O Estádio Panatenaico tornaria-se novamente o epicentro do esporte mundial naquele verão de 2004. A arena ateniense reconta uma história que começa no Século VI a.C., quando as primeiras competições esportivas ocorriam no local. O monumento construído totalmente em mármore reduziu-se a ruínas ao longo dos séculos, mas seria reerguido. Ali está o berço do esporte olímpico moderno, palco da primeira edição das Olimpíadas, em 1896. Exatos 108 anos depois, os Jogos retornariam à velha casa. O Panatenaico não seria o palco principal, mas recebeu algumas competições. Porém, semanas antes que a pira fosse acesa, as estruturas do estádio sentiram um tremor inédito. Mais de 50 mil pessoas estavam reunidas em suas tribunas, prontas a uma festa pagã. Venerariam 11 mortais transformados em deuses. Em 5 de julho de 2004, o Panatenaico abrigou uma das celebrações mais estrondosas que o esporte já viu. A loucura era compreensível: de forma surreal, a seleção grega erguia a taça da Eurocopa.

No mármore do Panatenaico não estavam apenas torcedores eufóricos. Também se uniam milhares de gregos incrédulos com o que ocorrera no dia anterior, em Lisboa. Precisavam se certificar que tudo aquilo era verdade, tomando um choque de realidade em forma de som e fúria. A Grécia, que saíra de casa para não dar vexame, reaparecia com o maior dos prêmios. No restante da Europa, ecoavam críticas a um time extremamente defensivo, de futebol limitado e pouco repertório. Em Atenas e nos demais cantos do mundo onde houvesse um grego, todavia, essas palavras não importavam. Prevalecia o orgulho de um povo, completamente fanático por futebol, que garantia o seu pedacinho de história com uma epopeia inimaginável. O Panatenaico era mesmo o lugar perfeito para receber os campeões da Euro 2004.

O homem que tirou a seleção da insignificância

A Grécia, por mais que ame o futebol com toda a sua alma, atravessou o Século XX sem contar com uma seleção significativa. A equipe nacional teve o seu lampejo em 1980, quando derrubou Hungria e União Soviética nas eliminatórias da Eurocopa, mas não foi além de um empate com a Alemanha Ocidental na fase final do torneio. Pior, em 1994, os gregos até conseguiram se classificar à Copa do Mundo, mas terminaram na última colocação geral. Não anotaram um ponto, não marcaram um gol sequer e ainda buscaram a bola dez vezes no fundo das redes. Ser bom coadjuvante, naquela época, já representava uma conquista para os helênicos. Ficar no quase durante a campanha à Copa de 1998 ou à Euro 2000 era digno de nota.

A transformação da Grécia em uma Cinderela com pés de ogro, no entanto, necessitava de um chacoalho. Ele aconteceu em 2001, durante as Eliminatórias para a Copa de 2002. Ninguém esperava que os gregos fizessem muita coisa, sorteados em um grupo que contava com Alemanha e Inglaterra. Mesmo assim, o que se notava era um time bagunçado e em perene crise. Sem mais chances de classificação, Vassilis Daniil deixou o comando da equipe e a federação já preparava a transição ao futuro trazendo um nome de peso. Otto Rehhagel, alemão de 63 anos, seria o novo responsável por conduzir o trabalho.

Rehhagel tinha uma história que falava por si. O alemão é um dos personagens mais simbólicos que já passaram pela Bundesliga. Defensor durão com a camisa do Kaiserslautern, iniciou sua trajetória como treinador na década de 1970. Passou por Saarbrücken e Kickers Offenbach, até ganhar a chance de comandar o Borussia Dortmund a partir de 1976. Os aurinegros viviam tempos modestos, mas nada que justificasse o desastre vivido na última rodada de 1977/78. O BVB sofreu a maior goleada de sua história, engolindo 12 gols de um Borussia Mönchengladbach que dependia do saldo para ficar com o troféu. A Salva de Prata não foi para os Potros. Em compensação, Rehhagel perdeu o emprego no dia seguinte.

Aquela goleada acachapante certamente ofereceu pesadelos cruéis a Otto Rehhagel. E o veterano daria a volta por cima nos anos seguintes de sua carreira. Campeão da Copa da Alemanha em 1979, à frente do Fortuna Düsseldorf, se eternizaria à frente do Werder Bremen a partir de 1981. Os Verdes contaram com vários craques no período e cederam diversos jogadores à seleção alemã. Contudo, o seu comandante era reconhecido pela mentalidade defensiva que aplicava no jogo. Sua estratégia consistia basicamente em fechar a casinha atrás e esperar o momento certo para atacar. Foi assim que colocou o Bremen como uma potência nacional. Em 14 anos de clube, o Vizeadmiral conquistou dois títulos da Bundesliga e manteve a equipe como figurinha carimbada nas competições europeias, a ponto de faturar também a Recopa em 1992.

