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É impossível conter a fatores meramente esportivos o tamanho do fracasso protagonizado pelo Hamburgo na segunda divisão da Bundesliga. Pela segunda temporada consecutiva, os Dinossauros não conseguiram sequer uma vaga nos playoffs de acesso contra o antepenúltimo colocado da primeira divisão. E se a derrocada já tinha sido suficientemente vexatória em 2018/19, quando o HSV liderou até o início do segundo turno e sucumbiu após uma sequência de oito rodadas sem vitória, a equipe conseguiu superar o surrealismo de sua hecatombe. A derrota por 5 a 1 para o Sandhausen no domingo passado, em pleno Volksparkstadion, se tornou um novo símbolo do drama vivido por um dos maiores clubes da Alemanha.

A campanha não vinha sendo impecável, mas animava no início e parecia suficiente para o Hamburgo conquistar o acesso. Depois da falha em 2018/19, várias novas peças foram trazidas – não só ao elenco, mas também à direção e à comissão técnica. Durante boa parte do primeiro turno, o Hamburgo respirava esses novos ares: acumulou vitórias e só não assumiu a liderança isolada porque outros times mantinham aproveitamentos parecidos – o campeão Arminia Bielefeld e o também promovido Stuttgart. O sinal de alerta começou a soar no Volksparkstadion a partir de novembro, quando o HSV já tinha aberto uma vantagem de seis pontos no G-3 – e de nove pontos sobre o Heidenheim, que se provaria seu algoz. A derrota dentro de casa ao próprio Heidenheim naquele momento fazia o conforto na tabela diminuir bastante.

No início do segundo turno, as vitórias até reapareceram ao Hamburgo. Mas a virada na chavinha aconteceria no clássico contra o St. Pauli, então ameaçado pelo rebaixamento. O triunfo histórico dos Piratas no Volksparkstadion também tirou os Dinossauros da zona direta de acesso pela primeira vez em 19 rodadas. A partir de então, seria só ladeira abaixo, por mais que o equilíbrio da 2. Bundesliga sustentasse as aspirações do HSV. As vitórias rarearam e, sem torcida, o mando de campo se tornou desimportante. Com o Arminia Bielefeld já abrindo folga na frente, a corrida seria contra Stuttgart e Heidenheim.

Um momento essencial ao fracasso do Hamburgo aconteceu pouco depois da retomada da Bundesliga em maio, no confronto direto contra o Stuttgart. Os Dinossauros pareciam prontos a arrancar um resultado enorme na Mercedes-Benz Arena, fechando o primeiro tempo com dois gols de vantagem. Não só permitiram o empate, como tomaram a virada por 3 a 2 aos 47 do segundo tempo. A tabela até ajudou depois, com vitórias sobre os cambaleantes Wehen Wiesbaden e Dynamo Dresden, que valeram a volta à vice-liderança com o desempenho igualmente fraco do Stuttgart. Mas as três últimas rodadas seriam cabais aos hamburgueses.

Quando dependia apenas de si, o Hamburgo não deveria ceder o empate dentro de casa por 1 a 1 ao Osnabrück, outro integrante da rabeira da tabela. Isso rebaixou os Dinossauros à terceira posição antes do confronto direto contra o Heidenheim, quarto colocado, na casa dos rubroazuis. Contra uma equipe forte em seus domínios, sem qualquer peso da responsabilidade em busca do acesso inédito e muito bem treinada, era de se imaginar o final do filme. E ele se confirmou com outra tragédia, na qual o HSV cedeu a virada por 2 a 1 aos 50 do segundo tempo. A sorte ainda seria boazinha com os hamburgueses e deu uma última colher de chá. Enquanto a equipe jogaria em casa contra o modesto Sandhausen na rodada final, o Heidenheim pegaria o campeão Arminia Bielefeld fora. Mesmo com o título, os líderes não desaceleraram e venceram os rubroazuis por 3 a 0. Já o Hamburgo…

Não é apenas a má fase que leva um time a perder por 5 a 1 numa rodada decisiva em seu estádio, contra um oponente já sem ambições na tabela. Não é apenas a falta de qualidade. Não é apenas a falta de sorte. É uma conjunção de fatores que passa muito pelas dificuldades de uma gestão que não constrói um elenco ambicioso. Passa mais ainda pela mentalidade de uma agremiação que se apequena gradativamente. E culmina num psicológico em frangalhos, até em um desinteresse, que não se limita apenas a quem estava em campo.

