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Quando o Napoli escolheu Gennaro Gattuso como técnico, a surpresa foi grande. O treinador tinha deixado o Milan ao final da temporada passada, com a insatisfação de muitos torcedores e da própria diretoria do clube rossonero, onde ele fez história como jogador. A comparação imediata com o técnico demitido, Carlo Ancelotti, é cruel, por tudo que ele representa. Com o seu jeito sempre vibrante, com muita vibração, e mesmo com o seu histórico como jogador, pouco o viam como um técnico capaz de grandes elaborações táticas. É visto, na linguagem boleira, como um técnico motivador. Só que depois de um início conturbado, Gattuso tem mostrado mais do que isso.

Um dos pontos que chama a atenção na carreira de Gattuso como técnico é a sua trajetória. Encerrou a sua carreira pelo Sion, da Suíça, na temporada 2012/13, sendo técnico e jogador na reta final da campanha. Foi depois disso que ele trocou de vez de função. Seu primeiro trabalho efetivo foi no Palermo, em 2013, depois que o clube foi rebaixado à Serie B. Durante a temporada 2013/14, ele fez o curso da Licença Pro da Uefa e foi aprovado em setembro de 2014.

Ele ainda teve uma passagem conturbada pela Grécia, onde comandou o OFI Crete, que tinha problemas financeiros e atrasou salários. Ele se demitiu (duas vezes, em outubro, quando foi dissuadido da decisão, e depois em dezembro, de forma definitiva). Foi para o Pisa em 2015, onde conseguiu duas temporadas muito diferentes entre si. Na primeira, 2015/16, levou o time ao acesso da terceira para a segunda divisão (Lega Pro para a Serie B), ao vencer o playoff contra Foggia por 5 a 3 no placar agregado.

Na Serie B, porém, a história foi diferente. A temporada 2016/17 teve o Pisa como um dos piores times da liga, com 35 pontos em 42 jogos, e rebaixado de volta à terceira divisão. Curiosamente, o Pisa, 21º entre 22 times da Serie B, foi a melhor defesa da segundona italiana. Sim, isso mesmo: foram só 36 gols sofridos em 42 jogos, três gols a menos que a Spal, que acabaria campeã. Previsivelmente, o time teve o pior ataque da liga, com 23 gols, 10 a menos que o segundo pior ataque, o Vicenza Virtus – também rebaixado.

Sua trajetória seguiu com a sua ida para o time primavera do Milan, que é das categorias de base. Sua contratação aconteceu em maio de 2017 e em novembro daquele mesmo ano, ele subia de posto para assumir o time principal após a demissão de Vincenzo Montella. Levou o time ao sexto lugar, conquistando uma vaga na Liga Europa.

Depois de conseguir melhorar o time, ele ganhou uma renovação de contrato. Em abril de 2018, seu vínculo com os rossoneri foi estendido até 2021. Pouco mais de um ano depois, porém, em maio de 2019, ele foi demitido. Ao final da temporada 2018/19, o Milan foi quinto na tabela da Serie A, com uma eliminação na fase de grupos da Liga Europa.

Quando Antonio Conte, da Inter, enfrentou Gattuso, já pelo Napoli, no San Paolo, ele valorizou o trabalho do colega. “Eu acho que suas realizações no Milan foram subestimadas”, disse Conte, na época. “Eu tenho um grande respeito por ele, porque ele trabalhou no exterior e também na Serie C, o que nem todo técnico está disposto a fazer”. Naquele momento, Gattuso seguia sendo olhado por desconfiança. E o time de Conte venceu em Nápoles, aumentando o incômodo dos torcedores.

Gattuso tem um estilo de jogo muito distante dos seus dois antecessores. Maurizio Sarri não poderia ser mais distante do que pensa Gattuso. Carlo Ancelotti é um técnico um pouco mais pragmático, mas mesmo assim, montou times muito mais ofensivos. Só que olhando para o trabalho no Milan, e o futebol pobre que o time jogava, era compreensível a insatisfação dos rossoneri. O que ninguém sabia é que as coisas piorariam. Marco Giampaolo foi contratado para um outro estilo de jogo, mas durou apenas sete jogos. Chegou Stefano Pioli, que tenta recuperar o time – neste momento, 10º colocado na Serie A, mas longe de ter consistência.