O sucesso inegável à frente do Werder Bremen ofereceu uma grande oportunidade a Rehhagel em 1995: ele seria o novo comandante do Bayern. Os bávaros realizaram investimentos e ofereceram estrelas ao técnico. Entretanto, seu estilo de jogo resguardado não combinou nada com a equipe, da mesma maneira que sua personalidade disciplinadora não se casava com a vida cosmopolita de Munique. Seria demitido meses depois. Teria a chance de voltar para casa em 1996, ao assumir o Kaiserslautern, rebaixado à segunda divisão. À frente dos Diabos Vermelhos, o Vizeadmiral não só assegurou o acesso, como emendou a conquista da Bundesliga logo no retorno à elite. Permaneceu no Estádio Fritz Walter até 2000, quando entrou em rota de colisão com a diretoria. Naquele momento, ficava claro qual o tipo de trabalho ideal ao veterano.

Quando a Grécia acertou com Rehhagel, sabia o que trazia. Ganhava um treinador durão e um tanto quanto antiquado ao “futebol moderno”, mas que sabia conquistar a confiança de seus jogadores e extrair o máximo deles. Mais do que isso, era alguém capaz de fazer equipes limitadas se superarem. Parecia animador, certo? Bem, não seria exatamente assim, ao menos no primeiro momento. A estreia de Rehhagel aconteceu em 5 de setembro de 2001. Seu time visitava Helsinque e encarava a Finlândia, que cumpria boa campanha naquelas Eliminatórias. Só que o técnico de defesas ferrenhas terminaria trucidado por Mikael Forssell e Jari Litmanen. Os finlandeses golearam por 5 a 1, o que ridicularizava ainda mais os helênicos. Era um baque à própria mediocridade do time.

Não demorou para Rehhagel perceber que lidava com um vestiário completamente rachado. A rivalidade entre AEK, Olympiacos e Panathinaikos superava as partidas do Campeonato Grego, contaminando também a seleção. Os jogadores se dividiam em grupos conforme seus clubes e isso atravancava o desenvolvimento da equipe nacional. Por isso, o treinador não demorou a afastar sua laranja podre. O lateral Grigoris Georgatos era um dos principais nomes do futebol helênico no momento, defendendo a Internazionale. Seria ele o primeiro a bater de frente com o alemão, após instigar uma briga logo após a goleada em Helsinque. Aquele seria o último jogo do defensor com a camisa grega. Rehhagel trabalharia bastante, a partir de então, para formar primeiro uma unidade entre seus atletas.

“Ele tem uma diferente mentalidade e trouxe isso para nós. Entendemos que a primeira coisa que tínhamos que pensar era na Grécia, em jogar por nosso país, não apenas pelos nossos clubes”, declarou Takis Fyssas, lateral daquela Grécia, à Sports Illustrated. “Era como uma família. Não existia essa de seleção com 55 jogadores. Nós tínhamos mais ou menos os mesmos 20 no elenco quase sempre, então éramos muito próximos. Nós podíamos nos sacrificar uns pelos outros”.

Um mês depois do baile tomado em Helsinque, Rehhagel faria o seu segundo jogo à frente da Grécia. Encararia a Inglaterra em Old Trafford, com os anfitriões dependendo do resultado para se classificar diretamente à Copa do Mundo. Àquela altura, o medo era tomar outro vareio diante de um adversário notavelmente mais forte, que em setembro havia enfiado 5 a 1 sobre a Alemanha em Munique. O trabalho mental do treinador com seus jogadores, a despeito das reticências, daria o seu primeiro grande resultado. Formou-se uma verdadeira unidade na seleção grega, sólida na defesa e eficiente no ataque. Os visitantes não só seguraram os ingleses, como também ficaram por duas vezes à frente no placar. Os Three Lions arrancaram o empate por 2 a 2 apenas aos 48 do segundo tempo, no mais célebre dos gols de falta de David Beckham. O resultado que confirmou a Inglaterra no Mundial, por outro lado, marcaria o início de uma uma nova era ao futebol grego.

A união era a força

As coisas ainda não mudariam da noite para o dia na Grécia. A campanha do time rumo à Euro 2004 não começou tão bem. Raúl e Valerón marcaram os gols da Espanha em Atenas, no triunfo por 2 a 0 durante a primeira rodada do qualificatório. Já no segundo compromisso, outro revés, com a Ucrânia garantindo o triunfo também por 2 a 0 em Kiev. Os gregos reagiram só depois, para que ninguém conseguisse mais segurá-los. Nos seis jogos restantes, o time de Otto Rehhagel somou seis vitórias. Terminou na liderança do Grupo 6, retornando à Eurocopa após 24 anos e relegando a Espanha à repescagem.

A partida mais importante da arrancada aconteceu em La Romareda. O reencontro com a Espanha abriu o returno e a Fúria sobrava na liderança, com quatro pontos de vantagem em relação à Grécia. Iñaki Sáez escalou seu time com força máxima, o que incluía Raúl, Morientes, Vicente e outros jogadores renomados. Os gregos ganhariam por seu placar padrão: 1 a 0, gol de Stelios Giannakopoulos, em tiro rasante que Casillas não pôde deter. Seria este o chute que abriu o caminho à façanha em Portugal.

Passagens carimbadas, o elenco convocado por Otto Rehhagel para a Eurocopa não chamava muita atenção. Dos 23 jogadores, 15 atuavam no Campeonato Grego.  Dono do título naquela temporada, o Panathinaikos fornecia seis atletas, contra cinco do AEK Atenas e quatro do Olympiacos. Mesmo os jogadores que atuavam fora do país não eram muito expressivos nas principais ligas da Europa.

