O Monterrey encerra a década como o time mais dominante do futebol de clubes da Concacaf. Entre 2011 e 2013, os Rayados já tinham demarcado território com um histórico tricampeonato na Concachampions, uma sequência vitoriosa que não era registrada na competição desde o início dos anos 1970. Já nesta quarta-feira, o clube mexicano recuperou o trono. Dentro do Estádio BBVA Bancomer, sua moderna casa inaugurada em 2015, a equipe treinada por Diego Alonso faturou o título desta temporada. E não de qualquer maneira: a conquista aconteceu exatamente em cima do Tigres, seu grande rival. Pior, infligindo o quarto vice aos felinos em competições continentais, nas quais continuam virgens. Apesar da sufocante pressão sofrida no final, o time da casa festejou a taça com um empate por 1 a 1, já suficiente para a coroação.

A conquista do Monterrey havia se encaminhado no primeiro jogo. A pressão costumeira no Estádio Universitário não foi suficiente para intimidar a equipe e Nicolás Sánchez determinou a vitória por 1 a 0 dentro da casa do Tigres. Ainda era uma missão complicada, considerando a força dos rivais, algozes recentemente até em final do Campeonato Mexicano – no Apertura de 2017. De qualquer maneira, a torcida dos Rayados se encheu de confiança para uma noite marcante no Estádio BBVA Bancomer. Antes da entrada em campo, as luzes tomaram o local e as arquibancadas pulsaram à espera de uma noite histórica. Não demoraria a acontecer.

O Monterrey, afinal, não se acomodou diante da vantagem. Os Rayados partiram para cima durante o primeiro tempo e criaram as melhores oportunidades. Foram premiados com o primeiro gol da finalíssima. A oportunidade surgiu aos 25 minutos, em pênalti cometido pelo Tigres. Herói na ida, Nicolás Sánchez apareceu de novo. O zagueiro argentino, que antes já havia erguido taças por River Plate e Racing, assumiu a responsabilidade na cobrança. Bateu no meio do gol, suficiente para tirar a bola do alcance do goleiro Nahuel Guzmán, que caiu para o outro lado. A vantagem agregada deixava uma duríssima tarefa aos felinos.

O técnico Tuca Ferretti havia tomado a questionável decisão de não escalar André-Pierre Gignac entre os titulares. Grande figura do Tigres nas últimas conquistas do clube, o centroavante não participou das fases anteriores da Concachampions. Sofreu uma lesão em março e também chegou a ser poupado para a Liga MX, mas já estava recuperado para a final continental. Saiu do banco no primeiro jogo e, de novo, começou na reserva durante o duelo desta quarta. Porém, a necessidade pesou e a alteração aconteceu logo na volta do intervalo, com a troca por Eduardo Vargas. O francês representaria o maior perigo ao Monterrey.

Se a entrada de Gignac demorou a acontecer, cabe dizer também que Marcelo Barovero foi o herói da decisão. Campeão da Libertadores com o River Plate em 2015 (frustrando o próprio Gignac), o veterano é uma das referências na atual equipe dos Rayados. E ressaltou seu protagonismo com uma defesa incrível aos nove minutos. O centroavante subiu alto e emendou de cabeça. Mandou uma bola difícil, no canto, em direção ao chão. De maneira fantástica, o goleiro conseguiu salvar com a ponta dos dedos. Um milagre que permitia aos anfitriões respirarem e evitarem perigos maiores.

O segundo tempo inteiro, aliás, foi recheado de lances inacreditáveis. Artilheiro do Monterrey na Liga MX, Rogelio Funes Mori quase anotou um gol espetacular. Guzmán falhou ao ficar perdido no meio do caminho, em um contra-ataque dos oponentes. Ainda assim, o atacante argentino caprichou na definição, em um chutaço por cobertura da intermediária. A bola explodiu no travessão da meta adversária, impedindo que a final fosse definida naquele instante. Providenciou emoção nos minutos finais.

Gignac mostraria sua efetividade com uma pintura, aos 40 minutos. Aproveitou o cruzamento de Luis Rodríguez para emendar um voleio perfeito, desta vez indefensável a Barovero. Mas o empate não era suficiente ao Tigres. Precisando de mais um gol para forçar os pênaltis, o time de Tuca Ferretti dava sequência a uma pressão incessante. Contudo, também se perdeu no nervosismo e o excesso de bolas cruzadas não teve resultado. O apito final desatou o nó na garganta dos Rayados, para soltarem o grito de campeão. Seis anos depois, a equipe volta a faturar a Concachampions. Desta vez, sem permitir que os rivais compartilhem da dinastia mexicana no torneio. Apesar do investimento massivo nos últimos anos, os felinos bateram na trave em 2016, 2017 e 2019 – além do revés na decisão da Libertadores em 2015.

Treinador do Monterrey, Diego Alonso veio referendado pelo trabalho que já realizava no futebol mexicano. Aos 44 anos, o uruguaio possui um currículo respeitável para a idade. Além dos troféus acumulados nos tempos de jogador, ex-atacante de vasta passagem pelo futebol espanhol e pelos grandes de seu país, o veterano havia recolocado o Pachuca no caminho das taças. Faturou o Clausura em 2016 e a própria Concachampions (contra o Tigres, claro) em 2017. Chegou ao norte do México para tornar os Rayados mais competitivos e, em um ano, marca seu nome na história, oferecendo um futebol agressivo aos seus comandados.

E, embora não possua jogadores tão badalados quanto o Tigres, o Monterrey também conta com um elenco fortíssimo. A base titular que atuou nesta quarta-feira teve vários atletas com nível de seleção. Barovero é um goleiro cuja trajetória fala por si. A defesa possuía Miguel Layún e Jesús Gallardo, que disputaram a Copa com o México, além do colombiano Stefan Medina e do argentino Nicolás Sánchez – este, eleito o melhor jogador da competição. No meio, o rodado paraguaio Celso Ortíz e o mexicano César Rodríguez. Os colombianos Dorlán Pabón e Avilés Hurtado dão velocidade pelas pontas, enquanto Rodolfo Pizarro (outro nome constante na seleção local) se encarrega da armação. Por fim, Rogelio Funes Mori comanda o ataque, em franca ascensão desde que se mudou ao México. Isso sem contar as outras opções, que incluíam César Montes, Jonathan Urretaviscaya, Leonel Vangioni, Ángel Zaldívar e Maximiliano Meza. O veterano José María Basanta permanece como elo ao time tricampeão continental no início da década.

Há tantas alternativas que fica difícil até para Diego Alonso montar seu banco de reservas. Ainda assim, o Monterrey possui mais de um time para brigar pela Concachampions e também seguir com força na Liga MX. Novamente será candidato ao título no Clausura, ocupando a terceira colocação na fase de classificação. E, caso ocorra mesmo o Mundial de Clubes em dezembro, tentará reescrever a história de vexames dos mexicanos. Se o próprio timaço tricampeão não ajudou muito neste sentido anos atrás, caberá a esta geração tentar lavar a honra do país. Capacidade, como de costume, não falta. Basta ver o que realizaram em uma decisão que guardava justamente o maior clássico do clube, frustrando os grandes rivais.