Com dois gols do Sandhausen em 21 minutos, a situação já era péssima ao Hamburgo. Aaron Hunt ainda deu uma esperança no início do segundo tempo, ao descontar. Mas três tentos dos visitantes já depois dos 39 minutos da etapa final terminaram de enterrar a ossada dos Dinossauros. O último gol dos oponentes, de Dennis Diekmeier, carrega até uma dose de ironia: ex-jogador do próprio Hamburgo, ele nunca havia balançado as redes em oito anos no clube. Foi a Lei do Ex elevada à máxima potência, para confirmar o HSV na quarta posição da segundona.

E a questão não se concentra apenas na maneira como o Hamburgo desperdiçou momentos favoráveis na tabela. Dentro de campo, o nível de concentração caiu diversas vezes nos últimos instantes e a isso custou a promoção. Das nove partidas nesta retomada da Bundesliga, em quatro o Hamburgo tomou gols nos acréscimos do segundo tempo que mudaram a situação no placar. Além das supracitadas derrotas para Stuttgart e Heidenheim, o HSV também cedeu empates agônicos diante de Greuther Fürth e Holstein Kiel. Num cenário ideal, se estes tentos não acontecessem, o time somaria seis pontos a mais e também frustraria os concorrentes. Fecharia a campanha confortável na segunda colocação, com quatro pontos de vantagem sobre o Stuttgart e sete sobre o Heidenheim. Mas não existe cenário ideal aos hamburgueses.

Como era de se esperar, os reflexos da permanência na segunda divisão seriam imediatos. Se há uma crise e um encolhimento que se arrastam há alguns anos, o cenário piora em tempos de pandemia. Conforme o Bild, as receitas do Hamburgo se reduziram em €6 milhões apenas nos últimos dias. Principal patrocinadora da camisa, a Emirates estaria pronta para acionar uma cláusula do contrato e encerraria a parceria com os Dinossauros que dura desde 2006. Algo parecido teria sido pensado por Klaus-Michael Kühne, empresário que possui 20% das ações do clube. O magnata paga os naming rights para a manutenção do nome Volksparkstadion, para que nenhuma empresa interfira na tradicional alcunha, mas as discussões sobre a renovação do contrato esfriaram.

Nesta semana, nove atletas já deixaram o elenco. A maior parte deles não teve seus contratos renovados. A lista inclui jogadores que atuaram na elite da Bundesliga, como o zagueiro Kyriakos Papadopoulos e o meia Jairo Samperio. O enxugamento era necessário, diante das perspectivas. Da mesma forma, também voltaram aos seus times os atletas emprestados – entre eles o atacante Joel Pohjanpalo, um dos raros que mantiveram a esperança durante a reta final, com nove gols em seus seis meses cedido pelo Bayer Leverkusen.

Ao lado de Pohjanpalo, um dos raros que manteve sua reputação intacta foi o lateral Tim Leibold, que se tornou uma fonte de assistências e logo deve pintar na primeira divisão. O goleiro Julian Pollersbeck e o atacante Sonny Kittel seguem de cabeça erguida. De resto, é difícil encontrar quem se salve. Mesmo o capitão Aaron Hunt, que permanece desde a primeira divisão, recebe críticas pela falta de liderança. E há outros entraves, como o caso de Bakery Jatta, revelação que chegou aos Dinossauros como refugiado, mas voltou a ser alvo de investigação da polícia nesta semana por uma possível falsificação ideológica – algo descartado meses atrás, mas reaberto.

E quem deve pedir o chapéu é o treinador Dieter Hecking, um veterano na casamata. O comandante chegou ao Hamburgo nesta temporada, após diversos trabalhos de relativo sucesso na Bundesliga. Lapidou talentos no Hannover 96, quase levou o Nuremberg às copas europeias, foi vice-campeão da liga e campeão da copa com o Wolfsburg, ficou perto de botar o Borussia Mönchengladbach na Champions. Mas, visto como a solução para a recuperação do HSV, nem ele daria um jeito na draga.

A incapacidade de Hecking em manter um time coeso, especialmente nesta retomada da Bundesliga, é sintomática. Não existiam variações à formação do comandante, enquanto o sistema defensivo apresentou um rendimento bem ruim, como exemplificado pelos tropeços nesta reta final. A fragilidade nas bolas aéreas era flagrante. Hecking até tentou implementar um sistema com três zagueiros na reta decisiva, o que fracassou. O silêncio do treinador nos últimos dias indicam que ele dificilmente continuará no Volksparkstadion – segundo a imprensa alemã, faria algumas exigências para seguir. Mas a bomba deverá ficar em outras mãos.

Hecking, obviamente, é apenas a ponta do iceberg. Os resultados são péssimos desde o início da década. Em 2011/12, o Hamburgo quase caiu pela primeira vez, mas terminou no 15° lugar da Bundesliga – sua pior colocação na história do campeonato até então. Meses depois, a agremiação decidiu mudar seus estatutos e se transformar em companhia limitada – num modelo empresarial um tanto quanto comum na Bundesliga. Havia a promessa de que a chegada de uma gestão profissional ia transformar as perspectivas econômicas dos Dinossauros e alavancar o time em pouco tempo. No fim, aconteceu o contrário.