Traianos Dellas e Giorgos Karagounis serviam como peças na rotação de Roma e Internazionale, respectivamente, enquanto Zisis Vryzas disputara a Serie B com a Fiorentina. Nikos Dabizas teve sua reputação no Newcastle, mas havia caído com o Leicester naquele ano. Angelos Charisteas era um atacante de pouca projeção no Werder Bremen, enquanto Demis Nikolaidis tentava a duras penas manter sua fama de artilheiro no Atlético de Madrid. Takis Fyssas também esquentava o banco no Benfica. Já o único titular absoluto era Stelios Giannakopoulos, recém-chegado ao Bolton após uma idolatrada trajetória no Olympiacos.

O diferencial da Grécia não seria um atleta, e sim o conjunto, a mentalidade construída por Rehhagel. Sobretudo, a base tática que conseguiu implementar. O alemão não era dos treinadores mais arrojados, mas sabia extrair o melhor de seus jogadores dentro de seu ferrolho. Eram times moldados para bloquear na maior parte do tempo e também para aproveitar os contra-ataques. Não à toa, o comandante costumava mudar a formação conforme a estratégia de seus oponentes e não abria mão de uma marcação homem a homem nos craques rivais. Leitura de jogo não faltava. Além do mais, as bolas paradas eram treinadas à exaustão, para garantir o resultado na mínima chance. Era o que Rehhagel consagrou como o ‘kontrollierte Offensive’ – o ataque controlado, à espreita do instante cirúrgico. Em um elenco como o grego, sem talentos desequilibrantes, ele fazia suco com os limões que tinha em mãos.

“Equipe unida, defesa brilhante, tática apropriada e confiança crescente. Embora os gregos fossem desprovidos de uma estrela, estes atributos ajudaram a fazer o que parecia impossível. Era um time em todos os sentidos da palavra. Um verdadeiro bando de irmãos, que se aproximou ao longo do torneio. Nada de egos, a unidade do time era a verdadeira chave. Mesmo em momentos difíceis, eles se uniram. O espírito de luta era algo para se contemplar. Eles ficaram em situações difíceis várias vezes, mas não puderam ser batidos. Para os torcedores gregos, a habilidade daquela equipe em se manter em pé e lutar foi, talvez, uma das melhores lembranças”, avaliou o jornalista George Tsitsonis, que cobriu a Euro 2004, para o Sport360.

A ausência de jogadores renomados, ainda assim, não impedia aquela Grécia de possuir os seus talentos – dentro de suas limitações, é claro. Antonio Nikopolidis era um goleiro seguro, entre os maiores nomes da seleção nacional. Giorkas Seitaridis e Takis Fyssas voaram baixo no torneio pelo apoio nas laterais. Kostas Katsouranis era o jovem ponto de equilíbrio do meio-campo, enquanto Angelos Basinas também oferecia muito empenho na faixa central. Entre os que atuavam fora do país, Dellas comandava o miolo de zaga, Karagounis dava o toque de qualidade na condução do meio e Charisteas era um atacante que podia jogar de diferentes maneiras para incomodar o adversário. Mas o mais próximo que os gregos tinham para chamar de “craque do time” era o capitão, Theodoros Zagorakis.

Aos 33 anos, Zagorakis tinha na Eurocopa a grande chance de sua carreira. O bonde de atuar em uma grande liga já tinha passado. O meio-campista teve uma estadia curta no Leicester durante o fim dos anos 1990, onde conquistou uma Copa da Liga e ganhou o respeito dos torcedores por sua postura aguerrida. Apesar disso, sem grande sequência em Filbert Street, os melhores anos de sua carreira se desenrolariam no Campeonato Grego, entre o PAOK e o AEK. Próximo dos 100 jogos pela seleção na época, o capitão disputaria sua primeira competição internacional com os helênicos. Colocava à disposição sua enorme combatividade, entre a dedicação na marcação e a força nas chegadas ao ataque. Mas não era exatamente uma estrela para gerar expectativas antes do torneio.

O Navio Pirata atraca em Porto

Durante a campanha nas eliminatórias, somando também os amistosos, a Grécia chegou a encadear uma invencibilidade de 15 partidas. De outubro de 2002 a maio de 2004, permaneceu como um time imbatível, vencendo também Noruega, Suécia, Bulgária e Suíça. Chegaram até mesmo a visitar Portugal, em jogo que marcou a inauguração do Estádio Municipal de Aveiro em 2003. Mesmo com um jogador a mais desde os 30 do primeiro tempo, quando Zagorakis defendeu com a mão uma cabeçada dentro da área, os lusitanos penaram para destravar a retranca grega. Figo perdeu um pênalti e só no segundo tempo é que os anfitriões buscaram o empate por 1 a 1. Não seria um bom presságio.

A Grécia, de toda a forma, voltou à realidade justamente nos amistosos preparatórios. A invencibilidade seria rompida de maneira incontestável, em goleada da Holanda por 4 a 0, na qual os espaços sobraram dentro da área. Como se não bastasse, os helênicos ainda perderam para a Polônia, que sequer havia avançado ao torneio. E o primeiro compromisso ao time de Otto Rehhagel já teria o seu peso. O sorteio guardou à Grécia o papel de desafiante dos anfitriões na partida de abertura da Eurocopa. Seriam os antagonistas contra Portugal, sob os olhares de todo o continente.

