Potência do futebol inglês entre o fim dos anos 1970 e o início dos 1990, o Nottingham Forest viveu seu último momento de brilho na elite nacional na temporada 1994/95, quando, vindo de uma breve passagem pela segunda divisão, pulou direto para o terceiro posto na Premier League, emendando com uma campanha significativa na Copa da Uefa na temporada seguinte. Dirigido pelo ex-lateral Frank Clark, campeão europeu como jogador em 1979, o time registrou a melhor campanha de um recém-promovido desde a reformatação do campeonato até hoje.

É praticamente impossível falar do Nottingham Forest sem mencionar Brian Clough. O treinador comandou o clube no período que é, de muito longe, o mais vitorioso e representativo de sua história, entre 1975 e 1993. Basta dizer que nos 110 anos entre a fundação do Forest, em 1865, e a chegada do técnico, a galeria de troféus recebeu apenas duas FA Cups, conquistadas num intervalo de mais de seis décadas (uma em 1898 e outra em 1959). Cartel inferior ao de clubes como o Bolton, por exemplo, só para ficar nos que nunca venceram a liga.

A história de como Brian Clough transformou o Forest em um clube cultuado do futebol inglês é bem conhecida: pegou o time cambaleando na segunda divisão em janeiro de 1975 e conseguiu primeiro colocá-lo distante da ameaça de rebaixamento. Dois anos e meio depois, conduziu-o de volta à elite. Na temporada seguinte seria campeão inglês pela primeira vez. E, ato contínuo, viria a levantar um bicampeonato europeu em 1979 e 1980 (além de dois canecos da Copa da Liga). Mas pouco se fala do restante de longa era do treinador à frente do clube.

E Clough ainda montaria pelo menos um outro time bem interessante no City Ground, a partir do fim da década seguinte. Nesse período, o Forest terminou duas vezes em terceiro na liga (em 1988 e 1989) e venceu duas Copas da Liga (em 1989 diante do Luton e em 1990 contra o Oldham), perdendo uma para o Manchester United em 1992, além de também ter sido batido na final da FA Cup de 1991 pelo Tottenham. Algumas dessas campanhas teriam valido vagas europeias, mas o futebol inglês ainda convivia com os efeitos do banimento pós-Heysel.

Aquele Forest contava com um punhado de nomes emblemáticos do futebol inglês. Entre criados no clube e trazidos de fora para serem lapidados, passaram pela equipe o zagueiro Des Walker, o lateral-esquerdo Stuart Pearce, os meias Steve Hodge, Neil Webb e Roy Keane, o ponta-de-lança Nigel Clough (filho do treinador) e o atacante Teddy Sheringham, todos de seleção inglesa (ou irlandesa, no caso de Keane). Mas o desfecho daquele bom momento seria triste, com o surpreendente descenso na temporada 1992/93, a primeira da Premier League.

A vida após Brian Clough

Sofrendo com o alcoolismo, Brian Clough se aposentaria de maneira melancólica ao fim daquela campanha. E o elenco, que ao início da temporada já havia perdido Teddy Sheringham e Des Walker (negociados com Tottenham e Sampdoria, respectivamente), sofreria novas baixas após o descenso: Nigel Clough seria vendido ao Liverpool e Roy Keane se juntaria ao Manchester United de Alex Ferguson pelo valor recorde de transferências no futebol inglês (£3,75 milhões). O jeito seria juntar os cacos e tentar se reconstruir mais uma vez.

Para essa missão foi convocado um nome conhecido e bastante popular no clube: Frank Clark, lateral-esquerdo do time campeão inglês de 1978 e europeu de 1979, que pendurara as chuteiras imediatamente após aquela final diante do Malmö em Munique. Prestes a completar 50 anos, ele vinha exercendo o cargo de gerente de futebol no Leyton Orient, clube o qual treinara entre 1983 e 1991. Apesar de querido pelos torcedores, sua escolha contrariou o desejo expresso de Brian Clough, que preferia a promoção de seu antigo auxiliar, Ron Fenton.