Gattuso levou um Milan cheio de problemas, fora e dentro de campo, a uma quinta posição com um futebol bastante organizado defensivamente, compacto, que sabia se defender bem e era eficiente. Um time que tinha a cara do seu técnico. Passava longe de um jogo bonito, ainda mais um time do tamanho e história do Milan. O que parece ficar claro é que o time era pior do que se imaginava e Gattuso foi no limite, brigando por vaga na Champions League até a última rodada da Serie A. Ficou a um ponto da Inter.

O trabalho de Gattuso acabou minado por jogadores que ele morreu abraçado, como Hakan Çalhanoglu, Suso e Bakayoko – sendo que, destes, só o primeiro permanece no clube neste momento. Ele teve erros que, no fim, custaram os resultados que ele precisava para aproveitar a instabilidade da Inter e ficar com a quarta vaga na Champions League, que era a exigência da diretoria rossonera. O time dava a impressão de poder fazer mais do que fazia.

Passados alguns meses, hoje o trabalho de Gattuso pode ser olhado de outra forma. Para os torcedores, dá para imaginar até que sentem falta do que fazia o ex-volante, porque poderia aproveitar um ano que Roma e Napoli estão longe do seu melhor, ainda que Inter e Lazio tenham melhorado, e brigar novamente por vaga entre os quatro primeiros. O que mais dói no torcedor do Milan é que talvez com Gattuso, a situação fosse melhor do que é atualmente.

Os sinais no novo clube começaram a aparecer. O começo de trabalho de Gattuso no Napoli foi terrível. Foram quatro derrotas nos cinco primeiros jogos, o que levou muita gente que já desconfiava a ficar com os dois pés atrás. Só que aos poucos, o time começou a engrossar mais os jogos. Mesmo com esse histórico absolutamente negativo, em uma mesma semana conseguiu vitórias importantes contra Lazio, pela Copa da Itália, e Juventus, pela Serie A. Dois adversários que claramente viviam fases melhores, com elencos qualificados.

É verdade que perdeu do Lecce no fim de semana por 3 a 2, em um jogo maluco em casa. Só que neste meio de semana, enfrentou a Inter em San Siro, pela Copa da Itália, e arrancou uma vitória diante do time de Conte. Aquele mesmo que o elogiou, por saber que o trabalho do ex-volante não era assim tão ruim quanto parecia. Deixou o time mais perto da final do torneio e dar uma possibilidade de taça para os Partenopei, o que parecia improvável quando ele chegou.

Aos poucos, o técnico tem corrigido problemas do time e começou a reparar a rota do time. Ao menos nesses jogos grandes, o time tem sofrido menos gols bobos, defensivamente parece mais forte e o time está mais compacto. Ainda que a organização seja mais defensiva do que ofensiva, há uma melhora. Mesmo sem Kalidou Koulibaly, seu principal zagueiro, a defesa do time se comporta bem, dá bem menos espaços e mesmo quando é pressionada, não tem concedido chances claras.

Tal como foi com o Milan, Gattuso está tornando o Napoli uma equipe mais coesa, mais consistente e sólida defensivamente. É uma pá de cal no estilo de Maurizio Sarri, o que muitos torcedores podem lamentar. Afinal, foi com Sarri que o time atingiu o seu melhor desempenho nos últimos anos. Por outro lado, a campanha vinha mal e o time tinha problemas que aparentam estar melhorando sob o comando de Gattuso.

O técnico atual não parece ser alguém que transformaria Dries Mertens em um centroavante goleador, como fez Sarri. Mas também não sofre para adaptar o time a jogar sem Jorginho, que desde que saiu do clube pareceu fazer muita falta. Montou um outro tipo de meio-campo com a chegada de Demme, que tem se tornado importante para o time para dar mais equilíbrio. Saiu do 4-4-2 que Ancelotti usou muitas vezes e trouxe o time de volta a um 4-3-3, tornando o meio-campo mais físico e aproveitando mais o centroavante Arkadiusz Milik, com José Callejón e Lorenzo Insigne pelos lados.

Os desempenhos recentes em jogos contra Lazio, Juventus e Inter deram confiança ao presidente Aurelio De Laurentiis, que pensa em manter Gattuso para além desta temporada, segundo relatos da imprensa italiana. As desconfianças vão esmorecendo e o treinador, de 42 anos, tem a chance de provar que não é só um treinador motivacional. Poderá mostrar seu repertório tático e de montagem de time ao começar a próxima temporada pelo clube. Para isso, é preciso manter a consistência e seguir o caminho que parece ter encontrado. Assim, poderá mostrar a que veio e provar a sua capacidade no futebol italiano. Pelos sinais que tem dado, seria pouco inteligente duvidar dele.