“O objetivo no início da competição era ganhar um jogo. Apenas um jogo. Era algo que nenhuma das seleções gregas tinha feito até então em competições internacionais. Mesmo o time da Copa de 1994 não havia conseguido nada. Isso já seria considerado um sucesso: vencer somente uma vez”, afirmaria Vassilios Tsiartas, meio-campista daquela equipe, em entrevista à ESPN americana em 2016. Assim a Grécia era vista no Grupo A da Eurocopa, contra Portugal, Espanha e Rússia. Naquele momento, o impensável título dos helênicos pagava 250 a cada 1 investido.

O palco da primeira partida não parecia mais propício à seleção de Portugal. O Estádio do Dragão estava em alta, também por causa de uma surpresa que ocorrera semanas antes. Afinal, aquela era a casa do vigente campeão europeu, graças ao segundo título do Porto na Champions League. Os portistas ajudavam a compor a base principal de Felipão, ainda que os destaques fossem outros. As preocupações se concentravam em Figo e Rui Costa, principais estrelas de sua geração, com moral em grandes clubes do continente. O favoritismo era óbvio, contra uma Grécia sem lá grandes atrativos.

Bastaram poucos minutos, porém, para que a Europa aprendesse os primeiros nomes do time de Otto Rehhagel. Mais exatamente, sete, tempo que demorou para os gregos abrirem o placar. Paulo Ferreira saiu jogando errado e entregou o presente nos pés de Karagounis. O meio-campista tinha o campo aberto para avançar e, na entrada da área, arriscou o chute certeiro que morreria no canto da meta de Ricardo.

Com a vantagem estabelecida, a Grécia continuou assustando através de seu jogo direto. A exibição ruim levou Felipão a fazer duas alterações na volta para o segundo tempo: mandou a campo Deco e Cristiano Ronaldo. Não adiantou. Logo aos seis minutos, os helênicos já ampliavam. Seitaridis invadia a área, quando acabou atropelado por CR17. Basinas cobrou com muita segurança. Portugal tentou bastante, mas só conseguiu descontar nos acréscimos, em cabeçada de Ronaldo. A vitória por 2 a 1 já cumpria o objetivo inicial dos gregos.

Antes que a bola rolasse, o Estádio do Dragão havia sido palco de uma pomposa cerimônia de abertura. A festa celebrava principalmente as Grandes Navegações, resgatando a história de Portugal. A apresentação inspirou os jornalistas gregos ao término da partida. Naquele dia, nascia o sugestivo apelido que passou a acompanhar a seleção do país: o Navio Pirata, que desembarcou no Porto e pilhou os anfitriões. Além do mais, em outros cantos do planeta, a vitória helênica era recebida com fascínio. O time ainda não provocava nenhuma ojeriza, tratado tal qual o Senegal que desbancou a França na abertura em 2002.

“Talvez os portugueses tenham acreditado que aquilo era uma festa. Nós tivemos uma opinião totalmente diferente. Sabíamos que, se começássemos bem o torneio, poderíamos avançar. E isso aconteceu. Estávamos nos sentindo bem. Eu lembro que jogamos melhor que Portugal. Eles tinham a torcida do lado deles, mais nomes ilustres. Mas no futebol também há outras coisas que importam, e o time grego demonstrou isso”, relembrou Zagorakis, em 2016, ao site da Uefa.

A noite ainda seria longa para a Grécia naquele 12 de junho. Os jogadores sequer dormiram no retorno à concentração. Atravessaram a madrugada assistindo ao vídeo do jogo e ouvindo as narrações das rádios gregas. A emoção estava à flor da pele. “Essa vitória nos libertou. A gente se sentiu livre”, contou Tsiartas, à ESPN americana. O modesto objetivo inicial do Navio Pirata estava cumprido. A partir daquele instante, tudo o que acontecesse na Eurocopa seria lucro aos azarões. Mas eles não se acomodariam por causa disso. Existiam outros adversários renomados para atemorizar.

Na segunda rodada, a Grécia se reencontrou com a Espanha. A Fúria não atravessava o seu melhor momento, mas seguia com um time respeitável, praticamente repetindo a escalação da derrota em Zaragoza um ano antes. Até parecia que os espanhóis escreveriam uma história diferente desta vez. Terminaram o primeiro tempo em vantagem, graças a uma roubada de bola de Raúl dentro da área grega, passando de calcanhar para Morientes concluir. Somente no segundo tempo é que os gregos arrancaram o empate. Zagorakis inverteu uma bola absurda e encontrou Charisteas livre na área. O artilheiro dominou, antes de bater por baixo de Casillas. O placar de 1 a 1 mantinha as pretensões do Navio Pirata.

Em teoria, a Grécia faria o seu jogo mais tranquilo na rodada final. Enquanto Espanha e Portugal se digladiavam no Alvalade, os alviazuis avançariam com um simples empate contra a eliminada Rússia. No entanto, por muito pouco o sonho dos comandados de Otto Rehhagel não acabou interrompido naquela noite. Em 17 minutos, os russos já abriam dois gols de vantagem, graças a uma jogada de ligação direta e a uma cobrança de escanteio. Experimentando do próprio veneno, os gregos conseguiram descontar no final do primeiro tempo, em bola ajeitada por Charisteas para Vryzas definir. Ainda assim, o empate sem gols entre os irmãos ibéricos fazia o Navio Pirata afundar.

