Os demais campeões que me perdoem, mas não há conquista maior pelo Brasil neste domingo que a do Novo Hamburgo. É o sonho de uma torcida que se concretiza. É a espera de 106 anos que chega ao fim. É o ótimo trabalho feito por um clube menor rendendo frutos. O Noia tomou conta do Campeonato Gaúcho de maneira inquestionável. Fez a melhor campanha, apresentou um futebol eficiente, derrotou os dois gigantes do estado. Superou o Internacional nos pênaltis, tirando dos colorados a chance do heptacampeonato, e ergueu a taça com todos os méritos. A cidade de Novo Hamburgo pode, enfim, encher a boca para soltar o grito e celebrar a façanha de uma das camisas mais tradicionais do Rio Grande do Sul. Uma noite que nunca acabará para a torcida anilada.

O Novo Hamburgo foi competentíssimo em todos os momentos do Gauchão. Apesar das duas derrotas, terminou a primeira fase na liderança geral, após arrancar com seis vitórias nas seis primeiras rodadas. Já tinha demonstrado o seu potencial ao bater colorados e empatar com tricolores. Passou pelo São José com dois triunfos, antes da classificação imensa diante do “completo” Grêmio, nos pênaltis. E a decisão não poderia ser mais feliz para os anilados. Primeiro, pela partidaça contra o Inter no Beira Rio, arrancando o empate por 2 a 2 depois de ficarem por duas vezes em vantagem no placar. Por fim, neste domingo, a festa se completou. Após o 1 a 1, o prêmio veio nas penalidades.

Ao longo da partida, aliás, o Novo Hamburgo ressaltou alguns de seus predicados. O organizado time de Beto Campos jogou de igual com o Inter no Estádio Centenário – palco “neutro” da final depois que as arquibancadas provisórias foram vetadas no Estádio do Vale, sem a capacidade mínima para realizar a finalíssima. Assim, o Noia saiu em vantagem graças à infelicidade de Ernando, marcando contra. Já no segundo tempo, Rodrigo Dourado empatou e os colorados pressionaram. Contudo, os anilados se seguraram a partir da bravura de seus sistema defensivo, se entregando a cada bola. Esforço recompensado na marca da cal. O goleiro Matheus fez grande defesa para barrar Nico López, além de contar com os erros de D’Alessandro e Cuesta. No quarto chute dos anfitriões, Pablo converteu e ratificou o feito sem igual para o Novo Hamburgo.

Ao longo de sua história, o Novo Hamburgo tinha cinco vices estaduais, dos tempos em que se chamava Floriano. Faz jus aos sete títulos do interior em seu passado, faturando pela primeira vez uma taça de primeira grandeza. E, pela maneira como evoluiu no certame, tal grandeza se torna ainda maior. A folha de salarial reduzida não foi impeditivo para o Noia quebrar a hegemonia da dupla da capital. Pela primeira vez desde 2000, quando o Caxias de Tite se eternizou, um clube quebra a supremacia dos gigantes. Além disso, desde 1939 não havia um campeão de uma cidade diferente de Porto Alegre ou Caxias do Sul – apenas Renner, Juventude e Caxias, uma vez cada, haviam se metido entre colorados e tricolores a partir de então.

Beto Campos é quem se coloca como o principal artífice. Centroavante rodado pelos clubes do interior do Rio Grande do Sul, tornou-se técnico em 2001. E, tarimbado no estado, entendeu a identidade necessária para forjar o campeão gaúcho. Além disso, alguns jogadores também merecem destaque especial. O goleiro Matheus cresceu em diferentes momentos na reta final da campanha, contra Grêmio e Inter, virando o grande protagonista. Julio Santos teve papel fundamental no miolo da zaga, aos 35 anos, liderando pelo exemplo. O atacante João Paulo foi outro veterano a fazer a diferença, desequilibrando com seus gols e seu senso de responsabilidade. Já a taça acabou merecidamente nas mãos do capitão Preto. Nascido na cidade e acumulando várias passagens pelo clube, o meio-campista sabe bem o significado da conquista ao Noia. É mais um torcedor anilado, entre os que celebram o épico deste domingo.

Após o apito final e a celebração do Novo Hamburgo, uma cena representou bem o que se passou no Estádio Centenário. Em grande sinal de respeito, D’Alessandro entregou sua camisa a João Paulo, parabenizando os campeões. O artilheiro anilado colocará a 10 colorada em um quadro. Lembrança de uma tarde que ninguém esquecerá em Novo Hamburgo. O nome do estádio em Caxias, no fim das contas, se torna sugestivo pelo maior instante de um clube centenário.

Que muito se discuta sobre a pertinência ou o formato dos campeonatos estaduais, o Novo Hamburgo ajuda a mostrar o verdadeiro sentido destas competições. Premiam bons trabalhos, contam grandes histórias. E, ainda que o domínio do clubes maiores seja inegável, ajuda a valorizar o futebol que vai além dos orçamentos cheios de cifras. Leva o orgulho a toda uma cidade. Nas últimas décadas, poucos foram os clubes do “interior” que protagonizaram pelo Brasil uma conquista tão brilhante quanto a do Noia. A comemoração não pode ter hora para acabar.