O anúncio de sua contratação foi feito ainda em maio de 1993, depois da recusa de outro antigo ídolo do Forest, Martin O’Neill, que preferiu ficar no Wycombe, o qual havia acabado de conduzir pela primeira vez à Football League. E as primeiras contratações de Clark seriam interessantes: além de tirar do Norwich – sensação da temporada inaugural da Premier League – o experiente e versátil meia galês David Phillips, trouxe ainda o bom zagueiro Colin Cooper, do Millwall, e um jovem atacante promissor do pequeno Southend chamado Stan Collymore.

Stan Collymore com a camisa do Forest – Foto: Anton Want/ALLSPORT via Getty Images/One Football

“O presidente e o conselho diretor muito rapidamente deixaram bem claro que não queriam nem ouvir falar em consolidação, eles esperavam de mim que levasse o clube direto de volta à Premier League, mas não havia dinheiro para gastar e quatro jogadores de seleção queriam sair do clube”, relembrou Clark ao site oficial do Forest. E assim foi feito, mas não sem um certo sofrimento de início, quando o clube cumpriu uma campanha bastante oscilante, sem conseguir demonstrar o fôlego necessário para alcançar a meta almejada pelos dirigentes.

Nos primeiros 12 jogos da campanha, o Forest venceu apenas três, sofrendo ainda cinco derrotas, ocupando a 20ª colocação entre 24 clubes. Sentindo a falta de um meia criativo para municiar os homens de frente, Frank Clark foi buscar o armador norueguês Lars Bohinen no Young Boys, da Suíça. O jogador havia se destacado na surpreendente vitória de sua seleção sobre a Inglaterra pelas Eliminatórias da Copa do Mundo, meses antes. E não tardou a fazer a engrenagem enfim funcionar: em sua estreia, o time bateu o Birmingham fora de casa por 3 a 0.

O Forest iniciaria ali uma sequência invicta de 13 partidas. E, depois de alguns tropeços no mês de fevereiro de 1994, seguiria em ascensão. A partir de março, seriam dez vitórias, três empates e apenas uma derrota até o jogo que definiria o acesso antecipado, uma vitória por 3 a 2 de virada na visita ao Peterborough, em 30 de abril. A equipe terminaria em segundo na Division 1 (novo nome da segundona), atrás apenas do Crystal Palace – que curiosamente também havia sido rebaixado na temporada anterior. O Leicester subiria pelos playoffs.

A base do time do acesso foi mantida quase integralmente para a temporada seguinte. Apenas uma contratação de grande impacto foi feita, quando Frank Clark conseguiu convencer o ponteiro-esquerdo holandês Bryan Roy (que havia acabado de disputar a Copa do Mundo dos Estados Unidos por sua seleção) a trocar a milionária Serie A italiana – na qual ele defendia o Foggia – pela Premier League, pagando £2,5 milhões ao clube rossonero, valor recorde desembolsado pelo Forest até aquele momento. Mas seu desempenho valeria cada centavo.

O time-base

O restante dos titulares ou já estava no clube desde os tempos de Brian Clough ou havia chegado durante a campanha do acesso. O primeiro caso era o do goleiro Mark Crossley, no City Ground desde 1987 e que teve rápido acesso ao time de cima. A titularidade viria a partir da temporada 1990/91, suplantando Steve Sutton. Não era um arqueiro plenamente confiável, mas se fez querido pelos torcedores. Apesar de nascido em Barnsley e de ter defendido a seleção inglesa de base, mais tarde faria oito partidas pelo País de Gales, entre 1997 e 2004.