A sorte da Grécia mudou apenas no segundo tempo, e não para evitar a derrota por 2 a 1 no Estádio Algarve. Nuno Gomes seria o herói dos helênicos. O centroavante determinou a vitória portuguesa por 1 a 0, que garantiu sua seleção no primeiro posto do Grupo A. Com o resultado, gregos e espanhóis somavam quatro pontos, mas com vantagem no número de gols marcados aos comandados de Rehhagel. Eles estariam nos mata-matas. A mera classificação já provocou uma comemoração emocionada no gramado, marcada pelo choro de Zagorakis. “O jogo contra a Rússia foi crucial. Tivemos meia hora péssima, nosso pior momento no torneio, e encontramos forças para nos recuperar. Depois disso, estávamos nas quartas de final e sabíamos que nos mata-matas tudo pode acontecer”, explicou Katsouranis, ao Sport360.

Adeus aos campeões e ao melhor time da Euro

A Euro 2004, cabe lembrar, vinha sendo pródiga em surpresas desde a fase de grupos. A Itália seria eliminada após um tríplice empate contra Suécia e Dinamarca no Grupo C. Já no Grupo D, a Alemanha de Rudi Völler despencou sem uma vitória sequer e, pior, com direito a um vexatório empate contra a incipiente Letônia – sim, a Letônia se classificou àquela Eurocopa. A sensação era a República Tcheca, com nove pontos naquela mesma chave, na qual ainda havia a Holanda. Somente no Grupo B é que a “ordem natural” se manteve, com a soberania de França e Inglaterra. Os Bleus seriam justamente os adversários do Navio Pirata.

Naquele momento, a Copa de 2002 parecia um mero acidente de percurso à França. A equipe de Jacques Santini sustentava uma invencibilidade de 21 partidas e mantinha alguns dos melhores jogadores do mundo em seu elenco.  Zidane era o nome que qualquer adversário precisava ouvir para sentir calafrios, em meio-campo composto também por Makélélé e Pirès. Mais à frente, a dupla letal composta por Henry e Trezeguet. Parecia improvável que a Grécia conseguisse suportar um desafio desta grandeza. Então, a perspicácia de Otto Rehhagel funcionou mais do que nunca.

Henry e Trezeguet receberam marcações individuais no Alvalade. Além disso, as compactas linhas de marcação da Grécia limitavam o toque de bola da França. Os Bleus sentiam falta do lesionado Vieira, substituído por Dacourt, o que diminuía a presença física na faixa central. Desde o primeiro tempo, o Navio Pirata indicava a possibilidade de conquistar mais um porto. Desencontrados, os franceses mal ameaçavam a meta de Nikopolidis. Barthez é quem segurava o placar zerado, com importantes defesas em arremates de Katsouranis e Fyssas.

Durante os primeiros minutos da etapa complementar, a França esboçou uma história diferente. Passou a encontrar mais espaços e por pouco não abriu o placar. Uma esperança esmagada aos 20 minutos, quando a Grécia garantiu a vitória por 1 a 0. Zagorakis fazia grande partida naquela noite, com espaço para avançar pela direita. Passou por Lizarazu e, ao invadir a área, efetuou o cruzamento preciso para Charisteas. O centroavante desferiu uma cabeçada de manual, firme, e mandou a bola na gaveta de Barthez. Nos minutos restantes, a França se encheu de atacantes, com as entradas de Saha e Wiltord. Não quebraria a retranca alviazul. Henry esteve próximo de empatar, sem precisão suficiente. A epopeia grega se ampliava.

A classificação da Grécia não apenas desbancava os campeões da Euro 2000, como também significou o fim de ciclo a jogadores importantes, incluindo Lizarazu e Desailly. Apesar disso, o nível de desafio pareceu aumentar rumo às semifinais. A República Tcheca jogava o fino e mantinha os 100% de aproveitamento na competição. Não tomou conhecimento da Dinamarca nas quartas, com a vitória inapelável por 3 a 0. A defesa tinha Cech em ótima forma, além da proteção de Galásek. No meio, Poborsky e Rosicky possuíam enorme importância na construção. Baros e Koller se complementavam na linha de frente, em ótima forma. Mas o homem que todos queriam aplaudir era mesmo Nedved, ganhador da Bola de Ouro no ano anterior, doutrinando com sua enorme qualidade na faixa central.

Em contraste à Grécia, a República Tcheca possuía uma equipe bastante ofensiva. Karel Brückner montava a seu time com três meias e dois atacantes. A paciência dos gregos seria testada no retorno ao Estádio do Dragão. Rehhagel preservou sua estratégia, botando marcação individual sobre os dois homens de frente, mas veria seu time sofrer ameaças constantes de um adversário que aliava técnica e atitude. O sonho, aliás, quase desmoronou logo aos dois minutos. Rosicky não precisou de muito tempo para carimbar o travessão. Mas, na sequência da partida, os alviazuis puderam contar com Nikopolidis. O goleiro viveu uma jornada inspirada. Apenas no primeiro tempo, realizou defesas vitais contra Jankulovski e Nedved. Segurava o placar, enquanto Cech só teve trabalho em cobrança de falta de Karagounis.

