Esqueça a imagem do ônibus azul estacionado em frente ao gol de Petr Cech. As queixas – um pouco mesquinhas – de que o Chelsea “não merecia ganhar a Liga dos Campeões por seu estilo de jogo” ficaram para trás. Talvez a final em Munique tenha sido o último resquício de um projeto iniciado por Mourinho e que foi resgatado às pressas, diante da crise nos vestiários. Roberto Di Matteo o usou como ponte para agradar Abramovich, mas não como plano de carreira.

Uma pré-temporada completa – e € 101,3 milhões gastos em reforços – foi suficiente para que o italiano transformasse os Blues, mudança respaldada até mesmo pelos exigentes senadores. A progressão em bolas longas, endereçadas para Drogba, e o comprometimento no trabalho defensivo deixaram de ser traços marcantes. A tônica do Chelsea 2012/13 é a intensa movimentação e a troca de posições no meio de campo, conduzida pelos três maestros de Stamford Bridge: Juan Mata, Eden Hazard e Oscar.

O trio tem sido capaz de aplicar a técnica tão exigida por Abramovich, recolocando os Blues entre os favoritos da Premier League. Hazard e Oscar se adaptaram rapidamente ao futebol inglês. Mata, por sua vez, reencontrou o bom futebol do segundo semestre de 2011. Poupado na pré-temporada após disputar Euro e Olimpíadas, o espanhol mostra que o descanso só o ajudou. O camisa 10 engatou a quinta marcha no fim de setembro e soma sete gols e sete assistências nos últimos oito jogos.

A trinca de meias ajuda o Chelsea a combinar criatividade e velocidade nas investidas ao ataque. Fernando Torres também vem sendo importante para o brilhantismo dos maestros, embora tenha atrapalhado mais do que ajudado nos últimos jogos. A movimentação do centroavante serve para abrir espaços aos jogadores que vem de trás. Porém, a sobrecarga do camisa 9, único jogador a ter sido titular nos 15 jogos do Chelsea na temporada e sem um reserva que possa desempenhar seu papel, começa a apresentar seus efeitos colaterais.

A atuação contra o Tottenham foi o exemplo concreto da eficiência ofensiva aplicada por Di Matteo em sua transformação. A recuperação dos Blues contra o Manchester United também poderia servir, não fosse o gol impedido de Chicharito Hernández e a contestável expulsão de Fernando Torres (que, em compensação, poderia ter recebido vermelho por entrada em Cleverley). A arbitragem desastrosa de Mark Clattenburg eclipsou o bom futebol em Stamford Bridge e pode até acabar nos tribunais, depois que Mikel o acusou de racismo.

Observando apenas o futebol, os londrinos tiveram calma para se superarem o esboço de goleada dos Red Devils. Orquestrada por Oscar, a equipe de Roberto Di Matteo buscou o empate e fez David De Gea trabalhar intensamente. Entretanto, os primeiros 15 minutos da partida também serviram para expor as fraquezas dos Blues nesta transformação.

As quatro derrotas sofridas pelo Chelsea nesta temporada foram proporcionadas pelas dificuldades em marcar adversários que avancem em velocidade e explorem os flancos do campo. Além disso, em todas elas houve um apagão do time, seja no início do primeiro ou do segundo tempo. Man United, Man City e Atlético de Madrid abriram dois gols de vantagem em menos de 20 minutos – no caso dos Citizens, em virada após o intervalo. E o Shakhtar Donetsk aproveitou as desatenções nos primeiros instantes de cada etapa, em baque que poderia ter sido maior, não fossem as defesas espetaculares de Petr Cech.

As fragilidades surgem praticamente como antítese do time que conquistou a Champions, mas são até aceitáveis diante do novo 11 inicial. Se os meias abertos ajudavam os laterais em 2011/12, o mesmo não acontece com a atual formação. E a linha defensiva que acaba sofrendo as consequências. Outro problema se concentra na cabeça de área, onde Lampard, Ramires ou Mikel precisam trabalhar dobrado, tanto pela falta de opções no setor quanto pelas características dos jogadores à frente.

Em uma empreitada mais longa como o Campeonato Inglês, no qual os londrinos costumam enfrentar adversários mais retraídos, esses problemas não devem atrapalhar tanto. No entanto, Di Matteo precisa encontrar uma solução visando a Liga dos Campeões. Em um grupo equilibrado, uma eliminação nesta primeira fase não seria impensável. É preciso reaprender a lidar com a pressão dos adversários, como o time fez tão bem contra Barcelona e Bayern Munique meses atrás. Se o Chelsea se move por música com a bola, ainda precisa achar o compasso correto sem ela.

O herói de 2010 ou o vilão de 2012?

