Campeonatos de base nem sempre são tão simples de traçar prognósticos. As apostas entre os principais jogadores muitas vezes são claras, mas isso não garantem bons resultados. Há fatores que influenciam muito além do que se vê no profissional. Em especial, o protagonismo inesperado de atletas ou times que podem até vingar, muito embora saibam lidar com as condições de temperatura e pressão vividas naquele momento. E o Mundial Sub-20 de 2019, em especial, tem fugido do óbvio. Já se sabe que o campeão será inédito. Além disso, pouco a pouco, a maioria absoluta dos times considerados favoritos foi ficando pelo caminho. Melhor: com um punhado de partidas emocionantes. Nesta terça, acontecerão as duas semifinais na Polônia: Ucrânia x Itália e Equador x Coreia do Sul. Dá para arriscar qualquer palpite, mas cravar os resultados é temerário – e ótimo para a competição.

O Sul-Americano Sub-20 já tinha sido uma boa prévia do que poderia se ver no Mundial. Foi uma competição extremamente equilibrada, em que as seleções do continente apresentaram um bom nível e times fora do grupo dos favoritos convenceram. Sinal maior é que, enquanto o Brasil não se classificou à competição internacional, o Equador faturou um título inédito. La Tri está nas semifinais, mas não naquilo que pode se chamar de um caminho imaginável. Passou apenas entre os melhores terceiros colocados na fase de grupos, ainda que venha mostrando serviço durante os mata-matas. A etapa inicial, de qualquer maneira, já degolou teóricas forças.

Portugal foi a maior surpresa entre os que caíram precocemente. Não apenas porque os tugas vinham do título no Europeu Sub-19 de 2018, apresentando talentos inegáveis. A base da Seleção das Quinas ainda se reforçava com jogadores que começam a despontar em grandes equipes do continente. Mesmo assim, não resistiu em uma chave com Argentina e Coreia do Sul, eliminada entre os melhores terceiros colocados pelos critérios disciplinares. Nomes como Diogo Dalot, Rúben Vinagre, Jota, Gedson e Trincão foram para casa mais cedo. A Noruega, independentemente dos históricos oito gols de Erling Braut Haland, também caiu fora. Em uma chave cascuda, o México não resistiu e terminou na lanterna, apesar das boas peças como Diego Lainez e José Macias. Já a Arábia Saudita, campeã asiática, também não passou de fase.

Tantos exemplos já mostravam como era impossível ser tão assertivo neste Mundial Sub-20. E os mata-matas, além de derrubarem outras forças, se tornaram um prato cheio aos jogaços. Nas oitavas de final, foram duas decisões por pênaltis. A Colômbia suou sangue para eliminar a surpreendente Nova Zelândia na marca da cal, enquanto Mali empatou com a Argentina de Ezequiel Barco por 2 a 2 nos acréscimos do segundo tempo da prorrogação, mas não foi tão eficiente nos 11 metros. O Equador mostrou o seu caráter ao vencer a queda de braço com o Uruguai, virando por 3 a 1. Já o grande resultado foi dos Estados Unidos. Campeão da Concacaf, o US Team encarava a França, elevada por vários jogadores rodados. Os Bleus pareciam despontar como favoritos, após o desempenho impecável em seu grupo. Ledo engano. Os americanos saíram em vantagem, permitiram que os franceses virassem e arrancaram dois gols nos 15 minutos finais para vencer por 3 a 2.

Emoção suficiente? Não diante do que se viveu nas quartas de final. O Coreia do Sul x Senegal entrou para a história do Mundial Sub-20, como uma das partidas mais eletrizantes já registradas nas competições de base. O embate reunia duas equipes fortes em seus continentes e de boa caminhada na Polônia. De qualquer forma, o confronto em Bielsko-Biala foi um grande teste aos nervos. Senegal saiu em vantagem com Kevin Diagné, enquanto o promissor Lee Kang-in empatou cobrando pênalti no segundo tempo. A 15 minutos do fim, o igualmente badalado Ibrahima Niane recolocou os senegaleses em vantagem na marca da cal. Os sul-coreanos forçariam a prorrogação apenas nos acréscimos, mais precisamente no 98° minuto de jogo, com cabeçada de Lee Ji-sol. E teria mais. Os asiáticos viraram com Cho Young-wook no primeiro tempo extra, antes que Amadou Ciss anotasse um tento agônico no 121° minuto, fechando a conta em 3 a 3. Já nos pênaltis, a Coreia do Sul perdeu suas duas primeiras cobranças, mas conseguiu se refazer e ganhar de virada por 3 a 2.