O goleiro Mark Crossley – Foto: Anton Want/Allsport via Getty Images/One Football

Nas laterais jogavam Des Lyttle, trazido por Frank Clark do Swansea para a campanha do acesso para tomar o posto do antigo titular Brian Laws, e Stuart Pearce, nome histórico do clube, o qual defendia desde 1985. Capitão do time, marcador duro (seu apelido entre jogadores e torcedores era “Psycho”) e apoiador constante (inclusive marcando gols com certa regularidade), era ainda nome frequente na seleção inglesa, na qual chegou igualmente a ostentar a braçadeira em algumas ocasiões. Notório fã de punk rock, tornou-se um jogador cultuado.

Na zaga, ao lado do já citado Colin Cooper, trazido do Millwall por Frank Clark, jogava outro nome longevo daquela equipe: Steve Chettle, jogador intocável (fosse como central ou eventualmente como lateral-direito) entre os titulares desde que foi promovido da base ao time de cima por Brian Clough em 1987. O setor defensivo ainda contava com um reserva muito utilizado, o curinga norueguês Alf-Inge Haaland, também contratado por Clark na temporada anterior do modesto Bryne – e pai de Erling Braut Haaland, atual prodígio do Borussia Dortmund.

David Philipps e Steve Chettle comemoram pelo Forest – Foto: Mike Hewitt/ALLSPORT via Getty Images/One Football

O meio-campo atuava com dois jogadores bem abertos pelos lados, no típico desenho britânico. Pela direita, Steve Stone era outro prata-da-casa que começara a ganhar espaço com Clough, mas só se firmou como titular mesmo com a chegada de Frank Clark. Já pelo lado esquerdo atuava Ian Woan, que chegara ao clube em 1990 vindo das ligas semiprofissionais. Seu estilo se assemelhava ao de John Robertson, velho ídolo do Forest, compensando a falta de velocidade com um drible insinuante e muita habilidade nos passes, chutes e cruzamentos.

Pela faixa central, mais recuado, atuava o já mencionado David Phillips, jogador que primava pela versatilidade. Acostumado a jogar pelos dois lados, fosse como meia, lateral ou ala num esquema com três zagueiros (como era o caso da seleção galesa na época), foi posicionado como volante por Frank Clark, garantindo dinamismo na marcação e na transição ofensiva. Já a criação naquele setor era tarefa principalmente do talentoso norueguês Lars Bohinen, armador de grande visão de jogo e que não apenas municiava os atacantes como sabia fazer belos gols.

Stan Collymore comemora pelo Forest – Foto: Anton Want/Allsport via Getty Images/One Football

No ataque, despontava o goleador Stan Collymore, trazido do Southend por £2,25 milhões para a campanha do acesso, na qual anotara 19 gols em 28 jogos, incluindo o da vitória de virada sobre o Peterbrough, no último minuto, que confirmou a promoção à Premier League por antecipação. Ao seu lado entraria Bryan Roy, ponta-esquerda de origem, mas que Frank Clark redefiniria como um segundo atacante sem posição fixa, podendo flutuar pelo meio e por ambos os flancos, formando uma prolífica parceria com o centroavante de 23 anos.

O elenco ainda incluía algumas peças importantes do meio para a frente, mas utilizadas com menos frequência. Era o caso do meia Scot Gemmill, filho do ex-armador escocês Archie Gemmill – ele próprio um antigo ídolo do Forest – e jogador capaz de cumprir múltiplas funções. E ainda do ponta-esquerda Kingsley Black, da seleção da Irlanda do Norte, vindo do Luton em 1991. Ou também dos atacantes Jason Lee e Paul McGregor, principais opções de banco para o setor. Era o grupo que buscaria recolocar o Forest entre as forças do futebol inglês.

Um início promissor

A nova dupla de ataque já funcionou de saída, balançando as redes nos três primeiros jogos. Na estreia, o time bateu o Ipswich por 1 a 0 em Portman Road com gol de Roy. No segundo, recebeu o Manchester United (bicampeão da liga e que havia feito a dobradinha na temporada anterior) e empatou em 1 a 1. Os Red Devils saíram na frente com o russo Andrei Kanchelskis, mas quatro minutos depois, Roy serviu Collymore para decretar a igualdade. E no terceiro, derrotou o rival Leicester de novo no City Ground por 1 a 0, com outro gol de Collymore.