Luis Suárez é um personagens controvertido desde que chegou à Premier League, em janeiro de 2011. Amado pelo torcedores do Liverpool, execrado pela maioria dos rivais. Decisivo em algumas partidas, extremamente contraproducente em outras. E quase sempre envolvido em polêmicas. Será que o uruguaio teria o mesmo tratamento de herói se “a defesa” feita nas quartas de final da Copa de 2010 tivesse acontecido nos últimos meses?

Suárez foi o nome do clássico contra o Everton neste domingo. Marcou os dois gols dos Reds e ainda poderia ter feito o terceiro, não fosse um impedimento mal marcado pela arbitragem – embora também pudesse ter sido expulso, em lance com Sylvain Distin. Seu principal momento na partida, porém, foi a comemoração do primeiro tento. Diante das acusações de David Moyes, mergulhou em frente do técnico dos Toffees, que recebeu com bom humor a resposta.

Independente de seus problemas comportamentais, Suárez é uma das principais referências na atual fase do Liverpool. É o centroavante com mobilidade que se encaixa perfeitamente ao estilo de Brendan Rodgers. Depois de um início descalibrado na EPL, chega a seis gols na competição. É o jogador que mais chuta a gol na competição e também o quinto que mais dá passes para finalizações dos companheiros.

A redenção do Liverpool passa pelos pés do uruguaio, mas também depende de uma maior regularidade do atacante. Um pouco mais de bom humor seria bastante útil, especialmente para deixar de lado as controvérsias e melhorar a imagem bastante desgastada em seus quase dois anos na Inglaterra. Mais que o grande personagem que é, Suárez tem potencial para ser o grande jogador que os Reds precisam.

Curtas

– Ainda sobre o Liverpool, é notável a evolução do trabalho de Brendan Rodgers, depois de botar ordem na casa. Vitórias contra Newcastle e Chelsea nas duas próximas rodadas podem ajudar o clube a se aproximar do “pelotão secundário” – os clubes entre a 4ª e a 10ª colocação aparecem com 17 ou 14 pontos, contra 10 do Liverpool.

– Já no Manchester United, Van Persie e Rooney merecem os devidos créditos. O holandês, pelo poder de decisão no início do jogo, mais uma vez sem se intimidar com o clima em Stamford Bridge. E o inglês pela atuação destacada no meio de campo, ditando o ritmo do time e ajudando no combate. Ashley Young, de volta após dois meses de lesão, e Rafael, bem mais maduro desde as infantilidades cometidas nas Olimpíadas, ganham menções honrosas.

– Mesmo capengando, o Manchester City se sustenta como único invicto da Premier League. No sábado, os Citizens fizeram mais um jogo modorrento, vencendo o Swansea graças a um lampejo de Tevez. Foram 38 minutos até o primeiro chute a gol da equipe no Etihad Stadium. Se os efeitos do mau futebol não atrapalharam os resultados na EPL, Roberto Mancini deveria agradecer aos céus, já que, como o italiano mesmo definiu, “só um milagre garante a classificação na Champions”.

– Já o Arsenal merecia um placar mais elástico contra o QPR. Depois de um primeiro tempo morno, os Gunners bombardearam os vizinhos na volta do intervalo. Acabaram parados por Júlio César, que fez milagre até em chute contrário de seus próprios defensores e relembrou os melhores tempos de Internazionale.

– Demba Ba no primeiro turno, Papiss Cissé no segundo. Ao menos o camisa 9 parece ter quebrado a maldição que o rondava ao anotar o gol da vitória por 2 a 1 sobre o West Brom. Depois de um início irregular, os Magpies parecem prontos para brigar pelas competições continentais, ainda mais com a volta de Tim Krul. Vale também prestar atenção em Sammy Ameobi, que teve ótima atuação contra o Club Brugge na quinta, pela Liga Europa.

– Do lado dos Baggies, Romelu Lukaku demonstrou mais uma vez a opção para o ataque que o Chelsea perdeu ao emprestá-lo. O belga estava descontente com as poucas chances nos Blues. Hoje, seria um nome mais que conveniente para fazer sombra a Fernando Torres.

– O Southampton fecha o primeiro quarto de campeonato na zona de rebaixamento, mas é possível esperar uma ascensão depois de uma sequência dura. Os Saints, que já tinham dado trabalho para City e United, pressionaram o Tottenham, mas os dois gols sofridos no primeiro tempo foram fatais. Para tanto, acertar a defesa será fundamental.

– Curiosas as situações de Stoke City e Sunderland, que acumulam SEIS empates até o momento. Ambos aparecem entre as melhores defesas e os piores ataques da competição. Sem surpreender, as duas equipes empataram por 0 a 0 no Britannia Stadium.

– A liderança isolada da Championship é de um galês: o Cardiff City bateu o Burnley por 4 a 0 e contou com o tropeço do Leicester City para abrir três pontos de vantagem. Já a melhor sequência é do Middlesbrough, que soma quatro vitórias consecutivas e aparece na terceira colocação.