Nenhum time, na era Champions League, foi dominante como o Real Madrid, quatro vezes campeão em cinco temporadas. E, mesmo em toda a história da Copa dos Campeões, apenas o Ajax de Cruyff e o Bayern de Munique rivalizam, e apenas o próprio Real Madrid do final da década de cinquenta supera. Essa gloriosa história chegou ao fim no Santiago Bernabéu, onde o Ajax venceu por 4 a 1, classificou-se às quartas de final e impôs aos merengues a sua pior derrota em casa na história das competições europeias. A manchete do Marca foi precisa. Com a foto do Bernabéu, determinou: “Aqui jaz uma equipe que fez história”. A seguir, a autópsia dessa morte, separada em sete pontos que ajudam a explicar a derrocada do Real Madrid.

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Saída de Ronaldo
Cristiano Ronaldo (Foto: Getty Images)

Óbvio que qualquer time que perde um jogador que garantia 50 gols por temporada passará por dificuldades. Além do montante bruto, o que mais faltou ao Real Madrid foi o poder de decisão de Cristiano Ronaldo, como ficou evidenciado ao longo da temporada e especialmente na derrota para o Barcelona na Copa do Rei. Os merengues foram melhores durante boa parte da partida, sem conseguir marcar, e levaram três gols nas poucas investidas dos catalães. Diante dos holandeses, não houve domínio, mas também várias chances apareceram. Com Ronaldo em campo nesses dois jogos, quantas ele converteria? Que impacto teria na dinâmica da partida e no psicológico? O português resolvendo jogos amarrados foi cena comum durante o tricampeonato. Graça à absurda patacoada de Sergio Ramos, que levou cartão amarelo de propósito para cumprir suspensão no jogo de volta das oitavas, o Real também sentiu falta de alguém com perfil de liderança, que puxasse algumas orelhas e esfriasse a partida, como Ronaldo poderia fazer. E fica uma reflexão: a derrocada do Real Madrid começou com sua saída ou ele percebeu que ela era inevitável e pulou fora na hora certa? Os dois juntos, talvez. Impossível ter certeza. O fato é que, além do português, Zidane também sentiu que era a hora de ir embora. E Luka Modric quase tomou o mesmo caminho. Pode ter sido apenas coincidência que três dos principais nomes do clube, entre os mais inteligentes, tenham decidido buscar novos ares ao mesmo tempo. Ou não.

Coadjuvantes apagados
Luka Modric, do Real Madrid, com a Bola de Ouro (Foto: Getty Images)

Modric afirmou, antes da partida contra o Ajax, que a solução para substituir um jogador insubstituível seria dividir seus números entre atacantes e meias que estão no elenco ou que fossem contratados. Ter dois ou três jogadores que fizessem 15 ou 20 gols. Isso não aconteceu. O terceiro artilheiro do time é o zagueiro Sergio Ramos, com 11 tentos, e depois aparece Asensio, com seis. O único que realmente cresceu e assumiu protagonismo foi Karim Benzema. Outros simplesmente minguaram. Modric não repetiu as atuações que o levaram a ser melhor do mundo. Kroos atuou abaixo do que pode. Até Casemiro, sempre uma rocha no meio-campo, pareceu perdido em algumas partidas. E os mais jovens não despontaram, com exceção de Vinícius Júnior. Asensio parece a sombra do jogador que mostrou que poderia ser. Isco mal teve oportunidades com Solari. E, então, chegamos a Gareth Bale.

O enigma de Bale
Gareth Bale, do Real Madrid (Photo by David Ramos/Getty Images)

Bale foi a contratação emblemática do começo do domínio do Real Madrid sobre a Europa. Chegou por € 100 milhões, na época em que jogadores desse valor eram raros, e entregou o gol decisivo de la décima, obsessão do clube. No entanto, entre lesões e oscilações de desempenho, foi muitas vezes pego para Cristo, mesmo durante os melhores momentos recentes. Marcou um golaço na final da última Champions League e esperava-se que ele preenchesse o vácuo da saída de Cristiano Ronaldo, tornando-se o líder técnico do elenco. Houve apenas espasmos.  Com novos problemas físicos, decidiu uma partida ou outra, mas não assumiu protagonismo sequer parecido ao do português. Um novo time em torno de um novo craque não se formou. Tanto que, em vez de insistir com ele, o mais provável é que o galês esteja na barca de saída da necessária reconstrução pela qual o Real Madrid precisará passar. O que nos leva a outro problema.