O instante decisivo daquela semifinal aconteceu aos 40 minutos. Não seria um gol, mas abalaria a confiança dos tchecos tanto quanto. Nedved se lesionou e precisou deixar o campo para a entrada de Smicer. Os gregos, que já cresciam na partida, se inflaram com a ausência do craque rival. Enquanto isso, os favoritos perdiam forças, sem a mesma fluidez em seu jogo. No coração da defesa grega, Dellas se provava um gigante. O “líbero” no sistema de Rehhagel conseguia proteger seu time e evitar a insistência constante nas bolas pelo alto. Ao longo do segundo tempo, as duas equipes pecavam pela imprecisão. Sobretudo a República Tcheca, colecionando oportunidades desperdiçadas.

O persistente placar zerado forçou a prorrogação. E a Grécia reviveu no momento certo. Cech virou protagonista, ao pegar as cabeçadas de Giannakopoulos e Dellas. Entretanto, o goleiro não teria o que fazer nos acréscimos do primeiro tempo extra. O substituto Tsiartas cobrou escanteio pela direita e Dellas completou no primeiro pau. O tento gerou uma comemoração ensandecida, pela vitória consumada por 1 a 0. Aquela Eurocopa instituiu a regra do ‘gol de prata’: se um time vencesse a etapa inicial da prorrogação, não seria necessário outro tempo extra. A medida não teria vida longa e aquele seria o único ‘gol de prata’ da história a decidir um jogo em grandes competições. Os gregos seriam felizardos até nisso, em instante que valeu como o velho ‘gol de ouro’.

A semifinal sequer recomeçou. A Grécia desfrutou o triunfo com a torcida que invadia as arquibancadas em Portugal, maioria no Estádio do Dragão, e exibia uma mostra de seu vibrante fanatismo. Loucura maior, contudo, ocorria em Atenas. Mais de 100 mil pessoas ocuparam a Praça Omonia para festejar a classificação à final. A seleção de parca tradição tinha a sua oportunidade para erguer a taça, encarando a revanche contra Portugal dentro do Estádio da Luz.

Gol de Charisteas

A decisão entre Portugal e Grécia acabou cercada por um longo debate antes que a bola rolasse. Não que acumulassem goleadas, mas os lusitanos exibiam um futebol mais consistente após a derrota na estreia e se apresentavam como favoritos ao título. Mais do que isso, eram tratados como queridinhos pela imprensa e até mesmo por figuras públicas. O embate com a Grécia virou uma cruzada contra o “anti-futebol”, este patinho feio extremamente competitivo, mas pouco agradável aos olhos. Presidente da Uefa na época, Michel Platini chegou a elogiar publicamente Portugal e República Tcheca pelo “estilo ofensivo”, sem nem mencionar o Navio Pirata. Era uma claríssima indireta ao azarão que não conseguia atrair tanta simpatia. “É a única zebra que todo mundo quer ver perder”, classificaria o jornal The Guardian, em suas páginas.

Às vésperas da final, um momento importante aconteceu no centro de treinamentos da Grécia. Os jogadores se reuniram no gramado para resolver suas diferenças e garantir união total no Estádio da Luz. Apesar do ótimo ambiente, existiam rusgas internas, até mesmo pelo tratamento mais ríspido conferido por Rehhagel a alguns atletas. Os gregos se abriram e deixaram para trás os problemas, focando na taça. “Todos nós admitimos que, se alguém nos dissesse antes do torneio que chegaríamos na final, teríamos aceitado, que não nos importaríamos em vencer ou perder. Já seria um sucesso especial. Mas, a partir do momento em que chegamos, estávamos muito determinados a dar o último passo. Saímos da reunião e sabíamos que precisávamos terminar o trabalho”, contou Fyssas, à ESPN.

Portugal vinha com um time diferente em relação à estreia. Deco se firmara na armação e Cristiano Ronaldo ocupava a ponta, ambos como titulares. Além disso, a Grécia perdera o seu respiro no meio-campo, diante da suspensão de Karagounis. Rehhagel voltou a adaptar o seu time, liberando os laterais para dar o combate a Figo e Cristiano Ronaldo. Além disso, Basinas e Katsouranis recuavam, o que dava liberdade a Zagorakis no apoio ao ataque. Mais à frente, enquanto Giannakopoulos garantia potência na ponta esquerda, Charisteas tinha liberdade para flutuar a partir da direita, com Vryzas servindo como homem de referência. Assim, o Navio Pirata frustraria os lusitanos outra vez.

Diante das trincheiras gregas, Portugal teria dificuldades para criar muitas chances durante o primeiro tempo. O lateral Miguel foi o primeiro a tentar, mas Nikopolidis desviou com a ponta dos dedos. Logo depois, Charisteas responderia do outro lado, ao sair de frente para o gol. Ricardo conseguiu abafar. O destaque ficava mesmo para a atuação segura da dupla de zaga formada por Dellas e Kapsis, que mal permitiu aos lusitanos invadirem a área. Mesmo sem conseguir finalizar, os helênicos eram mais perigosos em seus contragolpes.

