A relação com um clube de futebol se constrói através de símbolos. O escudo que se carrega no peito, a camisa que vira a segunda pele, a torcida que representa uma comunidade, os ídolos que compõem a história recontada. Dentro desta lista de símbolos, no entanto, nenhum é mais importante que o estádio. Nas arquibancadas, cria-se uma relação de pertencimento. Por lá é que as memórias são construídas, as emoções são vividas, as amizades se fortalecem. A quem não frequenta o templo religiosamente, o estádio se torna fonte do imaginário e destino desejado a uma futura peregrinação. Ainda assim, é lá que a real grandeza de uma agremiação se erige. E, por isso, é tão bom ter um canto para chamar de “casa”, que abrigue toda essa paixão. Ao Náutico, o domingo se tornou inesquecível pelo retorno a este lugar. Pela reabertura aos Aflitos, que nunca deixou de preencher os sonhos de sua torcida, enquanto ela se sentia estrangeira na Arena Pernambuco. A volta para o verdadeiro lar.

Sofrer com os maus resultados nos últimos anos, perdendo representatividade nas divisões do Campeonato Brasileiro, foi apenas uma consequência da distância dos Aflitos. Os descensos até maltrataram o coração do torcedor alvirrubro, mas não era isso que martelava a sua cabeça. Era a falta de um ambiente realmente ligado ao clube. O calor da massa, um traço tão marcante no velho caldeirão. A proximidade entre o campo e a torcida, algo que vai além das meras metragens, que se construiu ao longo de décadas. O Náutico não seria o Náutico sem os Aflitos. E não se sentia tão Náutico em suas longas viagens à gélida Arena Pernambuco, um projeto que até pode ser bonito no papel, mas foi uma das obras mais desnecessárias da Copa do Mundo de 2014.

O passo à frente na arenização representou, ao mesmo tempo, muitos passos para trás na história do Timbu. Abandonado ao longo de quase cinco anos, o Eládio de Barros Carvalho aparecia em estado deplorável. Por isso mesmo, seria necessário planejar uma ampla reforma à velha casa, avaliada em R$5 milhões. Este, de fato, o verdadeiro passo à frente da diretoria do Náutico. A receita para as obras foi angariada também através de doações, de campanhas e de parcerias. A restruturação se alongou desde 2017, repensando não apenas o campo, como também melhorando os acessos ao local. A mais singela beleza em todo o projeto, de qualquer forma, estava ao redor: nas arquibancadas. As cadeiras, as cores e a cobertura dão um novo visual ao estádio que completou seu centenário no último ano, mas não descaracterizaram a construção imaterial que se prolongou nestas dez décadas.

Afinal, o mais legal dos Aflitos, além de todo o simbolismo, é aquilo que o lar continua sendo. Em tempos nos quais se vendem planos de papel sobre arenas ultramodernas, mas que tantas vezes afastam os torcedores de sua identidade, o Aflitos segue como um estádio que preserva a sua alma como estádio. Sim, eu sei que esta afirmação pode soar banal, embora rara, enquanto os dirigentes relutam a pensar o óbvio. Um estádio não precisa representar a modernidade através de instalações suntuosas. Ele precisa se adaptar à realidade de um clube. A modernidade vem em consequência das boas gestões e dos laços que se reforçam com a torcida dentro do próprio palco. Desta maneira, o Aflitos sempre foi o que o Timbu quis para si. O que é seu, o local ao qual pertence. O Náutico “estava” Arena Pernambuco, mas nunca deixou de ser Aflitos.

As expectativas ao longo das últimas semanas eram enormes. A cada nova imagem divulgada dos Aflitos, a torcida do Náutico se sentia pronta a encerrar um período no qual foi desterrada, alheia na Arena Pernambuco. E o fim da espera se deu neste domingo, quando os portões do estádio voltaram a se reabrir à sua gente. Todos os caminhos de Recife fluíam em vermelho e branco, rumo ao bairro dos Aflitos. Rumo a uma tarde que não servia apenas para celebrar a reinauguração da praça esportiva, era também um reencontro com a história e com o simbolismo que faz cada torcedor se conectar com o Timbu. Cada um vivia a sua festa particular, enquanto os eventos promovidos pelo clube seriam os traços em comum para alimentar a memória coletiva que se preservará por décadas.

O primeiro jogo do domingo, a preliminar, reuniu velhos ídolos. Jogadores que marcaram os sucessos recentes do Náutico e também embalaram a torcida nos Aflitos. A homenagem se dava a Kuki, o que mais vestiu a camisa, aquele que ajudou os torcedores a terem mais carinho pelo estádio. Justa exaltação ao imenso ídolo do Timbu, o primeiro ovacionado nesta nova era do lar.

De qualquer forma, ainda tinha um jogo “valendo”. O amistoso inaugural contra o Newell’s Old Boys, escolhido para iniciar esta nova página dos Aflitos. E a vitória por 1 a 0 apontou ao futuro. O prata da casa Thiago, de 17 anos, anotou o gol decisivo ao Náutico. Deu ao clube a Taça Gena, batizada em homenagem ao ídolo do hexacampeonato que faleceu no último mês. Ao todo, 17.357 pessoas coloriram o espetáculo. Com a maior renda da história do futebol pernambucano, mais de R$1,5 milhão, já pagaram parte das obras. Deram vida ao estádio que sempre será parte de suas vidas.

A saudade foi o sentimento que regeu o retorno aos Aflitos. E não costuma ser diferente quando se passa tanto tempo longe de casa. Nota-se cada detalhe, o olho se prende em cada cor, a mente viaja em lembranças. O bairro dos Aflitos voltará a pulsar em vermelho e branco a cada dia de jogo. Porém, resgatar as raízes não deixa de ser um anseio, buscando o amanhã. É por ser tão Náutico novamente que se espera mais. As dificuldades e os sofrimentos corriqueiros são inescapáveis, acontecerão, a torcida sabe. Mas agora se está mais perto para ajudar. À curta distância, do velho alambrado à linha lateral, onde o Timbu sempre se fez mais forte. Volta o grito de incentivo ao pé do ouvido, volta o bafo quente na nuca do adversário, volta o brado que ecoa dentro de campo. A voz e o calor que conduziram os dias mais febris do fanatismo alvirrubro.