No quarto jogo, contra o Everton em Goodison Park, o Forest experimentou brevemente o gosto da liderança da tabela. Abriu o placar no primeiro tempo num gol contra do lateral Andy Hinchliffe e ampliou na etapa final numa puxeta do zagueirão Colin Cooper. Os Toffees ainda descontaram com Paul Rideout, mas o time de Frank Clark segurou a terceira vitória em quatro jogos, chegando aos dez pontos em 12 possíveis. No dia seguinte, porém, o Newcastle venceu o West Ham fora de casa e retomou a dianteira. Mas o Forest seguiria no bloco de cima.

Com efeito, o time permaneceria invicto pelas suas primeiras 11 partidas, com oito vitórias e apenas três empates. E acumularia ótimas atuações como nas goleadas sobre Sheffield Wednesday e Tottenham (este, em Londres), ambas por 4 a 1. Contra os Spurs (que haviam montado um grande time contratando o alemão Jürgen Klinsmann e os romenos Gheorghe Popescu e Ilie Dumitrescu para se juntarem a nomes como Teddy Sheringham e os jovens Darren Anderton e Sol Campbell), Bohinen marcou um golaço de cobertura, fechando a contagem.

Nos outros jogos da série, o time venceu em casa o Queens Park Rangers (3 a 2) e o Wimbledon (3 a 1), além de derrotar o Aston Villa em Birmingham por 2 a 0. E conseguiu empatar nas visitas ao Southampton (1 a 1) e Manchester City (3 a 3, com Ian Woan arrancando um terceiro gol no último minuto). Naquele momento, já passando da metade de outubro, a briga parecia ser entre Newcastle (líder com 29 pontos) e Forest (vice com 27), ambos muito à frente do bloco que vinha a seguir, com Blackburn, Liverpool, Norwich e a dupla de Manchester.

O Wimbledon x Forest teve um elefante em campo – Foto: Mike Hewitt/ALLSPORT/Getty Images/One Football

Porém, quando o time de Frank Clark enfim perdeu sua invencibilidade, batido pelo Blackburn por 2 a 0 em pleno City Ground, adentrou ali em sua primeira sequência ruim, somando seis jogos sem vencer. Perdeu para o Liverpool em Anfield (1 a 0) e parou num 0 a 0 ao receber o Newcastle em confrontos contra adversários diretos. E seguiu tropeçando ao ser derrotado em casa pelo Chelsea (1 a 0), fora de casa pelo Leeds (mais outro 1 a 0) e empatar dentro de seus domínios com o Arsenal em 2 a 2 – na única partida da série em que balançou as redes.

A fase ruim tomou todo o mês de novembro de 1994, no qual a equipe também se veria eliminada na Copa da Liga com uma surpreendente derrota em casa para o Millwall por 2 a 0. Mesmo assim, a boa gordura de pontos acumulada impediu que o clube descesse para além do quinto lugar na tabela. E o jejum de vitórias finalmente terminaria em 10 de dezembro com uma goleada sobre o Ipswich por 4 a 1 no City Ground, com tentos de Collymore, Gemmill, Haaland e um chutaço de Pearce em cobrança de falta, uma de suas especialidades.

Uma semana depois o desafio seria a visita ao Manchester United, invicto em Old Trafford. Mas o Forest se sairia muito bem, confirmando sua reação. Abriria dois gols de frente, em dois chutes de fora da área: primeiro com Collymore marcando um golaço e depois com Pearce, numa bola que resvalou na defesa. O time de Alex Ferguson diminuiu com Eric Cantona desviando cobrança de escanteio na primeira trave, mas não evitou a derrota que o impediu de ultrapassar o novo líder, Blackburn. Já o Forest subiu para quarto, à frente do Liverpool.

