O Mundial de Clubes surgiu como uma oportunidade ao Monterrey, mas não exatamente em um momento oportuno. Os Rayados precisaram interromper a preparação às finais do Torneio Apertura da Liga MX 2019/20 para viajar ao Catar. A equipe de Antonio Mohamed esteve a ponto de derrotar o Liverpool na semifinal, antes de poupar jogadores durante a disputa do terceiro lugar, quando ainda assim bateu o Al-Hilal. E a dedicação ao Campeonato Mexicano rendeu frutos. Neste domingo, apesar da derrota por 2 a 1 no tempo normal, o Monterrey conquistou o troféu do Apertura ao superar o América nos pênaltis, por 4 a 2, dentro do Estádio Azteca. É o quinto título nacional do clube, rompendo um jejum que durava desde 2010.

O Monterrey realiza um dos trabalhos mais estáveis do Campeonato Mexicano ao longo da década. O clube possui um ótimo estádio, potencial econômico e geralmente monta equipes competitivas. Faltava, porém, retornar ao topo da Liga MX. A reconquista da Concachampions nesta temporada, em cima do rival Tigres, foi um excelente indício do que a agremiação poderia almejar. Ainda assim, o título nacional cismava em escapar. Desde a vitória no Apertura 2010, com a base futuramente tricampeã continental, os Rayados perderam três decisões do Campeonato Mexicano – as duas últimas em 2016 e 2017. Além disso, também haviam acumulado as maiores pontuações da liga em 2016/17 e em 2017/18, sem ficar com a taça.

Durante o primeiro semestre de 2019, o Monterrey realizou um bom Clausura, mas caiu diante do Tigres nas semifinais. Os Rayados viram os rivais conquistarem seu quarto título da liga desde 2015. A resposta, pelo menos, não demoraria a vir. Oitavo colocado na fase de classificação, o time de Antonio Mohamed passou aos mata-matas do Apertura 2019 no limite, graças a uma recuperação na reta final. Todavia, mostrou sua capacidade ao golear o favorito Santos Laguna por 5 a 2 nas quartas de final e despachar o Necaxa com duas vitórias nas semifinais. O América do México seria um duro desafio na decisão. De qualquer maneira, os regiomontanos sublinharam o excelente momento.

O desgaste da viagem ao Mundial e a ausência do artilheiro Vincent Janssen, inicialmente no banco, poderiam ser problemas ao Monterrey no primeiro duelo com o América, dentro do Estádio BBVA. Os Rayados, no entanto, arrancaram uma épica vitória por 2 a 1. O gol decisivo só aconteceu aos 48 minutos do segundo tempo. E que golaço: Rogelio Funes Mori matou no peito e emendou uma bicicleta para decretar o triunfo dos anfitriões. Com o resultado, os regiomontanos teriam a vantagem do empate no reencontro com o América dentro do Estádio Azteca, neste domingo. Mas, de novo, dependeriam do centroavante para buscar a taça.

Durante o primeiro tempo, o América construiu um resultado parcial que garantia seu título no Azteca. E até poderia ter goleado. Federico Viñas abriu o placar logo aos seis minutos, ao encarar a marcação e soltar a bomba, enquanto Richard Sánchez acertou um lindo chute colocado para ampliar aos 41. As Águilas ainda viram dois gols anulados por toques de mão, além de terem acertado a trave. O Monterrey, dominado, pouco exigira de Guillermo Ochoa ao longo dos 45 minutos iniciais.

Antonio Mohamed promoveu a entrada de Janssen no segundo tempo e o Monterrey conseguiu reagir. Outra vez, Funes Mori apareceu. Aos 30 minutos, após jogada de Dorlan Pabón, o argentino surgiu livre dentro da área para descontar. O Monterrey ainda poderia ter saído com o empate no tempo normal, mas Ochoa realizou uma defesaça para evitar o tento de Charly Rodríguez. O placar invertido em relação ao primeiro jogo forçou a prorrogação. E o América, outra vez, esteve mais perto do título no tempo extra. Por mais que Charly Rodríguez desse trabalho, Viñas acertou uma cabeçada no travessão de Marcelo Barovero a cinco minutos do fim. Nada, porém, que pudesse evitar a definição nos pênaltis.

Na marca da cal, o Monterrey foi mais preciso. Marcelo Barovero e Guillermo Ochoa fizeram uma defesa cada, entre a primeira e a segunda série de cobranças. Contudo, a péssima batida de Guido Rodríguez para o América, isolando o terceiro chute de sua equipe, determinou o resultado. Todos os outros cobradores dos Rayados converteram e Leonel Vangioni tratou de selar a vitória por 4 a 2. Assim como ocorrera em 2009, o Monterrey se coroou dentro do Estádio Azteca – na ocasião, após derrotar o Cruz Azul na final.

Antonio Mohamed é um dos grandes personagens da atual conquista. O argentino teve uma expressiva passagem pelo Monterrey entre 2015 e 2018, mas venceu apenas uma Copa MX. Seu retorno aconteceu em outubro, em meio aos riscos do time no Apertura, após uma série ruim sob as ordens do uruguaio Diego Alonso. “El Turco” colocou ordem na casa, conquistou a classificação e fez os Rayados renderem o seu máximo com um futebol agressivo. A ascensão nos mata-matas evidencia os méritos do comandante, até o momento só derrotado pelo Liverpool neste seu retorno. É o terceiro título de Mohamed na Liga MX, após ter sido campeão com o Tijuana em 2012 e com o próprio América em 2014.

Já dentro de campo, o Monterrey se valeu de um bom conjunto, que superou adversidades e ausências. Dono da braçadeira de capitão, Dorlan Pabón possui um papel decisivo à ofensividade da equipe. Janssen fez valer a aposta em seu futebol com gols importantes na ascensão dos Rayados, ainda que Funes Mori tenha suplantado o holandês muito bem nestas finais. César Montes e Jesús Gallardo são bons valores do futebol local, enquanto Charly Rodríguez esbanjou talento para conduzir a meia-cancha e criou as melhores chances do time na final. Além do mais, nomes rodados como Celso Ortíz, Leonel Vangioni e Marcelo Barovero oferecem experiência dentro do grupo.

A conquista encerra um ano especial ao Monterrey. O clube precisou se reerguer no meio do caminho, mas ainda assim fecha 2019 com dois enormes títulos, além da mais digna participação de um representante mexicano no Mundial de Clubes. O poderio econômico dos clubes do norte do país tem mudado um bocado o eixo da Liga MX. Até pela rivalidade com o Tigres, a resposta dos Rayados vem em ótimo momento para celebrar sua força.