Desde 2013/14, o Hamburgo sempre ocupou a parte inferior da tabela na Bundesliga. Salvou-se duas vezes nos playoffs do rebaixamento, até que não houvesse remédio com a queda em 2017/18. E que a culpa não seja necessariamente do modelo de gestão, os problemas apontam que não existe solução fácil no futebol. As trocas na alta cúpula dos hamburgueses se tornaram constantes e não se nota um fio condutor no trabalho do clube, nem mesmo um processo de crescimento. É tudo por tentativa e erro – e, como se pode notar, os erros são muito mais comuns. Nos últimos dez anos, foram oito diretores esportivos e 11 presidentes do conselho supervisor. A mudança mais importante da atual temporada foi a saída do presidente Bernd Hoffmann, em março, por conflitos com outros chefões da associação após dois anos no cargo.

Em 2010, o Hamburgo chegou a apresentar a 10ª maior receita do futebol europeu, segundo a Football Money League. Os Dinossauros estavam à frente de clubes como Manchester City e Tottenham, enquanto apenas o Bayern de Munique o superava na Alemanha. Os valores despencaram pouco a pouco e, em 2015, o HSV havia caído 18 posições no mesmo ranking. Suas receitas diminuíram na casa de 20%, um valor que se torna mais significativo pensando na bolha financeira que se criou dentro do futebol no mesmo período. Desde então, os hamburgueses sequer apareceram no Top 30 da Football Money League.

Isso cria dependências. O maior exemplo é o do próprio Klaus-Michael Kühne, o empresário que possui 20% das ações do Hamburgo. O clube se tornou cada vez mais necessitado do apoio financeiro e o magnata aumentou sua influência política na diretoria. O apequenamento deixou o HSV mais preso ao dinheiro de Kühne, uma figura controversa nos bastidores do Volksparkstadion por suas decisões. Com o time limitado à segundona, as fontes de receita diminuem e pioram o panorama. Só que até o empresário cogita vender sua parte e abandonar o barco. Ao menos, isso não significaria uma quebra. Segundo o vice-presidente Frank Wettstein, principal responsável pela gestão financeira, não há risco de falência a médio prazo.

O Hamburgo precisa se adaptar à realidade e estudar bem o terreno onde pisa. Não dá para manter a soberba de clube grande, diante de tantos problemas. A cada ano a mais na segunda divisão, as finanças se reduzem e as dificuldades para retornar à elite (bem como para se restabelecer como grande) se tornam maiores. Antes de mais nada, os Dinossauros necessitam de um ambiente favorável, com pessoas que conheçam os problemas da agremiação e também sua identidade. Isso só será possível com paciência e uma linha de trabalho clara.

Neste ponto, pode ser positiva a manutenção do diretor esportivo Jonas Boldt, antigo executivo do Bayer Leverkusen e apontado como alguém capaz de encontrar novos rumos. Nesta campanha ele não se deu bem, com erros na montagem do elenco, que também sofreu com o excesso de lesões. Ao seu lado estará o ex-lateral Marcell Jansen, antigo ídolo que, após se aposentar cedo, preside o conselho supervisor aos 34 anos – e tende a se tornar o presidente geral em breve. São duas lideranças jovens, que se testam no caos. Precisarão ser criativos para encontrar uma direção e reformular o elenco na atual crise.

Independentemente do que aconteça, a história do Hamburgo não se apaga. Sua torcida não deve diminuir drasticamente e as possibilidades seguem sobre a mesa. Diferentemente de outros clubes tradicionais da Bundesliga que sofrem nos últimos anos (Kaiserslautern, Nuremberg e Munique 1860, para ficar em alguns), o HSV está inserido num grande mercado e no qual é o foco principal. A cidade de Hamburgo é a segunda mais populosa da Alemanha e tem uma economia do tamanho da Hungria. Para aproveitar essa capacidade, porém, é necessário colocar ordem na casa. Na segunda divisão, isso não será totalmente possível.

Com o famoso relógio desinstalado, a torcida do Hamburgo contará as horas para que o próximo ano na segundona passe rápido. O clube admite vender alguns de seus destaques. Deverá se apoiar em jogadores da base, empréstimos de equipes da primeira divisão e outros talentos garimpados em times menores. Não é algo que anime, mas parece que os hamburgueses estão escaldados de grandes decepções. Não existe situação ruim que o HSV não seja capaz de piorar, é verdade. Mas o mínimo, neste momento, é aprender com os erros e saber redimensionar o clube em sua atual realidade. Quem sabe, para que o renascimento não demore tanto assim.