Entre oscilações e arrancadas

Nos três últimos jogos do ano, o Forest somaria quatro pontos: empataria sem gols na visita ao Coventry na rodada de Boxing Day; venceria o Norwich por 1 a 0, gol de Bohinen; e, no dia 31 de dezembro, seria vencido com surpreendente facilidade em Upton Park por um West Ham que ocupava apenas o 18ª lugar. Os três gols do adversário foram marcados ainda no primeiro tempo, com McGregor descontando no minuto final do jogo. A derrota iniciaria um novo período de oscilação, que duraria até o início de março e levaria à queda também na FA Cup.

Das dez partidas pela liga nessa sequência, o time venceria apenas duas batendo o Crystal Palace no City Ground (1 a 0) e o Chelsea em Stamford Bridge (2 a 0). Pararia ainda em empates diante de Liverpool (1 a 1) e Tottenham (2 a 2) em casa e do Queens Park Rangers (1 a 1) fora. E sofreria um acachapante 3 a 0 de um Blackburn cada vez mais líder, sendo derrotado também nas visitas ao Newcastle (2 a 1) e ao Arsenal (1 a 0) e também dentro de casa para o Aston Villa (2 a 1). Já na copa, a queda viria no segundo jogo, com o Crystal Palace tendo sua revanche.

Bryan Roy acelera contra o Newcastle – Foto: Clive Brunskill/ALLSPORT via Getty Images/One Football

No fim de fevereiro, a briga pelo título já havia se tornado uma disputa somente entre Blackburn e Manchester United, bem distanciados do bloco que vinha a seguir, com Newcastle, Liverpool e o próprio Nottingham Forest (que pareciam ser candidatos certos a uma vaga na Copa da Uefa), e tendo ainda Leeds e Tottenham se aproximando. Foi quando, ao sair de sua segunda fase ruim, a equipe de Frank Clark arrancaria para não só confirmar sua classificação europeia como ainda terminar a campanha de retorno à Premier League num excelente terceiro lugar.

Os empates com o Queens Park Rangers e o Tottenham também iniciariam a ótima sequência na reta final, na qual a equipe não perdeu nenhuma de suas 13 partidas, somando 31 pontos em 39 possíveis. Merece destaque a série de cinco vitórias entre 8 de março e 1º de abril, quando o time superou Everton (2 a 1), Leicester fora de casa (4 a 2), Southampton (3 a 0), Leeds (3 a 0) e ainda aplicou um incrível 7 a 1 sobre o bom time do Sheffield Wednesday em pleno Hillsborough. Foram ao todo 19 gols marcados e apenas quatro sofridos em cinco partidas.

A dupla Collymore-Roy foi particularmente letal na sequência. O primeiro marcou uma vez contra os Toffees e os Foxes. Contra os Saints e os Whites, eles comandaram o show: foram dois gols do holandês e um do inglês em cada uma das partidas. E diante dos Owls, quando o Forest balançou as redes cinco vezes nos 45 minutos finais, cada um marcou duas vezes naquela etapa final. Mas o gol mais bonito, para variar, seria anotado por Lars Bohinen, fechando a goleada com muito estilo, com um tapa de trivela no ângulo do goleiro Kevin Pressman.

A série de vitórias levou o Forest a ultrapassar primeiro o Liverpool – pulando do quinto para o quarto lugar – e mais adiante o Newcastle, alcançando a terceira colocação. Em queda livre na reta final, os Magpies acabariam apenas em sexto, ultrapassados também pelo Leeds e ficando fora até mesmo da zona de classificação à Copa da Uefa. A confirmação matemática do terceiro posto para o Forest veio antes da última rodada, na noite de quarta-feira, 10 de maio de 1995, com a derrota dos Reds por 3 a 0 para o West Ham em Londres, num jogo adiado.