Mercado modesto 
Courtois, do Real Madrid (Foto: Getty Images)

O Real Madrid foi muitas vezes criticado por fazer contratações desnecessárias e bombásticas para ganhar as manchetes, o que torna extremamente irônico que, no mercado em que precisava repor a saída de um dos maiores jogadores da sua história, tenha preferido ser discreto. Especulou-se muito Eden Hazard, Harry Kane ou mesmo Neymar, mas, no fim, o reforço mais badalado foi o goleiro Courtois, que falhou contra o Ajax e não representou, no geral, uma melhora em relação ao injustamente contestado Keylor Navas. Chegou Odriozola, um lateral direito reserva, e a camisa 7 de Ronaldo acabou nas costas de Mariano Díaz, que tem dois gols e um total de 398 minutos em campo. A principal novidade acabou sendo Vinícius Júnior, que já estava contratado e foi alçado do segundo time. O brasileiro impressionou, mas, ainda muito jovem, mostrou naturais sinais de que precisa de aprimoramento, principalmente em tomadas de decisão e finalizações. Longe de entregar o que o time precisava.

A lateral esquerda
Marcelo, do Real Madrid (Photo by David Ramos/Getty Images)

Marcelo sempre foi um dilema para o Real Madrid. Por mais talentoso que seja, certamente o mais entre os laterais esquerdos da sua geração, as deficiências defensivas exigiam muita atenção. Zidane foi quem melhor soube encontrar o equilíbrio necessário. Com a saída do francês e problemas organizacionais, essa fraqueza ficou exposta, a ponto de ele perder a posição para Sergio Reguillón. Reguillón é bom jogador, mas se mostrou ainda jovem demais para lidar com o peso de substituir uma bandeira como Marcelo, vice-capitão do time.

As escolhas de treinadores
Julen Lopetegui, ex-técnico do Real Madrid e da Espanha (Foto: Getty Images)

Florentino Pérez conturbou o ambiente da seleção espanhola, na semana da estreia da Copa do Mundo, porque acreditava que Julian Lopetegui era o homem certo para substituir Zinedine Zidane. Era espanhol, tinha histórico nas categorias de base e poderia imprimir um estilo ao time. Foi uma contratação parecida com a de Rafa Benítez para repor Carlo Ancelotti. E, como Benítez, Lopetegui não chegou nem perto de terminar a temporada. Durou três meses. Pérez recorreu a Santiago Solari, do Castilla, para ser o técnico interino, enquanto avaliava o mercado. Falou-se bastante de Antonio Conte ou Mauricio Pochettino. Após quatro jogos e quatro vitórias – contra Melilla, Valladolid, Viktoria Plzen e Celta de Vigo -, o argentino foi efetivado, também porque as regras de La Liga impedem que um profissional seja interino por mais de 15 dias. O Real Madrid, de fato, melhorou com Solari, que tomou decisões difíceis, como barrar Marcelo e dar oportunidades a jovens. Dono de boas análises de futebol, porém, não mostrou ter recursos suficientes para lidar com as dificuldades que uma temporada traiçoeira como esta apresentava. E Pérez retorna à sua agenda telefônica em busca de um novo comandante para a próxima época.

Fim natural de um ciclo
Zinedine Zidane, do Real Madrid, com a taça da Champions League (Photo by Matthias Hangst/Getty Images)

Zidane avisou. “Posso errar ou que haja pessoas que pensam diferente, mas se não vejo claramente que seguiremos vencendo… É uma decisão para o meu bem e pelo do elenco. Creio que seja necessária uma mudança para continuar vencendo”, afirmou o francês no dia da sua despedida. Muitos dos problemas citados acima não são causas, mas sintomas do desgaste natural de um time que está há tanto tempo junto e venceu tanta coisa. Em qualquer ambiente com muitos seres humanos, o tempo produz conflitos, e certo relaxamento aparece depois de anos de muito sucesso. Como explicar a um tricampeão europeu que ele precisa manter o nível de sacrifícios para ser tetra? Uma temporada mais acomodada soa quase como um direito a alguns jogadores, o que vai de encontro às exigências do esporte profissional de alto nível. E as lembranças dos grandes momentos prejudicam a frieza de decisões complicadas, como dispensar jogadores importantes e decisivos que caíram nessa armadilha ou passaram do auge. Na maioria dos casos, é mesmo necessário que quase tudo seja destruído para que possa ser construído novamente.