Clube de grande torcida, com um elenco cheio de estrelas, que atravessava um longo jejum no torneio continental e vinha de frustrações na luta por sua maior obsessão. A descrição poderia se encaixar perfeitamente ao Flamengo, mas demonstra como há muitas semelhanças do Al Hilal com o seu possível adversário na semifinal intercontinental. Não falta poder e não falta apelo aos sauditas, donos de enorme tradição na Ásia. O Mundial de Clubes, no entanto, servirá para que mais gente possa conhecer essa história. Exceção feita a Liverpool e Flamengo, os azuis parecem realmente os que têm melhores condições para almejar a decisão. É o favorito para o duelo contra o Espérance neste sábado.

O Mundial de Clubes demorou a vir ao Al Hilal. O primeiro título do clube na Champions Asiática aconteceu em 1991, quando o torneio intercontinental além de Europa e América do Sul era apenas uma utopia. Já a segunda taça poderia ter garantido a presença dos sauditas no certame da Fifa. Ficou na vontade. Os azuis foram campeões em 2000, o que confirmaria a participação no Mundial de 2001. O problema é que a ISL faliu, a competição não aconteceu e apenas o rival Al-Nassr teve o gosto de desafiar os oponentes de outros continentes naquele momento. Depois disso, o Al-Ittihad ganharia o direito de figurar no torneio durante a retomada do projeto em 2005.

Mesmo dominando o Campeonato Saudita neste século, como sete títulos, o Al Hilal não apresentava a mesma competência além das fronteiras. A Champions Asiática se tornou uma pedra no sapato. E as frustrações começaram a parecer um karma. Diferentemente do Flamengo, os sauditas chegavam longe na Champions Asiática, mas falhavam na hora do “vamos ver”. Em 2014, o time de Thiago Neves e Digão era favorito na decisão contra o Western Sydney Wanderers. Esbarrou no forte sistema defensivo dos australianos, apesar do domínio em ambos os duelos. A mesma decepção aconteceria na final de 2017, contra o Urawa Red Diamonds. Treinado por Ramón Díaz, o Al Hilal tinha o sírio Omar Kharbin como sua principal figura. Dois placares magrinhos garantiram a festa dos japoneses.

O Al Hilal pôde dar um salto na temporada passada. Príncipe herdeiro do país, Mohammed bin Salman vem realizando uma série de modernizações e possui um plano de diversificar a economia saudita até 2030. O esporte está incluído entre suas metas, sobretudo o futebol – também como uma ferramenta diplomática e de influência internacional. Os clubes passaram a receber o financiamento do estado, com parte das riquezas da companhia nacional de petróleo redirecionadas ao desenvolvimento do Campeonato Saudita. Além disso, a liga também aumentou o seu limite para estrangeiros. Propriedade da família real, como outros grandes, o clube de Riad foi o que mais aproveitou a injeção financeira. Honrou uma tradição de astros, a quem já tinha levado até Rivellino para o Oriente Médio.

Olhando apenas para os gastos em reforços, o Al Hilal investiu menos que outros grandes do país. Em compensação, aproveitou as oportunidades de mercado para atrair estrelas e inchar sua folha salarial. De uma só vez, os azuis contrataram Bafétimbi Gomis, André Carrillo e Sebastian Giovinco – além de outros jogadores que não deram tão certo, como Jonathan Soriano e Omar Abdulrahman. Formou-se a espinha dorsal do time campeão continental. O esquadrão ainda não havia dado frutos na Champions Asiática de 2018, com a eliminação precoce na fase de grupos antes da abertura do mercado. Já no Campeonato Saudita, o vice em 2018/19 foi doloroso, depois que o Hilal liderou a maior parte da campanha e ficou um ponto atrás do Al Nassr.

Gustavo Cuéllar tornou-se a grande novidade para 2019/20. Mais importante, a base que já estava demonstrou toda a sua capacidade e finalmente conquistou a Champions Asiática, após uma espera de 19 anos. Ao longo da campanha, os azuis tocaram o terror contra outras potências do Oriente Médio. Eliminaram Al Duhail, Esteghlal e Al Ain na fase de grupos. Superaram também os vizinhos Al Ahli e Al Ittihad no início dos mata-matas. Já a grande vitória da campanha aconteceu nas semifinais, contra o Al Sadd, com direito à goleada por 4 a 1 no Catar. A decisão seria protocolar, apesar do gosto de revanche. O Urawa Red Diamonds protagonizava um milagre só por ter chegado tão longe. Perdeu os dois jogos, em que os placares até ficaram devendo a superioridade dos sauditas.

Outra semelhança com o Flamengo: a decisão continental no final de novembro garante que os dois times cheguem embalados. O Al Hilal ainda está longe de conquistar o Campeonato Saudita, mas faz ótima campanha e permaneceu na liderança até ficar com jogos a menos por conta dos compromissos internacionais. Além disso, a boa fase atravessada por diversos jogadores motiva.