Em seus 42 jogos pela liga, o time de Frank Clark obteve 22 vitórias, 11 empates e nove derrotas, somando 77 pontos – ainda hoje a maior pontuação para um recém-promovido na história da Premier League, empatada com a do Newcastle na temporada anterior. O time balançou as redes 72 vezes (foi o terceiro melhor ataque do campeonato), sendo que 35 destes foram anotados por sua dupla de frente: Stan Collymore assinalou 22 (foi o quarto artilheiro da liga, atrás de Alan Shearer, Robbie Fowler e Les Ferdinand) e Bryan Roy contribuiu com outros 13.

O faro de gol de Collymore, previsivelmente, não ficaria fora do radar dos clubes mais poderosos da liga, e em 1º de julho ele seria vendido ao Liverpool por £8,5 milhões, batendo o valor recorde de transferências nacionais. Com o valor embolsado, o Forest contrataria o armador Chris Bart-Williams, do Sheffield Wednesday (e da seleção inglesa sub-20), e o atacante Kevin Campbell, do Arsenal. Mais tarde, em agosto, dias antes do início da temporada, também chegaria o atacante Andrea Silenzi, primeiro italiano a atuar na Premier League, vindo do Torino.

Lars Bohinen disputa bola contra o QPR – Foto: Clive Brunskill/Allsport via Getty Images/One Football

Em outubro, no entanto, o clube seria pego de surpresa com mais uma saída, a de Lars Bohinen para o Blackburn, que não teve problemas para pagar o baixo valor da multa do norueguês (cerca de £750 mil) e tirá-lo do City Ground. O jovem Bart-Williams assumiu seu lugar, mas os atacantes do elenco tinham dificuldade para substituir Collymore. Nem Campbell tampouco o prata-da-casa Jason Lee tinham desempenho à altura. Silenzi então era uma decepção completa: ao longo de toda a campanha participaria de apenas dez partidas, sem marcar um gol sequer.

Ainda assim, o Forest teve momentos interessantes na temporada 1995/96. Largou com uma boa vitória por 4 a 3 sobre o Southampton fora de casa na Premier League e chegou a permanecer invicto pelas 12 primeiras partidas, até a série ruir com uma goleada de 7 a 0 para o atual campeão Blackburn (com direito a dois gols do recém-contratado Lars Bohinen) em Ewood Park. Pouco antes, a equipe de Frank Clark havia alcançado a terceira colocação, mas logo o bom momento se esvairia, conduzindo a uma disputa sem brilho no meio da tabela.

Na Europa, pela última vez

Outro dado interessante foi a aguardada campanha europeia, na qual o time chegaria às quartas de final passando por adversários de bom nível. O primeiro deles seria o Malmö, num reencontro marcante que evocava a decisão da Copa dos Campeões de 1979, na qual os ingleses levantaram seu primeiro caneco europeu. Agora, 16 anos depois, havia entre os suecos um remanescente daquele jogo: o rodado meia Robert Prytz, que passara por clubes de Escócia, Suíça, Alemanha Ocidental e até da badalada liga italiana antes de retornar ao que o revelou.

Os azuis celestes contavam ainda com dois meias promissores, que teriam carreira significativa na seleção sueca: Daniel Andersson (que fez sucesso no Bari e atuou por seis anos no futebol italiano) e Anders Andersson (de passagens frustradas por Blackburn e Benfica). Este último seria decisivo, marcando o gol da vitória de virada do Malmö por 2 a 1 depois que Ian Woan, na etapa inicial, havia inaugurado o placar para o Forest e Joakim Persson havia buscado o empate para os donos da casa. Para os ingleses, ficava a missão de reverter no City Ground.

