O mundo perdeu dois grandes escritores, e o futebol perdeu dois brilhantes torcedores

Günter Grass e Eduardo Galeano nos ajudaram a entender o quão grande era o futebol

O grande escritor, Prêmio Nobel no currículo, se dirige para o palco. Livro em mãos, fará mais uma leitura pública. O que diferencia aquele evento de tantos outros que o autor já havia participado é que o cenário não era o auditório de alguma universidade. Era um campo de futebol, e os ouvintes se sentavam na arquibancada. Esse era Günter Grass, no centro do estádio Millerntor, ajudando a arrecadar fundos para tirar o St. Pauli da crise financeira.

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Grass foi um dos principais nomes da vida cultural alemã na segunda metade do século 20. Suas obras ganharam destaque a partir da década de 1950, expondo diversas feridas da sociedade alemã-ocidental pós-Segunda Guerra. Em 1999, recebeu o Nobel de Literatura, sendo exaltado pela comissão do prêmio como o responsável por recomeçar a literatura alemã após décadas de destruição moral e linguística.

Sua posição como pensador foi contestada nos últimos anos. Em 2006, revelou que se apresentou para a Waffen-SS, uma das forças militares da Alemanha nazista. O escritor tinha 17 anos e alegou não ter noção total do que aquilo representava (algo muito comum entre adolescentes alemães da época) e que queria apenas fazer algo que soasse mais fascinante que a rotina que levava. Houve relativa aceitação para suas justificativas (ainda que tenha recebido críticas pesadas na Polônia, onde nasceu), mas, quando escreveu um poema criticando a Alemanha por vender equipamento militar a Israel, foi considerado persona non grata pelo governo israelense.

O futebol não teve muito espaço em sua obra, mas teve em sua vida. Até porque ele sabia muito bem o quanto a bola representava para uma sociedade. Grass era torcedor do Freiburg. Por afinidade, e entender o papel ideológico do St. Pauli, também nutria muita simpatia pelo subversivo clube alvimarrom. Quando a equipe de Hamburgo caiu para a terceira divisão, em 2004, o escritor aceitou fazer uma leitura pública para arrecadar fundos.

Crítico ao nacionalismo alemão, viu na Copa de 2006 um momento raro em que esse orgulho foi usado de forma positiva. “Nós [alemães] podemos ter um papel responsável na Europa se pudermos justificar nosso próprio sentido de identidade nacional além do nacionalismo. Mas há aspectos agradáveis de ver pequenas bandeiras alemãs com as pessoas durante a Copa do Mundo. Eu vi mulheres dando chupetas com preto, vermelho e dourado para seus bebês. Esse tipo de coisa muda qualquer percepção de submissão”, afirmou em entrevista à revista Der Spiegel.

Na mesma conversa, foi perguntado se tinha medo de morrer. Disse que não, mas o futebol estaria entre as coisas que ainda o motivavam. “Eu percebi que, por um lado, estou preparado para isso. Mas também percebi que ainda tenho uma certa dose de curiosidade sobre as coisas. O que acontecerá com meus netos? Quais serão os resultados do futebol no fim de semana?”

Grass faleceu nesta segunda, 13 de abril, por infecção no pulmão. Ficará sem saber se o Freiburg vencerá o Mainz neste sábado e ficar mais longe da zona de rebaixamento, nem o que o St Pauli foi capaz de fazer nesta sexta contra o Nuremberg na tentativa de evitar a terceirona. Um rebaixamento que talvez o motivasse a fazer uma nova leitura pública de sua obra.

Esse mesmo sentimento vazio pode ser encontrado no Uruguai. Eduardo Galeano, também escritor, pensador, figura influente da esquerda e torcedor de futebol, foi vítima de um câncer. Poucos escritores traduziram tão bem a vida e a alma latino-americana, e é uma consequência natural que o futebol acabasse aparecendo na obra desse seguidor do Nacional.

Eduardo Galeano lê trecho de "Os Fllhos dos Dias" (AP Photo/Matilde Campodonico)
Eduardo Galeano lê trecho de “Os Fllhos dos Dias” (AP Photo/Matilde Campodonico)

“Futebol ao Sol e à Sombra” é um dos livros obrigatórios na prateleira de qualquer pessoa que sabe que o futebol é mais que o resultado de seu time no domingo. São pequenas crônicas sobre diversos elementos que formam o futebol. Abaixo vai um trecho do meu favorito desta semana (perdoe a falta de convicção, mas a cada semana algum parece ser a melhor coisa já escrita sobre futebol), “O torcedor”:

Quando termina a partida, o torcedor, que não saiu da arquibancada, celebra sua vitória, que goleada fizemos, que surra a gente deu neles, ou chora sua derrota, nos roubaram outra vez, juiz ladrão. E então o sol vai embora, e o torcedor se vai. Caem as sombras sobre o estádio que se esvazia. Nos degraus de cimento ardem, aqui e ali, algumas fogueiras de fogo fugaz, enquanto vão se apagando as luzes e as vozes. O estádio fica sozinho e o torcedor também volta à sua solidão, um eu que foi nós; o torcedor se afasta, se dispersa, se perde, e o domingo é melancólico feito uma quarta-feira de cinzas depois da morte do Carnaval.

Impossível não se apaixonar pelo futebol ao ler algo como isso. E mesmo uma pessoa absolutamente fanática pelo esporte consegue se reapaixonar por ele. É isso o que o grande artista faz. Sua obra eleva nossa capacidade de percepção sobre o mundo, sobre nós mesmos e sobre como nos relacionamos com o que nos cerca.

O mundo precisava ganhar novos Galeanos e Grasses, não perder os que já tinha.