A força do Al Hilal está mesmo na sua linha de frente. O técnico Razvan Lucescu (filho de Mircea), contratado no meio do ano após ser campeão grego com o PAOK, costuma variar sua equipe entre o 4-4-2 e o 4-2-3-1. Dá liberdade no ataque às combinações entre Gomis e Giovinco, duas estrelas que se complementam entre potência física e mobilidade. Resultado? Gols. O francês é quem mais aproveita a fase prolífica, artilheiro da Champions Asiática com 11 tentos em 14 aparições. Giovinco, se não brilha tanto quanto nos tempos de Toronto, segue levando perigo com suas finalizações e contribuindo com assistências.

André Carrillo não fica por menos, aberto pelos lados do campo, e até anotou o gol da vitória no primeiro jogo da final da Champions. Aparece muito no apoio e também se empenha na marcação. E não que os talentos sejam apenas estrangeiros. Quem aparece pela esquerda é Salem Al-Dawsari, destaque da seleção saudita na Copa do Mundo. O armador demonstra uma qualidade técnica acima do comum para os jogadores da região, perigoso sobretudo em seus dribles. E o leque de opções ofensivas ainda guarda Omar Kharbin e Carlos Eduardo (ex-Nice e Porto), que podem atuar em diferentes funções mais à frente. O brasileiro, aliás, é o artilheiro do time no Campeonato Saudita, enquanto os medalhões estrangeiros ganhavam um descanso por causa da Liga dos Campeões.

Cuéllar não pôde ser inscrito na Champions Asiática, mas entra na cabeça de área pelo Campeonato Saudita. Em seu setor, Abdullah Otayf é outro jogador de seleção. O lamento fica pela lesão do capitão Salman Al-Faraj, que virou desfalque após se lesionar às vésperas do torneio. Será uma perda sentida na tarefa de construir o jogo.

Ainda assim, a principal preocupação fica para o equilíbrio da defesa. O único nome estrangeiro por ali é o sul-coreano Jang Hyun-soo, enquanto o goleiro Abdullah Al-Mayouf e o lateral Yasser Al-Shahrani são os destaques locais que costumam defender a seleção. Se sobra vigor na frente, são difíceis os jogos em que o Al Hilal termina sem sofrer gols. Todavia, a postura mais paciente exibida contra o Urawa nas finais indicou um caminho à equipe, que costuma combinar intensidade e qualidade com a posse de bola. Deverão se resguardar mais.

A oportunidade no Catar ainda deve servir como uma bela despedida a Mohammad Al-Shalhoub. Aos 39 anos, o camisa 10 tende a fazer a sua última temporada como profissional. Presente em duas Copas do Mundo, o meia é considerado um dos maiores jogadores da história da Arábia Saudita – e também ocupa um posto alto no rol de grandes ídolos do Al Hilal. Ele fazia parte do grupo que conquistou a Champions Asiática em 2000, sem nunca ter vestido a camisa de outro clube nestas duas décadas de carreira. Cumprirá o sonho da torcida. Apesar da idade, a lenda azul entrou em 12 dos 14 jogos na Liga dos Campeões e anotou três gols, inclusive na semifinal contra o Al Sadd.

A torcida, mais do que isso, esperava viver ela própria o Mundial de Clubes em sua máxima intensidade. Não é apenas o tamanho da massa do Al Hilal que chama atenção, com boas médias de público no Campeonato Saudita. O que mais pesa é o fanatismo e a mobilização constante dos azuis. Os espectadores do Hilal realizam marcantes espetáculos nas arquibancadas, sobretudo por seus mosaicos. Enquanto o clube fracassava na Champions, dava até pena do calvário dos torcedores. Enfim, experimentaram a euforia.

Uma pena que a presença dos sauditas nos estádios catarianos será mínima. Em teoria, a invasão poderia ser massiva pela proximidade entre os países. Contudo, as relações diplomáticas rompidas entre Arábia Saudita e Catar criam barreiras aos vistos. Vai ser difícil ver os azuis nas arquibancadas, por todos os impedimentos. Com isso, o Al Hilal perde um apoio que poderia ser até mesmo decisivo.

E o Mundial, enfim, poderá proporcionar ainda o reencontro de Jorge Jesus com o Al Hilal. O treinador do Flamengo passou por Riad em 2018, participando do intenso mercado de transferências, e deixou a equipe por divergências com os dirigentes. De qualquer maneira, o respeito à instituição prevalece nas palavras do português. “Nas últimas semanas fui questionado algumas vezes sobre os possíveis adversários do Flamengo no Mundial. Quando falo que precisamos ter muito cuidado com o Al Hilal, não estou querendo esconder nada. Falo com convicção pois montei esse time. Tem ótima estrutura, bons jogadores e será um jogo para ser jogado com muita atenção e seriedade”, escreveu, em suas redes sociais. Uma imponência que os azuis tentarão transmitir ao resto do planeta nesta competição.