No jogo de volta, um gol de Bryan Roy num belo chute de fora da área na metade da etapa final foi o suficiente para levar o Forest adiante. O segundo adversário era um Auxerre que naquela temporada faria a dobradinha francesa, levantando o único título da liga nacional em sua história e o segundo da Copa da França. Ponteado pelo zagueiro Laurent Blanc, o elenco reunia vários nomes que haviam passado (ou passariam mais tarde) pelos Bleus, somados a estrangeiros como o zagueiro nigeriano Taribo West e o talentoso meia argelino Moussa Saïb.

Curiosamente, outro que figurava naquele elenco do Auxerre era o meia Sabri Lamouchi (que treinaria o Forest de junho de 2019 até este início de temporada em 2020/21, demitido pelos maus resultados), titular nas duas partidas. Mas não impediu a classificação inglesa: na ida, no estádio Abbés-Deschamps, um belo gol de Steve Stone aos 23 minutos de jogo, finalizando um contra-ataque de almanaque com um leve toque por cobertura sobre o adiantado goleiro Fabien Cool, valeu a vitória pelo placar mínimo e a vantagem para a partida de volta. E um 0 a 0 no City Ground confirmou a classificação.

Scott Gemmill em ação contra o Malmö – Foto: Clive Brunskill/ALLSPORT/Getty Images/One Football)

O Forest – que nas oitavas de final teria pela frente mais um francês, o Lyon – se viu então como o único representante inglês a restar na competição. Nem mesmo um gol de cabeça do goleiro Peter Schmeichel salvou o Manchester United de cair ainda na primeira eliminatória para o Rotor Volgogrado, ao passo que Liverpool e Leeds – que superaram o primeiro obstáculo – fracassaram de modo humilhante na fase seguinte. Os Reds foram batidos em Anfield pelo Bröndby, enquanto os Whites levaram uma surra de 8 a 3 no agregado para o PSV Eindhoven.

O Lyon disputava uma copa europeia apenas pela segunda vez em 20 anos, mas havia chamado a atenção ao eliminar a forte equipe da Lazio na etapa anterior. Entre seus destaques figuravam o experiente goleiro Pascal Olmeta, o meia Ludovic Giuly, o atacante Florian Maurice e o zagueiro brasileiro Marcelo Djian (ex-Corinthians). Para o Forest, porém, mais uma vez bastou o mínimo: um gol do atacante reserva Paul McGregor a sete minutos do fim no City Ground e um empate a zero em Gerland asseguraram a classificação para as quartas de final do torneio.

Quando as quartas de final da Copa da Uefa chegaram, em março de 1996, o Nottingham Forest ocupava apenas a nona colocação na Premier League. A campanha europeia até ali revelava ainda alguns números significativos: se por um lado a defesa – imutável da temporada anterior para aquela – andava bem e vinha há cinco jogos sem ser vazada, por outro o ataque balançara as redes apenas quatro vezes em seis partidas, indicando que a lacuna deixada por Stan Collymore era difícil de ser preenchida. E o próximo adversário inspirava respeito.

O Bayern de Munique reunia um verdadeiro esquadrão, ponteado pelos dois maiores nomes do futebol alemão de sua geração: Lothar Matthäus (já convertido em líbero) e Jürgen Klinsmann. Como se não bastasse, havia ainda Oliver Kahn, Markus Babbel, Thomas Helmer, Mehmet Scholl, Thomas Strunz, Christian Ziege e um excelente quarteto estrangeiro formado por dois armadores – o suíço Ciriaco Sforza e o austríaco Andreas Herzog – e dois atacantes – o francês Jean-Pierre Papin e o búlgaro Emil Kostadinov. Mas não era um clube sem problemas.

Chris Bart Williams disputa com Jean Pierre Papin (Foto: Imago/One Football)

Além da já conhecida relação pouco amistosa entre os dois astros maiores da equipe, o elenco vivia em pé de guerra com o técnico Otto Rehhagel, que não chegaria até o fim da temporada. Mas antes, a enorme qualidade reunida no clube bávaro se impôs de maneira categórica diante do Forest. Na partida de ida, no Olympiastadion, Klinsmann arrematou de cabeça um cruzamento de Scholl pela direita e abriu a contagem logo aos 16 minutos, pondo fim à invencibilidade de 485 minutos de Mark Crossley no gol dos ingleses pelo torneio europeu.

