Mike Ashley chegou ao St. James’ Park em maio de 2007. Assumiu o controle do Newcastle após uma era de êxitos do clube sob as ordens de Sir John Hall, empresário local que geriu os Magpies com o maior dos interesses e por 15 anos manteve a equipe fazendo boas campanhas não apenas na Premier League, como também nas copas europeias. As expectativas com o novo dono eram altas, especialmente pelo comprometimento inicialmente demonstrado com os alvinegros. Uma impressão que não duraria. Entre decisões impopulares, dois rebaixamentos e parcos investimentos, Ashley chegou até mesmo a manifestar seu arrependimento na aquisição. Os torcedores não discordaram, protestando por sua saída ao longo dos anos. Uma era infeliz que pode se encerrar depois de uma década. Nesta segunda, o empresário confirmou que o Newcastle está à venda, esperando fechar negócio até o Natal.

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Dono da Sports Direct, gigante no varejo de artigos esportivos, Ashley aguardou o acesso do Newcastle na última temporada para manifestar oficialmente seu interesse. Segundo o jornal The Guardian, o empresário espera receber £380 milhões pela venda total de suas ações, sem intenção em estabelecer parcerias com novos investidores. O problema é que em outras duas ocasiões (em 2008 e 2009) as negociações do magnata pela venda do clube foram infrutíferas, esbarrando principalmente em encontrar compradores que cobrissem todas as demandas.

Desta vez, Ashley se mostra aberto a receber os pagamentos em parcelas, conforme declarado na nota oficial emitida nesta segunda. Os valores da aquisição poderão ser postergados conforme as possibilidades do comprador, com os novos donos ganhando a oportunidade de assumir o Newcastle antes da janela de transferências de janeiro – e, assim, direcionando sua política de contratações ao lado do treinador Rafa Benítez.

Ao longo dos últimos meses, os Magpies já se aproximaram de alguns potenciais proprietários. Quatro deles assinaram acordos preliminares, incluindo empresários chineses. Além disso, o clube manteve contatos com a britânica Amanda Staveley, que gerencia investimentos de magnatas no Oriente Médio e se envolveu nas negociações de venda de outros clubes da Premier League, incluindo o Manchester City, quando este foi adquirido pelo Xeique Mansour. Já o Chronicle Live reporta o interesse de Murat Ülker, homem mais rico da Turquia e dono de uma das maiores empresas alimentícias da Eurásia. Com investimentos no Fenerbahçe, ele teria se aproximado do negócio nos últimos dias.

Apesar das incertezas, o anúncio da venda do Newcastle foi bem recebido pelos torcedores. Até mesmo lendas do clube se manifestaram positivamente sobre a notícia. Alan Shearer, que chegou a retornar como técnico interino pouco antes do rebaixamento em 2009, durando apenas oito partidas no cargo, postou um gif animado celebrando o adeus, seguido por Rob Lee e Stephen Harper. Sinal mais do que claro da insatisfação que se alimentou ao longo de uma década, por diversas atitudes de Mike Ashley pensando apenas em seu benefício pessoal e ignorando os interesses do clube.

A relação com empresário se desgastou especialmente pelo tratamento oferecido a alguns ídolos. A quebra de confiança aconteceu ainda em setembro de 2008, quando o técnico Kevin Keegan pediu demissão dos Magpies após seguidos desentendimentos com a diretoria, acusando o clube de não fazer os investimentos necessários e de não dar autonomia. Ao final da temporada, com Shearer colocando sua reputação em risco, aconteceu o primeiro rebaixamento com Ashley. E, apesar do acesso, a demissão do técnico Chris Hughton pouco depois causou mais controvérsia. Alan Pardew fez um bom trabalho no início e colocou os alvinegros às portas da Champions, mas a sequência não se manteria.

A tentativa de vender os naming rights do St. James’ Park, as propagandas excessivas da Sports Direct (usando o Newcastle para alavancar o negócio pessoal), os contratos com patrocinadores controversos, a escolha de diretores rejeitados pela torcida, o aumento das dívidas e a queda nas receitas só aumentaram as rusgas com Mike Ashley. Em 2015, grupos de torcedores criaram uma camisa “independente”, para escancarar sua insatisfação com a gestão. Outro caso grave aconteceu com Jonás Gutiérrez, primeiro ao não receber o devido apoio do clube durante o tratamento de um câncer nos testículos, e então dispensado como um qualquer apenas cinco dias depois de salvar o time do descenso. O argentino teve amplo apoio dos torcedores, ganhando também um processo contra a diretoria na justiça britânica. Já em 2016, o novo rebaixamento se consumou. O acesso, com Rafa Benítez, soou como obrigação. A deixa para Ashley sair de cena.

Resta saber qual será a postura do novo dono. A impressão entre os torcedores, de qualquer forma, é a de que não poderá aparecer alguém pior do que Ashley. Apesar das temporadas recentes na parte inferior da tabela e na Championship, o Newcastle oferece bases sólidas. É um clube tradicional, que possui uma torcida extremamente fanática e costuma colocar mais de 50 mil por jogo no St. James’ Park. Em 2015/16, os alvinegros apareciam no 21° posto da Football Money League, entre os clubes com maiores receitas do mundo, e chegaram a figurar até mesmo no Top 10 em meados da década passada. Nesta temporada, demonstram ter forças para não lutar contra o rebaixamento e contam com um técnico referendado, o que transmite estabilidade ao mercado.

Os potenciais compradores devem saber que o apoio imediato pode ser grande. Mas também precisam ter consciência de que assumem um clube de torcida extremamente cansada pela falta de perspectivas, que pode aumentar a pressão com o mínimo sinal de ingerência. O novo proprietário será bem-vindo, desde que trate com cuidado o maior bem da massa alvinegra. Além do investimento no elenco em si, pede-se uma melhora nas estruturas e nas categorias de base – que, em outros tempos, já renderam tantos ídolos aos Magpies. O retorno à parte de cima da tabela e a eventual classificação às copas europeias seria a sequência deste processo. A torcida só espera que o clube não se torne mais uma vez um mero brinquedo nas mãos de um aventureiro.