Portugal reclamaria de um pênalti não anotado sobre Deco logo no início do segundo tempo. E, aos 12 minutos, a história se cumpriu. Seitaridis disparou pela direita e, marcado por Cristiano Ronaldo, descolou um escanteio. Basinas cobrou e Charisteas subiu mais do que Costinha. Acertou uma cabeçada forte, indefensável para Ricardo. A vitória por 1 a 0, a terceira consecutiva, a terceira com um gol pelo alto, se desenhava naquele momento.

A Seleção das Quinas não seria passiva na meia hora final do jogo – pelo contrário. Felipão colocou Rui Costa no lugar de Costinha e soltou o time, que passou a acumular oportunidades. Cristiano Ronaldo era quem mais tentava. O jovem soltou uma bomba, para defesa de Nikopolidis, antes de receber um bolão de Rui Costa. Em raro momento de desatenção da defesa grega, CR17 saiu de frente para o gol, somente com Nikopolidis à sua frente. O domínio ficou comprido e, quando o goleiro já saltava em seus pés, o ponta isolou o tiro. O desconsolo se escancarou em seu rosto. Era um Ronaldo bem diferente do que o mundo se acostumaria a ver, nervoso, sentindo o peso da ocasião. Certamente uma noite que moldou a sua ascensão.

Mas, entre vencedores e vencidos, os méritos maiores são da Grécia. Nikopolidis voltou a salvar, em batida cruzada de Ricardo Carvalho, enquanto a marcação apertada da defesa forçou Figo a mandar para fora um bom lance. Felipão tentou colocar Nuno Gomes na vaga de Pauleta, mas a ausência de dois centroavantes ao mesmo tempo rendeu críticas. O tal do “anti-futebol” triunfava de um jeito pouco agradável, mas inegavelmente eficaz. Dentre os 62 mil presentes no Estádio da Luz, 15 mil gregos já iniciavam a erupção que prosseguiria nos dias seguintes, não só em território grego, mas também nas comunidades expatriadas ao redor do planeta.

“As maiores cidades da Grécia vão ser incendiadas nesta noite!”, definiu Kapsis na saída de campo, à Sports Illustrated. “Talvez tivemos mais alma e coração nesta campanha. Não somos famosos, mas queríamos provar para todo mundo que temos um bom time. Este é o segredo: trabalhamos feito um time”. Uma mentalidade simples, e ao mesmo tempo tão produtiva. “O resultado diz que a Grécia bateu Portugal na final. Se você está jogando, tenta não perder. Não tenta jogar um futebol moderno e tomar de 5 a 0”, sentenciou.

Taça nas mãos, o capitão Zagorakis pensava além: “Quero parabenizar os jogadores. Nós provamos de novo que a alma grega é, e sempre será, nossa força. É o maior presente que Deus nos deu. Vamos levar esta taça para o povo grego ao redor do mundo. Acho que demos algo além de alegria. Demos um grande orgulho, que eles poderão levar consigo pelo resto de suas vidas”.

O futuro

Rehhagel, o Rei Otto, transformou-se em Midas. Seria o mais valorizado por aquela conquista, exatamente pela maneira como tirou a Grécia da mediocridade. “Deus é alemão”, tornou-se um cântico comum entre os torcedores gregos. O treinador receberia também o prêmio de “Grego do Ano”, exceção aberta a um estrangeiro. E o mais interessante aconteceu nas semanas seguintes. Depois da demissão de Rudi Völler, o veterano era o mais assediado para assumir a seleção alemã. Teria a chance de comandar seu país num Mundial dentro de casa. Era o favorito dos compatriotas, mesmo sob a desconfiança dos dirigentes. Convidado pela DFB, recusou o emprego. Preferiu se manter fiel aos helênicos.

“As diferenças diminuíram entre os grandes times e os menores. Sempre existiram surpresas. Lembre-se da Coreia do Norte na Copa de 1966. Desta vez, nós somos a surpresa. Alguém disse que nós seríamos como deuses na Grécia depois disso. Eu sei que os gregos exageram um bocado tanto na alegria quanto na tristeza, mas a Grécia fez história no futebol. É sensacional. Gostaria de parabenizar meu time e todos os envolvidos. Nós desenvolvemos este time durante três anos e agora vemos o resultado. Foi uma grande conquista a classificação à Euro. Estávamos interessados apenas no primeiro jogo, mas seguimos em frente. Tivemos um ótimo torneio e, ao final, somos campeões”, declarou Rehhagel, após a partida.

Apesar da média de idade elevada, outros personagens daquela Grécia se valorizaram após o título da Eurocopa. O futebol português, inclusive, entrou na onda e comprou vários de seus algozes. Fyssas, o único dos titulares que já atuava no país, seguiu no Benfica até 2005, se mudando depois ao Hearts. Os encarnados também compraram Karagounis em 2005 e Katsouranis em 2006, embora ambos só tenham recuperado o melhor futebol ao se transferirem para o Panathinaikos no final da década. Já Seitaridis chegou ao Porto, em rápida passagem até se firmar no Atlético de Madrid.