Porém, logo no minuto seguinte veio o empate: David Phillips cobrou falta alçando na área, Kahn saiu em falso, e Steve Chettle cabeceou da linha de fundo, sem ângulo, encobrindo o goleiro. E o jogo quase foi para o intervalo empatado. Até que, na última volta do ponteiro, um contra-ataque dos bávaros terminou no gol de Mehmet Scholl, dando a vitória ao Bayern por 2 a 1. Um resultado o qual jogadores e torcedores do Forest julgavam ser possível reverter na volta. Afinal, uma vitória simples por 1 a 0 já valeria a classificação pelo gol marcado em Munique.

E o Forest chegou a marcar um gol sobre o Bayern no City Ground por intermédio de Steve Stone a cinco minutos do fim. Só que não passou de um gol de honra: numa atuação avassaladora, os bávaros já haviam marcado cinco vezes. Ziege abriu o placar cobrando falta aos 29 minutos, numa bola que passou por baixo do corpo de Crossley. Ainda na etapa inicial, aos 43, Strunz ampliou com um chute de fora da área, após escanteio. E na etapa final, a goleada seria deflagrada com dois belos gols de Klinsmann e um de Papin, arredondando a contagem em 5 a 1.

A derrocada

Para a tristeza dos torcedores, aquela não seria a última goleada nesses termos que o Forest sofreria na temporada: em abril, o time voltaria a ser derrotado por 5 a 1 dentro de casa pelo Blackburn (que se convertera em autêntico carrasco, somando 12 a 1 no placar agregado dos confrontos pela Premier League de 1995/96) e, dali a algumas semanas, levaria um 5 a 0 do virtual campeão Manchester United em Old Trafford. Ao fim da temporada, ficaria numa discreta nona colocação, com 58 pontos (19 a menos que na campanha anterior).

Na seguinte, o declínio seria ainda mais acentuado e impiedoso: em meio a uma crise política, o Forest seria rebaixado como lanterna, obtendo apenas seis vitórias em toda a campanha, apesar de ter se reforçado com o defensor croata Nikola Jerkan e o centroavante holandês Pierre van Hooijdonk, além de repatriar o rodado atacante galês Dean Saunders, vindo do Galatasaray. Frank Clark não resistiu à má campanha e pediu demissão em dezembro de 1996, com Stuart Pearce acumulando o cargo por um tempo, antes da chegada de Dave Bassett.

Jogadores do Forest celebram gol contra o Everton em setembro de 1995 – Foto: Shaun Botterill/ALLSPORT via Getty Images/One Football

O clube ainda emplacaria um novo retorno imediato à Premier League ao conquistar o título da segunda divisão em 1997/98, mas a sobrevida seria curta. Depois de chegar a ocupar a segunda posição na terceira rodada, o time enfileirou 19 jogos sem vencer e desceu outra vez à lanterna. Sofreu ainda uma humilhante derrota por 8 a 1 para o Manchester United em pleno City Ground. E encerrou o mês de abril de 1999 somando parcos 21 pontos em 35 jogos. Venceu seus últimos três compromissos, mas já estava rebaixado há muito tempo.

Aquela seria a última temporada do Forest na elite inglesa. Em 2005, o clube chegaria a descer à terceira divisão (a qual só havia disputado duas vezes em sua história, em 1949/50 e 1950/51), e de lá só sairia três anos depois. Se voltar aos tempos de campeão europeu parece improvável num futuro próximo, pelo menos o Nottingham Forest segue lutando para retornar à Premier League e se manter nela, para tentar aos poucos recuperar a relevância no cenário nacional a qual demonstrou ter pela última vez em meados dos anos 1990.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui. Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.