O nível de dramaticidade nem se compara, mas os demais duelos das quartas também contaram com embates equilibrados. Menos badalada que outros europeus, a Ucrânia negou o favoritismo da Colômbia. Um gol do artilheiro Danylo Sikan, diante da saída desastrada do goleiro, valeu o triunfo por 1 a 0. O Equador não quis saber do embalo e derrubou os Estados Unidos em 15 minutos eletrizantes antes do intervalo. José Cifuentes abriu o placar com um petardo, o aclamado Tim Weah empatou e Jhon Córdoba determinou a classificação aproveitando rebote, após uma linda bola no travessão. No segundo tempo, La Tri poderia ter feito mais, com direito a outro lance contra o travessão e a um milagre do goleiro americano. O feito contra a França não valeu tanto ao US Team.

Já o placar mais dilatado foi registrado pela Itália. Os Azzurrini tiveram as circunstâncias a seu favor, mas os 4 a 2 sobre o heroico Mali foram bem difíceis. Em 20 minutos, os malineses concederam um gol contra inacreditável e tiveram um jogador expulso, mas por duas vezes buscaram o empate quando os italianos passaram à frente no placar. O triunfo só se confirmou após os 39 do segundo tempo, com os dois tentos derradeiros dos europeus, carregados pelo capitão e artilheiro Andrea Pinamonti. Mesmo assim, o goleiro Alessandro Plizzari pegou um pênalti no fim para evitar a reação dos africanos.

Cada time nas semifinais possui a sua superação particular. O caso da Itália é o mais emblemático. A federação priorizou o Europeu Sub-21 e alguns jogadores talentosos com idade para o Mundial não foram incluídos. Poderiam ter uma equipe bem mais forte, contando também com Moise Kean, Nicolò Zaniolo e Sandro Tonali. Em compensação, o momento de Pinamonti na Polônia é tão bom que, ao final do torneio, ele se juntará à categoria acima para disputar a competição continental. Pegando demais, Plizzari é outro destaque. A Ucrânia, que já tinha dado bons indícios no Europeu Sub-19, apesar da goleada nas semifinais sofrida diante de Portugal, se refez dos erros e aproveita o poder decisivo de Sikov na frente, assim como de Denys Popov, zagueiro que aparece com frequência para anotar gols. O goleiro Andriy Lunin, que perdeu as quartas de final por se juntar à seleção principal, também desponta.

Considerando que Argentina, Uruguai e Colômbia tinham destaques individuais até mais badalados, o Equador mais uma vez referenda o seu forte conjunto. La Tri demorou um bocado a engrenar, empatando com o Japão e perdendo para a Itália em seus dois primeiros jogos, mas se reergueu com enormes resultados nos mata-matas. Mesmo passando em branco, o atacante Leonardo Campana facilita o trabalho dos companheiros, enquanto Alexander Alvarado e Gonzalo Plata dão um ótimo suporte pelas pontas. Já a Coreia do Sul possui um time mais resguardado, apesar da loucura contra Senegal. Promessa do Valencia, Lee Kang-in dá o toque de qualidade, enquanto Oh Se-hun possui muita presença de área.

Expectativas? Teoricamente, Itália e Equador estão um passo à frente, por possuírem maiores talentos. Ainda assim, as superações de Coreia do Sul e Ucrânia indicam que não estão muito atrás. Devem ser dois jogos imprevisíveis. Por isso mesmo, imperdíveis para se acompanhar.