Dos nomes mais relevantes daquela Grécia, Giannakopoulos foi a exceção que permaneceu no clube em que estava por um longo tempo. Virou um dos ídolos do Bolton em sua estadia na Premier League. Nikopolidis, por exemplo, trocou o Panathinaikos pelo Olympiacos em uma polêmica transação – e empilhou taças no novo clube. Kapsis teve uma rápida estadia no Bordeaux, enquanto Dellas seguiu na Roma, voltando um ano depois ao AEK. Zagorakis jogaria por uma temporada no Bologna, até encerrar a carreira no PAOK, do qual virou até presidente. Basinas defenderia o Mallorca por três anos, enquanto Vryzas rodou por Celta e Torino, até retornar ao país. Tsiartas teve uma esquecida passagem pelo Colônia.

O maior andarilho daquela Grécia seria justamente o herói da final, Charisteas, que se valeu da fama para rodar a Europa. O centroavante ganhou um voto de confiança do Werder Bremen e o bom início de temporada o levou ao Ajax em 2005, trazido como substituto de Ibrahimovic. Não se encaixou tão bem em Amsterdã e se mudou ao rival Feyenoord, o que não foi bem aceito pela torcida em Roterdã. Sem agradar, voltou à Alemanha. Passou ainda por Nuremberg, Bayer Leverkusen, Schalke 04, Arles-Avignon, Panetolikos e Al-Nassr. Não deixou tantas saudades. Sua idolatria limitou-se mesmo à seleção, da qual se tornaria o segundo maior artilheiro da história, com 25 gols anotados.

A própria Grécia não emplacou da maneira como muitos esperavam. O time não conseguiu a classificação à Copa de 2006, superada por Ucrânia, Turquia e Dinamarca, em acirradíssima chave. Rehhagel colocou o time na Euro 2008, sem conquistar uma vitória sequer, e também na Copa de 2010, na qual ao menos bateu a Nigéria. O melhor momento do Navio Pirata desde o título europeu seria, curiosamente, sob as ordens de um timoneiro português. Fernando Santos assumiu a transição e criou um time menos defensivo, liderado pelos já veteranos Karagounis e Katsouranis. Avançou às quartas de final da Euro 2012 e às oitavas da Copa de 2014. Desde sua saída, porém, os alviazuis definham. Não compareceram mais às competições internacionais e, pior, passaram a acumular derrotas vexatórias contra adversários inferiores. O legado daquela Grécia de 2004 não se contém apenas a um país.

A eternidade

Antes de viver o futuro modesto, no entanto, aquela Grécia teve o seu direito à eternidade. E quão saboroso se tornou o retorno do elenco para casa. O ônibus que levava os jogadores dizia em sua lataria: “A Grécia Antiga tem 12 deuses. A Grécia Moderna, 11”. Exatamente assim foram tratados em 5 de julho, diante de uma multidão que saiu para cortejá-los nas ruas de Atenas. Até a Acrópole se iluminou com sinalizadores. Já a apoteose no Estádio Panatenaico contou com 50 mil nas arquibancadas de mármore, mas outros 50 mil nos arredores, que não conseguiram ocupar as tribunas. Seria uma noite fulgurante na capital, entre o azul das bandeiras e o vermelho dos fogos. Cenas parecidas, em menor escala, se repetiriam no restante do país e em outras cidades do mundo com comunidades gregas significativas – em especial, na Austrália e nos Estados Unidos.

“Não é muito frequente que futebolistas possam fazer algo por seu país. A coisa mais importante para todos nós foi que pudéssemos dar uma alegria a todos os nossos cidadãos, todos os nossos compatriotas gregos. As pessoas ainda me param na rua para agradecer. As pessoas seguem se lembrando disso. Eu ainda estou incrivelmente orgulhoso de ter sido envolvido nisso, por saber que meu nome está na história”, comentou Tsiartas, à ESPN americana. A façanha teve uma repercussão maior. Em tempos nos quais a Grécia era bastante criticada pelos atrasos nas obras olímpicas, a motivação pelo título se refletiu na empolgação com o novo grande evento realizado no país. Seriam semanas históricas ao esporte helênico.

Os jogadores, ainda assim, tiveram uma comemoração particular ao final daquela semana. O lateral Fyssas estava com casamento marcado para 9 de julho. Antes que a Euro começasse, sua esposa manifestou sua preocupação, caso a competição atrapalhasse o cronograma ou mesmo a presença dos companheiros de seleção na festa. Fyssas a tranquilizou, garantindo que já estaria de volta no final de junho. Para a alegria do casal, os preparativos finais precisaram ocorrer às pressas. Na data marcada, cinco dias após a conquista em Lisboa, o elenco inteiro estava presente para celebrar o matrimônio do companheiro. E com uma oferta especial: a taça.

“O presidente da federação colocou o troféu da Eurocopa na mesa do meu casamento. Nós não éramos os únicos nos casando na praia de Vouliagmeni naquele dia. Rolaram algumas outras cerimônias por perto. Todas as pessoas das outras festas queriam vir e tirar uma foto com a taça. Todo mundo se esqueceu da noiva e do noivo. Nossa festa começou com 300 convidados. Às duas da manhã, na praia, havia talvez mil pessoas, todo mundo celebrando com a gente”, relembrou Fyssas, à ESPN. A Grécia inteira estava ali, afinal.