversário, o clube que devastou os torneios continentais nos últimos 12 meses. Nenhum problema para uma equipe que, desde 2014, manteve sua força justamente na maneira como encarou adversários muito mais tradicionais dentro do Brasil. A partir do Campeonato Brasileiro do ano passado, a Chape já havia vitimado Grêmio, Internacional, Coritiba, Atlético Paranaense, São Paulo, Santos, Palmeiras, Vasco, Fluminense, Botafogo, Flamengo, Cruzeiro, Atlético Mineiro, Bahia e Sport. A maioria absoluta dos times de camisas pesadas no país. O River seria mais um desses gigantes para adicionar à lista.

Não se questiona a superioridade dos Millonarios. Basta olhar no papel e comparar a qualidade dos jogadores. Enquanto um dos times espera o Mundial em dezembro, o outro só quer passar as férias sem o pesadelo do rebaixamento no Brasileirão. E os argentinos não tiveram problemas em transformar isso em domínio durante os primeiros minutos de jogo. A pressão era enorme, especialmente a partir de cruzamentos, e o primeiro gol saiu dos pés de seu melhor jogador. Em um chute muito bem colocado, no canto inferior, Carlos Sánchez abriu o placar aos 19 minutos.

Se o River Plate conta com alguns dos melhores jogadores das Américas atualmente, o time da Chapecoense é repleto de refugos. E isso não é demérito nenhum. Pelo contrário, os catarinenses se aproveitam disso para ter tarimba. Serviu para não se intimidar com as arquibancadas cheias do Monumental, a grandeza do River ou mesmo a desvantagem no placar. Experiência e consciência das limitações do time, que valeu o empate no fim do primeiro tempo. Com a cadência de Cléber Santana, o Verdão apostava nas bolas longas em direção ao centroavante Túlio de Melo. Em um desses levantamentos, o camisa 23 desviou, William Barbio também triscou na bola e Maranhão saiu de cara para o gol. Tocou na saída de Barovero, para marcar aos 37 minutos o gol mais simbólico dos 42 anos da Chapecoense. Enquanto isso, os catarinenses eram valentes. A partir de um carrinho de William Barbio em Carlos Sánchez na lateral, quase nasceu o gol da virada.

Já no segundo tempo, o River Plate voltou mais encorpado para concluir o seu serviço. A trave salvou a Chapecoense uma vez, mas não seria nem suficiente para evitar o golaço de Pisculichi, aos 18. O meio-campista cobrou uma falta perfeita, no ângulo, para fazer o segundo gol. Depois disso, o Verdão até chegou à área adversária duas vezes com perigo, mas nada de tão concreto.  Os argentinos ainda fariam o terceiro, aos 41. Após três defesas seguidas de Danilo, em sequência de erros da linha de zaga, Carlos Sánchez marcou mais um. E o quarto só não veio por pura sorte, em lance que Driussi perdoou.

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Apesar do gol marcado fora de casa, o terceiro tento dos adversários esfria um pouco as expectativas da Chapecoense para o reencontro na Arena Condá. Mas não tira as esperanças. Diante da oportunidade única que vivem jogadores, torcedores, o clube e a cidade, ninguém vai desistir tão fácil assim. O River Plate conta com uma defesa bastante sólida, um dos pontos fortes do time de Marcelo Gallardo em seus sucessos. Mas nada que deva acanhar os catarinenses. Para quem pensava ser impossível golear Inter e Palmeiras por cinco gols, virar o jogo contra o Grêmio com dois de desvantagem, ou mesmo emendar dois acessos seguidos entre a Série C e a Série A, a Chape provou o contrário diversas vezes desde 2013.

A Arena Condá irá pulsar ainda mais forte na próxima quarta-feira. O River Plate é um visitante atípico, mas um adversário como qualquer outro. E a Chapecoense buscará o seu objetivo – que não precisa ser exatamente a classificação. Obviamente, passar às semifinais da Copa Sul-Americana eliminando o atual campeão do continente seria um sonho impensável para qualquer alviverde até algumas semanas. Mas a gana do clube não se concentra nisso. Está muito mais no fato de fazer acontecer, de ter um episódio para se orgulhar pelas próximas décadas. Encarar os Millonarios no olho, de igual para igual. Um clube do interior do Brasil, como tantos outros que convivem com desigualdades e dificuldades. Mas que sustenta sua grandeza exatamente na vontade de viver o momento único da maneira mais intensa. Independente do resultado, já é histórico de qualquer maneira – e não apenas para a torcida da Chape, mas para qualquer um que gosta das boas histórias que só o futebol sabe criar.